23.10.05

As "conversas de casa de banho"


É uma piada que os homens dizem muito, isso de que as mulheres adoram conversar na casa de banho. E o complicado é que até é verdade. Simétrico ao “quando mija um português…”, temos de reconhecer que “quando uma portuguesa vai à casa de banho, vai logo uma amiga atrás”. E, se repararmos bem, isso surge na adolescência. Quanto a mim, nasce do ponto bem evidente de ser o único lugar de uma casa onde se pode ter total privacidade. Quanto temos 13 ou 14 anos e queremos trocar confidências com uma amiga, não é na sala, na varanda, no quarto, na cozinha. Aí pode sempre aparecer outra pessoa a interromper. Na casa de banho não. É suposto, se a porta está fechada, que ali é privado.
Depois crescemos, e já podemos definir o nosso espaço privado, mas há hábitos que ficam. Claro que se estivermos sozinhas em casa com uma amiga, conversamos no sítio onde se está, mas se é numa festa, numa reunião, ou muito simplesmente se há mais família presente, é irresistível o fascínio da casa de banho.
Tenho de confessar que soube coisas importantes dentro de casas de banho! Uma informação que pôs o ponto final numa relação de muitos e muitos anos, recebi-a com a minha amiga sentada na borda da banheira e eu encostada ao lavatório. E dá muito jeito, estarmos numa casa de banho, porque se pode lavar a cara para fazer de conta que não se chorou. E lembro outra situação, muito cómica desta vez, em que depois de uma reunião de trabalho, fomos à casa de banho eu e uma colega amiga, e a conversa foi tão prolongada que toda a gente se foi embora, e às tantas andávamos a percorrer os corredores enormes do edifício sem ver viv’alma e sem encontrar a saída… Valeu-nos um segurança nocturno ou ficaríamos ali toda a noite. Eu penso que isto tem a ver com a capacidade que nós temos de falar com mais facilidade das nossas emoções, dos nossos problemas pessoais. Dos homens que conheço, não direi que eles também não se analisem, mas quase sempre fazem-no com uma amiga e não com um amigo. Parece existir nos homens uma barreira invisível, de pudor, de resistência a mostrar que sofrem, como qualquer ser humano, não só por factos mas também por sentimentos. Para uma mulher, o falar é uma catarse muitas vezes. Ficamos aliviadas quando “desabafamos”, o que quer dizer que andávamos “abafadas”, com falta de ar. E quando se conversa na casa de banho, a maioria das vezes não é do que se passou, mas daquilo que sentimos, de como os factos nos afectaram. E sabe muito bem, ouvir um eco bem receptivo na pessoa que nos escuta a um metro de distância.

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