1.11.05

alguém tinha de o dizer

Ora queremos, ora deixamos de querer; entusiasmadas agora, a seguir, mortas de um tédio que se apodera de nós e nos esgatanha a vontade; num momento, mergulhadas na apatia, para logo nos emocionarmos com um pingo de chuva, uma imagem televisiva ou o telefonema de alguém distante - que, se pensarmos bem, nos irrita até à medula porque pintávamos as unhas; rimo-nos desbragadas, em rosáceas de alegria, mas depois abandonamo-nos a uma tristeza circular e circundante; amamos (bi-amamos) demasiado um alguém que mais tarde detestamos ou odiamos (tri-odiamos) de morte; amaldiçoamos o dia em que nos amarrámos aos filhos, aos maridos, aos amantes, de pés e mãos, para depois os estrafegarmos no terror de os perder; arrependemo-nos de ter trazido o gato para casa, choramos de raiva as cortinas rasgadas e o ácido irrespirável que se desprende do edredão, mas chegamos dia seguinte com um novo gato nos braços, entusiasmadas com a novidade e a sofrer horrores com a orfandade alheia (que nos destruirá a outra metade da casa); se nos dá a lua ou o vento de feição, aterramos de bruços no cio, desapertamos braguilhas emperradas e afagamo-nos em peitaças peludas para, passado que seja o frenesi, nos dar uma de vacas frígidas, vaginas ofendidas, despeitadas e rejeitadas, a rejeitar e a despeitar; beijamo-los amorosas, com paixão assolapada, mas cuspimo-lhes veneno entre os olhos com as nossas línguas sibilinas; estávamos capazes de matar por aquele casaco na montra que, quando vestimos, achamos um trapo piroso; apregoamos os quilos perdidos no suor do ginásio para, no segundinho seguinte, amarfanharmos a auto-estima numa caixa de pastéis de Belém; presenteamos os nossos amores com pequenas crueldades, que complementamos com súplicas, engodos e juras eternas de não retorno; regateamos um euro no molho de bróculos, mas gastamos uma indecência em botas italianas.

Não, lamento: o chocalho das hormonas não desculpa tanta inversão de marcha. Na verdade, o que nos falta é treino regular, controlo da respiração e dos batimentos cardíacos. O que nos falta, portanto, é disciplina emocional.


Basicamente, somos umas mimadas (alguém tinha de o dizer).


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