26.10.05

olhar excêntrico

quando era miuda morria de inveja duma vizinha minha que era vesga. na altura já achava que a simetria era algo um bocado matricial demais, e achava lindo aqueles olhos tortos, um deles virava para fora (mais tarde descobri que chamavam a isso estrabismo excentrico: lindíssimo - sempre senti uma atracção secreta pela excentricidade). a miúda em si era um bocado toina, mas aqueles olhos possuiam um poder qualquer que eu, miuda com os olhos normais, não conseguia entender. achava um bocado horrivel ela andar com uns óculos com uma lente tapada (diziam-me que havia um furinho minusculo na máscara por onde o olho deveria ser educado a espreitar, mas eu não acreditava). e o olho tapado com aqueles óculos foleiros apenas fazia recrudescer em mim a atracção por aquele olhar. achava que eles viam mais do que os outros. e pedia-lhe para ela não usar os óculos nas brincadeiras de miudas que partilhávamos nos pequenos jardins das casas das nossas avós. chegava a esconder-lhe os óculos de propósito nos canteiros das flores, ela não ligava muito, penso até que ficava aliviada por não andar com aquela coisa, embora por vezes os reclamasse com ar importante e havia fita e ameaça de queixinhas as mães das nossas mães, num assumo da superioridade que sabia que exercia sobre mim.
da miuda perdi-lhe o rasto. mas a atracção pelos vesgos perdura, é qualquer coisa que existe desde que me conheço, e que talvez numa das formas mais recuadas me deu a conhecer a diferença dos corpos e dos entes neles contidos, a alteração subtil das dinâmicas pelas diferenças a descobrir em mim e nos outros.

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