25.10.05

personagem secundária

cresceu a modos de discretamente, tentando não chatear uma família problemática com dramas variados. raramente pedia alguma coisa, partilhava quase tudo - falta o muito importante 'quase' - , e dava sobretudo paciencia e mão de obra variada. habituou-se a um lugar estrategicamente no discreto, tinha uma esperança do caraças no futuro algo longínquo, aquele em que seria crescida e dona de si.
ficou uma sobra especular do que aprendeu a designar de 'síndroma de personagem secundária'.
foi averiguando dos seus efeitos de formas variadas: foi puta de dia -não dava jeito em casa sê-lo de noite, por causa das justificações - com pagamento exclusivo em experiencias das variações de afecto, por entre o ser boa aluna e menina de decoro, mais do que de coro, não havia tempo para ser tanta coisa.leu avidamente ' a vida sexual de Catherine M.',quando saiu a edição portuguesa, onde se reviu em episódios da procura do que sempre faltou. foi procurando entender ao longo da sua vida o lugar de quem encorna e o da encornada, esse processo estranho que observava na sua casa de menina, a de família, essa dinâmica devastadora e simultaneamente cimento que lhe trazia o pai no fim de contas sempre a casa, refeito com culpas para continuar; a mãe cheia de direitos de vitima; e as cenas pródigas nas quais os progenitores se degladiavam em veneno, cansaço, coisas partidas e berros.
aprendeu na sua história particular que a paz e a coragem se encontra muitas das vezes de fora: que o exterior empresta muitas vezes uma espécie de força sem nome, anónima, a que muitas vezes recorreu, numa sede promíscua que com o tempo foi ficando mais teórica. apesar de tremendamente discreta, mesmo em menina, tornou-se talvez mais apolínea, com o decorrer dos anos.
Hoje, por entre a formalidade e a reserva dos modos,tem um olhar nada ortodoxo, estranho, do conhecimento dos heterónimos que a ajudaram a crescer.

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