28.10.05

Quando perdemos a virgindade, lá pelos catorze, quinze (dezasseis, dezassete...), o sexo é uma locomotiva apressada que descarrila quase sempre antes de chegar à estação. Ali, no reino hesitante da ejaculação precoce e da frigidez súbita de quem suspirava por algo diferente, quase nunca se exploram mutuamente em condições, esses corpinhos muito jovens e sem mácula, apregoados como únicos ideais possíveis de beleza e felicidade. Esses corpos de miudagem nova, todos bonitos, quase todos perfeitos, sem rugas nem cáries dentárias, entregam-se naquele frenesim ditado pela urgência das hormonas, geralmente curto e rápido. Os distúrbios alimentares passam também por aqui: a adolescência, não só é mal-comida, como se alimenta mal, à base de fast food deglutida em pé e à pressa.
O engraçado é que, só quando notamos em nós próprias as primeiras rugas, só quando reparamos com desagrado na bimba a querer descair, nos avanços da celulite e na ameaça das varizes, é que nos encontramos em condições de gozar o sexo como deve ser, ou seja: de nos entregarmos aos preliminares com a calma de monges budistas, de nos obrigarmos (e a eles) a ir devagar e com calma, de interromper alegremente um broche para ver um episódio do CSI, de misturar um minete com a ingestão de uma salada de frutas (de usar uma das frutas), de desatar a rir quando nos vimos, como num ataque de cócegas, e de mandar às urtigas a solenidade nervosa de quem está concentrado em aprender como se faz.
É quando olhamos de frente as imperfeições que a idade nos traz, e as somamos à auto-confiança adquirida por tentativa & erro, que começamos a ficar no ponto, como uma iguaria rara: mais desejadas, melhor comidas e vice-versa.


Paradoxo magnifico, convenhamos.


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