17.12.05

está tudo bem

Por esta altura, as emoções adensam-se, ganham textura e nova consistência, lembram sólidos geométricos que nos perfuram as entranhas com as suas arestas flutuantes. É o Natal, esse bicho-papão que nos espreita do escuro da despensa, que insiste em nos alumiar quer queiramos quer não e em nos debitar volts a mais, agarrando-nos pelos colarinhos os traumas de infância e as perdas e danos que fomos contabilizando ao longo da vida. Traz-nos mais fome, mais frio, menos calma e tudo se nos pesa mais: no estômago, nas pontas dos dedos, na raiz dos cabelos. Damos por nós a amar mais com os olhos e menos com o resto, avaros de gestos febris, mas generosos nos quereres, nos pensares, nos votos futuros. Desleixamos o corpo que, se no Verão pede desvarios constantes por entre rios de suor que escalda, agora, de bom grado se contenta com o escorregar de um café com leite a dois, a três, à dúzia, temperado a colheradas de açúcar, canela e palavras mornas.

Vemo-nos menos selvagens, mais concentrados e compassivos, de um gostar mais suavezinho e delicado, deitado com cuidadinho nas palhinhas, pairante sob céus estrelados e embrulhado em véus, que se revela, não tanto nas romarias de pele em brasa, mas no viver e reviver de particípios passados sempre muito presentes.

Dói-nos mais, o sacana, do que as marcas na pele dos orgasmos prolongados pelas preias-mar de Verão, soa-nos mais alto do que os uivos disparados pela fisga do prazer na direcção da lua cheia; escarafuncha-nos os centros nervosos e provoca-nos, muitas vezes, arrepios de desagrado e de desconforto, por não termos assim tanto para dar. É chato, insistente, verruminoso, o Natal, porque, com a sua mesquinha pontualidade britânica, nos sublinha (a lápis de carvão, mina grossa, a marcador fluorescente), o cobertor para um, o amargo de boca, o sorriso ausente, o gelado de uma colher só, o olhar que se evita, a piada não partilhada, o miúdo que pede na rua, o presente por trocar, a árvore que não mais se ilumina: todos os curto-circuitos da vida, enfim.

É um tempo de alegria mastigada, dorida, porque sim, porque não, porque alguém assim o quis, porque já deu o que tinha a dar, porque há gente que se foi, porque há quem não tenha a quem voltar. É tudo isto e não faz mal, está tudo bem. Está tudo bem.

Tarda nada, o novo ano que chega levará de enxorrada o antigo e, uma vez mais, faremos de conta que os destroços dos nossos eus meio à deriva, se foram de vez numa maré sem retorno.


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