15.11.05

crescimento não clínico

desde pequena que para mim era um mistério entender o que faz uma pessoa crescida. inúmeras versões eram para mim pseudo-aceites com um tremendo cepticismo disfarçado. sim, é-se crescido quando se tem a chave de casa; sim, é-se crescido quando se come a sopa sem levantar ondas; quando se passa a usar soutien; quando se tem o período, quando se deixa de acreditar que os pais sabem tudo; quando se veste a camisola da mãe e não fica grande; quando se faz dezoito anos; ou antes, quando se tem o primeiro bilhete de identidade; quando caem os dentes de leite e nascem os outros; quando no médico deixámos de ir às consultas de pediatria e somos empurrados para os mesmos médicos a que vai a terceira idade;quando deixamos de fazer uma série de asneiras e passamos a fazer outra série de outra espécie de asneiras; quando deixámos de achar piada brincar às casinhas; quando começamos a prestar atenção aos noticiários na televisão; quando a palavra dieta passa a ser pouco indiferente; quando o mundo que criamos com os amigos é uma especie de nacionalidade; quando a família que fizemos é ou foi também uma nacionalidade, quando isto, quando aquilo.. mas é-se crescido mesmo quando? nunca consegui definir. sempre senti que era adulta mesmo em pequena e em paralelo penso sempre que sou afinal descoberta porque sou ainda uma miúda em andanças reversíveis entre mundos que estranhamente se entranham um no outro da forma mais esquisita, contaminando-se e salvando-me de inúmeras interferências onde o delírio de perder o pé dentro de um mundo ou do outro é diariamente real. ainda hoje, cada dia,nas pequenas e nas grandes coisas, sinto-me no fio da navalha: esse lugar subtil, nada simétrico, de onde se vê os dois lados: os dois universos.

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