7.11.05

filha única

Tem o seu quê de estigma, isto de ser filho único; olham-nos a modos como que de lado e despejam-nos em cima uma carrada de ideias feitas sobre infâncias amputadas e personalidades truncadas: pois, é filha única, vê-se, pelo mau feitio, é caprichosa, egocêntrica, pensa que o mundo gira à volta dela, faz birra e beicinho, é mimada e tem a mania, enfim... Chateia-me, esta conversa de merda. Não porque me atinja um qualquer nervo sensível (até podia, mas não é por isso), mas porque é pura e simples má onda e é injusto, isto de se associar a ideia do filho único a algo incompleto e politicamente incorrecto, como se este fosse a contraprova das teorias malthusianas (que grande chatice), porque os parvos e egoístas dos progenitores, está bem de ver, se recusaram a contribuir para a progressão geométrica da humanidade.

Depois, vem um outro estúpido pressuposto, o de que um filho único, por o ser, açambarca tudo o que (em abstracto e por mera hipótese) deveria ser distribuído por várias outras pessoas (tantas quantos os irmãos por conceber), como os afectos e os bens da herança.
Já me deparei com alguns cretinos (poucos, vá, uns professores, umas tias ressabiadas) que me olharam de esguelha por não pertencer, desgraçadamente, a nenhumal celestial fratria, como se fosse paraplégica ou tivesse um problema grave na vista. E a cretinice maior é que dou por mim a alinhar no preconceito e a tomar como um elogio quando me dizem, És filha única?! Sério?! Mas olha que não se nota nada..., como quem diz, És uma gaja mesmo porreira, pá! Bah. Há tantas razões para filhos únicos e irmãos, serem tudo e não serem nada disto...por favor.

Quase certo é, no entanto, o reverso desta medalha de tantas faces diferentes: poucos se dão ao trabalho de bater à porta, entrar na cabeça complicada de um filho único e tentar perceber as resistências que este tem de vencer para mergulhar na vida lá fora - como, por exemplo, o ter de saltar por cima do conforto da solidão e do aconchego da timidez, a fim de se tornar combativo e vencedor. E, depois, há aquela coisa fodida das expectativas parentais que, direccionadas apenas para um, são-lhe fornecidas em doses altamente concentradas e embaladas a vácuo. Sem querer dramatizar, direi que a ideia nunca serei suficientemente bom, mesmo que ganhe o nobel e o pulitzer em simultâneo, acompanha um filho único do primeiro ao último suspiro (escusado será dizer que, volta e meia, nas primeiras chuvas e quando há óleo na estrada, a auto estima resvala um bocadinho).

É verdade que, não ter um irmão ou irmã para dar um pontapé na boca num momento de raiva, faz uma falta danada: não habituado à refrega física que degenera naquele ódio letal descartável, próprios dos irmãos, o filho único cresce, geralmente, com pruridos em dar pontapés na boca; cresce, aliás, a dar uma importância danada ao acto (raramente concretizado) de dar um pontapé na boca de quem quer que seja. E, quando tem mesmo de dar o fazer, das duas, três: ou vai pé ante pé e quase pede desculpa antes de lá chegar, ou disfarça a sua inabilidade com o arremesso de agressividade em excesso. É um facto: muito filho único(daqueles a que nem guerra de almofadas com primos teve direito) entra logo a matar e com uma espécie de bolha de oxigénio a envolvê-lo, para que ninguém lhe chegue, não vá o diabo tecer qualquer coisa que ele não sabe muito bem o que é.

Aquilo que muitos encaram como distância, frieza e arrogância é, muitas vezes, o nosso pontapé na boca.



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