8.12.05

marasmos

Os marasmos dos dias parados, aqueles dias que boiam de costas numa aguadilha estagnada, nos contaminam a sua inércia e nos fazem deixarmo-nos andar; dias cegos, que não olham para trás nem em frente, mas apenas para o seu umbigo de dias cegos, um buraco negro forrado a distracção, como quem não quer a coisa, a morte da bezerra que se nos infiltra. Marasmos que hibernam cá dentro, que nos pasmam as entranhas num silêncio imóvel, à espera de dias melhores e mais leves, com menos quilos em cima; os humores pregados ao chão e avariados, arrastando-se com esforço pelo asfalto das nossas cabeças, a falta de vontade do riso, a falta de siso e a gargalhada que se segue, fraquinha, de uma moleza que dá dó (uma mágoa tão quieta, que nem da cadeira se levanta). São dias que não prestam, suspensos no ar no deitar no amar no comer no foder, esta modorra de não ser nada nunca mais, a tentação da crisálida, o dobrarmo-nos na mansidão expectante da posição fetal, deixem-me estar que não quero sair, tudo culpa desses marasmos, agentes duplos de gabardina escura que se infiltram na corrente sanguínea, cercas de aço que nos confinam a uma quietude desagradável, que quereríamos derrubar e espezinhar mas não podemos, pois faltam-nos as forças: sentimos o peso do mundo nos braços e nas pernas, queremos fechar os olhos e recolhermo-nos no nosso próprio útero. Ou num útero qualquer. Felizmente, são a espaços, estes dias.

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