2.12.05

não me digas

que não acreditas no natal?, anda cá, que eu faço-te mudar de ideias: por hoje, só por hoje, serei uma espécie de mãe-natal ou de duende só teu, brincalhão e às ordens, perfilada na tua linha de montagem; vou oferecer-me-te, chegada indágora dos confins do pólo norte, meia zonza que estou com os efeitos do jet lag e desconchavada por dentro com os solavancos do trenó: precisada de uma massagem. Gostas da minha tanga?, encarnada, com estas estrelinhas prateadas, brilhantes, a indicarem-te o caminho, a dizerem-te por onde seguir, como se fosses um rei mago à procura de uma gruta especialmente iluminada. Anda, que eu explico-te como se faz: dá-me a tua mão que eu guio-te pelo meu deserto arenoso e quente, não tenhas medo, o natal é bonito, é época de paz e de amor, os corpos e os espíritos roçam-se uns nos outros e há uma magia no ar, no chão ou lá onde é, que nos abre as bocas de espasmo e de espanto; hoje, tudo é diferente, acredita. Gostas do meu sutiã novo? Vem, toca-o, toca-me: tive o cuidado de escolher um de mola fácil, rápida no desaperto, para que não percamos tempo (tempo em falta, toques em débito: aqui são mais oito horas que lá). Cuidado com estes adornos brancos de pele falsa que se prendem às alças, não me agarres com tanta força os ombros, não ainda. Depois. E o cinto, já reparaste no meu cinto? Largo, preto, mesmo como o do Pai Natal (sim, sei: fantasia barata de carnaval, suspiro-me ao ouvido), ocupa-me a cintura toda e combina com estas botas, vês?, altas, pretas, de verniz: com treze centímetros de salto fico quase mais alta que tu, não conseguirei ajoelhar-me em condições, caso me dê para rezar (e eu hoje estou cá com uma fé). Não consegues desapertar-mo?, é fácil: não tremas as mãos, aperta um bocadinho de mais, eu sustenho a respiração, depois soltas os ilhozes. Podes prender-me a cintura, se assim te der mais jeito, agarrares-me por trás para que eu não balance; ou, então, eu dispo o resto sozinha. Espera!, faço-te um strip ao som do que estamos a ouvir, o santa claus is coming to town, melhor, uma table dance, queres? Bem me parecia.Tira-me esse triste peru de cima da mesa, levanta-me a toalha brocada e atira-a aí para um canto, guarda-me os cristais no louceiro, para que não se partam as memórias de família, acende as velas - as compridas, as mais compridas, que estão no centro do centro de mesa -, dá-mas e eu mostro-te como é que é. Vais passar a acreditar fervorosamente no Natal e a achar que melhor época não existe, isso te garanto.

No próximo ano, em Outubro, e já só pensas nas decorações.


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