23.12.05

Sermão de Natal

Não me escandaliza que se ofereçam mutumente vibradores, e outros objectos de natureza explicitamente sexual, no Natal. Aparelhos sado-masoquistas, reconstruções do hímen, tudo bem, tudo está de acordo com a mesma sociedade de consumo que oferece velas decorativas e outra quinquilharia. Não censuro. Eu também ofereço quinquilharia. Eu também alinho nas prendas.
Não me incomoda que se transforme um Natal numa festa não sagrada, que já não é um ritual de encontro da família - entendendo-se como família aqueles que nos pertencem e a quem pertencemos, aparte os laços de sangue – mas uma espécie de festa de anos em que todos recebem presentes. Em vez de dizermos uns aos outros, “hoje, és bebé”, dizemos “hoje, é Natal”. E somos bonzinhos. Alguns.
Não me apoquenta que ateus, agnósticos, muçulmanos, hindus, todos, enfim, comemorem a festa do Natal como uma outra festa qualquer, à volta de uma mesa, comendo, bebendo, trocando anedotas e prendas, ou fodendo-se com o gorro de Pai Natal e a lingerie nova, os preservativos com luzinhas pisca-pisca, e que brinquem com as funcionalidades do novo dildo que estava no sapatinho.
Mas, para mim, o Natal é o Nascimento do Menino.
Sabemos que Jesus Cristo não nasceu nesta época do ano, que é apenas uma data simbólica para comemorar esse Nascimento: não a torna menos importante! Para mim, o Natal é importante, porque o Menino está para nascer, nasce, nasceu. É Jesus e Maria, mas é, também, uma vida acrescentada, uma fêmea parida. Por tudo isso, eu, no Natal, não indo à igreja, rezo o Pai Nosso e a Ave Maria. Rezo-os todos os dias, com calma, ponderando cada palavra. Mas no Natal.
O Natal é a recriação da Vida. A fêmea pare a Vida. E o que a fêmea pare é bom. Para mim, que sou cristã, o nascimento de Jesus, que aceito como mestre espiritual, é um acontecimento muito importante, muito bonito. Não é solene, é bonito: nasceu o menino que havia de ser aquele homem de Justiça. Que me veio ensinar que só existe paz e grandeza no perdão e na dádiva. E só. Procurem-se por onde quiserem, com quem quiserem; gastem as vidas perseguindo o dinheiro e a fama: só existe grandeza no perdão e na dádiva!
Para mim, o Natal é isto: o menino nasceu de uma mulher. Portanto, o Natal torna sagrada essa mulher, deusa da criação, e esse menino, saído dela. É uma comemoração de vida, do feminino, primeiro. Depois, sim, o menino sagrado. O menino que se sagrou a si próprio.

Lembrei-me de escrever isto a propósito dos blogs enfeitados.
Os enfeites são muito bonitos, mas distraem do essencial. E eu quero lembrar que a única coisa que interessa aqui é o amor que eu tenho para distribuir por cada um de vós, e aquele que cada um de vós terá para me retribuir. O que interessa aqui é saber se eu serei capaz de vos perdoar, se vocês serão capazes de me perdoar. Interessa saber quem posso eu e vocês ajudar todos os dias. Quão melhores conseguiremos ser a partir de hoje. Mais em paz com as nossas escolhas. Capazes de realizar outras, magoando ao mínimo os que nos rodeiam.
Para mim, isto, é o Natal, e o que quer desejar a todos é, realmente, amor: não o que vão receber, mas o que serão capazes de dar.
Feliz Amor!

referer referrer referers referrers http_referer Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com