6.12.05

o amor e os dias

a empregada está a passar a roupa. oiço o barulho do ferro de encontro à tábua, e o som dos tecidos a serem deslocados à medida que são alisados por aquele pequeno mobil quente. não tenho jeito para mandar. dou-lhe instruções quase tímidas, não gosto de dar ordens a quem é tão adulta como eu, sabendo decerto o que há a fazer numa casa a funcionar. quase como duvidar da sua maioridade, do que sabe das dinâmicas da luta dos sentidos de ordem face ao caos que nos convida a perder as estribeiras da limpeza e das arrumações.
hoje não me apetece ouvir o aspirador, esse ogre barulhento que invade o meu espaço, e convenci-me trocar a roupa passada em vez da ausencia de pó.
mais um natal, como uma respiração que não se pode suster. as famílias mínimas sentem o natal de modo diferente, sente-se uma ausência que nunca o foi porque nunca esteve preenchida, apenas teoricamente desejada. a comparação dos natais da infância em que a casa tinha mais gente é uma memória tão longinqua, parece um conto antigo de um livro infantil, daqueles de que se gostava.
vive-se por vezes em determinados momentos do que se foi, reinventando um presente atento mas apolíneo, de uma complexidade com tantas dobras que o resultado é uma textura lisa, de tão saturada. a prescindibilidade é uma terra franca, território vivo e poroso, o menos fica tão parecido com o mais, como respirar.
desconheço algumas palavras relacionais,internas a esse substantivo colectivo chamado família. não sou neta, nem mãe, nem sobrinha. aparte outras familiaridades que deixei de ser. os afectos inflaccionados tratei-os sempre por intimos, tão parecidos com elásticos invisiveis, inventados com a soberania do segredo, com a senha passe atrás dos óculos escuros. apesar desse minimalismo, sei por hábito as orbitas dos descentramentos e da rarefacção do eu, pelo habito do nomadismo de viajar aqui.
os atritos são cabos, na depuração do conceito.

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