18.11.05

um dia diferente

O meu carro, não só é de gaja, como é porco. Com tanto prurido em deitar lixo pela janela por causa da merda do ambiente, do reciclável e o camandro, os restos da minha vidinha vão-se acumulando, em contornos everésticos, por cima e por baixo dos bancos, na bagageira, no porta-luvas e restantes compartimentos. Ali, nada se abre sem que de lá caia o conteúdo em catadupa, e nada se fecha sem ser de empurrão.
Sim, sim, toda a gente já sabe que, em carro de gaja, ele é chupetas, ipods, preservativos, bolachas, cêdes sem caixa, toalhas, holas de há meses, iada iada iada. Mas a incontinência material, no seu extremo (é o caso), pode deixar-nos a pensar seriamente no sentido da vida e nas vantagens duvidosas de se ter tido uma educação superior. Se não, vejamos.
Outro dia, o meu carrinho avariou em plena Alameda da Universidade de Lisboa, cá em baixo junto aos semáforos, impedindo qualquer automobilista de a contornar, o que foi simpático. Fez-se uma bicha jeitosa, veio o reboque (espantosamente célere) e vai de trasladar a lixeira acumulada para o carro de quem, generosamente, se prestou então a resgatar-me. Na pressa, está bem de ver, houve coisas que ficaram para trás.
Hoje, impingida que me foi, pela oficina da marca (a puta), uma nova bomba de gasolina, lá fui, fodida mas pimpona, buscar o meu lindo carrinho que me esperava lavadinho e reluzente. Quando cheguei, dois mecânicos-técnicos-de-limpeza, ainda se afadigavam nos finalmentes: notei, não obstante, que me olhavam com acutilância mal-disfarçada.
Blá blá blá práqui, blé blé blé pracolá, aqui está o seu carrinho, impecável, obrigada, tomem lá catrabiliões de oiros do meu subsídio, seus cabrões, aposto que essa merda só precisava de um o-ring novo (vêem como percebo destas coisas?), um muito bom dia e um queijo pelo cu acima, tá?
Sento-me no lugar do condutor, olho para o lado e vejo, devidamente acondicionados em cima do banco, os despojos que haviam ficado esquecidos na pressa da fuga (que estes senhores, quando roubam, fazem-no em grande e poupam-nos as ninharias).
Lá estava um Público de há quinze dias, uma garrafa de água a cheirar a rãs mortas, um CD pirata sem caixa (claro) e.... umas cuecas. Sim, exacto, leram bem: umas cuecas.
No meio daquilo jaziam, dobradinhas em dois que até pareciam passadinhas a ferro, umas cuequinhas às florinhas da Zara. Basicamente, azulei.
Enquanto acelerava dali para fora e desrespeitava um vermelho, lembrei-me daqueles fins de tarde de Setembro, quando guardava no carro um saco de praia com toalha, bikini e bronzeador, e bazava para um mergulho clandestino na Costa. Chegada ao parque de estacionamento, trocava-me dentro do carro, sendo que tenho a certeza absoluta de que, na ânsia de provar o mar salgado, nunca me terei dado ao trabalho de dobrar amorosamente as cuequinhas mas, antes, tê-las-ei amarfanhado e atirado para um canto qualquer.
Portanto, resumindo: um par de cuequinhas às flores, usadas, terá andado (na melhor das hipóteses) de mão em mão num grupo de mecânicos; um deles, o mais organizado, ter-se-á dado ao trabalho de as dobrar (tê-las-á lavado antes? tê-las-á usado?...) em dois.

Passada a vergonha e o sinal vermelho, senti-me afinal satisfeita, por saber que lhes terei distraído a atenção dos pistons, e o olfacto, do aroma lavanda do limpa-estofos, e que lhes terei proporcionado um dia diferente. É que ele há males que vêm por bem, sei lá.


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