20.10.05

As mulheres da minha família


Eu ainda sou do tempo em que se agitava a famosa bandeira «on de naît pas femme: on le devient» e tive em minha casa e na minha família modelos para todos os gostos.
Se queria chegar a uma mulher “feminina” no sentido mais tradicional tinha que subir na árvore genealógica até à avó. UMA das avós, atenção. A outra era uma rebelde! Mas a minha avó paterna era um modelo. Tudo o que fazia era perfeito! Metia-me alguma raiva, como se pode imaginar porque a perfeição é irritante. Mas aquela senhora podia ter ganho um prémio da dona de casa modelo. Costurava, cozinhava, geria as finanças domésticas com economia, arrumava, limpava, e aceitava o seu lugar secundário dentro da hierarquia doméstica sendo a primazia do marido. Dizia-me com orgulho que só tinha dado um beijo na boca ao meu avô depois de casada. Porque era uma senhora muito decente, e sempre me quis convencer que o sexo era para procriar, mas de resto era uma porcaria. Tinha de ser porque os homens gostavam, mas era melhor não se falar disso.
A avó rebelde era o oposto. Esta, acho eu que era perfeita, mas a pensar. Uma fonte de ternura e meiguice, razoável dona de casa mas sem se ralar lá muito com isso, nessa altura havia criadas e elas que se ralassem, lia muito, sabia música, adorava conviver, e era um espírito muito aberto. Tinha muitas amigas, conversava, saía, tinha opiniões fundamentadas. Escuso de acrescentar que eu adorava esta avó…
E depois a minha mãe. Uma intelectual. Naquela altura tinha de se saber um mínimo do governo de casa, mas ela sabia mesmo apenas o tal “mínimo”. Trabalhava de igual para igual com o meu pai ( até talvez mais, e talvez ganhasse mais) e as questões domésticas eram totalmente secundárias. Quando eu era pequenina vivia lá uma tia-avó que se encarregava dessas coisas. Contudo, curiosamente, com esta autonomia e autoconfiança que a minha mãe tinha, eu sempre senti que quem “mandava” era o meu pai. É claro que as coisas eram discutidas entre os dois, e procurava-se um acordo, mas… a palavra final era a do homem.
Com isto tudo queria explicar que me foi difícil escolher um modelo de identificação. Fiquei assim a modos que um patchwork: gostava de ter a sensibilidade da avó materna, as capacidades intelectuais da minha mãe, ser cordon bleu como a avó paterna. Uma confusão. Pronto, fiquei assim, como sou. Olhem, podia ser pior!

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