31.10.05

Tá tudo a precisar de um bocado de upa upa (*)

Ora bem, mulherio: eu sei, a vida é um poço de hormonas e de chatices e algumas das grandes e nem sequer é por esta ordem. Mas isto é pensamento ao alto e essas coisas e o que é o pensamento ao alto do dia é o seguinte: já comprasteis doces e rebuçados e chocolates e bolachinhas? É que amanhã, logo pela fresquinha, tocará a vossa campainha e ouvir-se-á um coro de vozes infantis: pão por Deus! (mas é gomas e chocolates por Deus, a gente sabe). É sempre um grande exercício de imaginação, essa coisa do oh meu Deus que não tenho nada e péra lá que devo ter uns caramelos ali ora talvez na terceira prateleira de cima à prova de ratos e crianças, momento! Eu já vos dou o pão por Deus (caneco maizo raio dos putos, não sabem tocar só depois do almoço?), não toquem mais à CAMPAINHA!

(este foi um espaço dedicado à animação das hostes que não foi conseguido, mas pelo menos hei-de tentar meter este parenteses em letra small ou assim, sempre fica mais composto...eu ia meter um gajo todo bom mas achei que se calhar poderia não ser apropriado e talvez pouco sóbrio, depois ainda diziam que nós, mulheres, só pensamos em rabos mais bolos....)

(*) Upa upa é corações ao alto, ó caneco! Mentezinhas perversas...

Confesso

Que hoje não posso tomar conta de mim.
Que não tenho força.
Que me arrependo de ter tido filhos.
Que só tu importas e quero casar contigo outra vez.

Que tenho medo de querer partir. E que me angustia não poder partir.

Confesso que estou exausta.

Prometo que me levanto.

Uma noite igual às outras

Ela saiu e bateu a porta. Para trás ficara uma mãe birrenta enfiada na cama e um pai com uns copos a mais para tentar animar uma noite, uma vez mais, estragada.
As lâminas de vento frio batiam-lhe na cara e, enquanto ela caminhava nas ruas desertas, ouvia os sons das festas atrás das portas, as botas a bater em cada pedra da calçada e o silêncio da rua no som dos seus passos. Sentia uma tristeza profunda. “É uma noite igual às outras”. Repetia uma vez mais. Todos os anos repetia a mesma coisa.
Enquanto o fogo de artifício rebentava atrás dela, uma lágrima quente teimou em aventurar-se pela face gelada abaixo. Era uma noite igual às outras...

mais um post - menos uma unha

Na minha memória a imagem daquela miúda de vestidinho vermelho e fita no cabelo, sentada no centro dos colegas que se organizavam em roda e pernas à chinês para ouvir as suas histórias; aquele ar cândido e a expressão simpática…tão querida! Desde pequena a menina dos professores, a amiga preferida delas, e a namorada de todos eles…a Alice é assídua e pontual; gosta de ajudar os colegas e destaca-se pela capacidade de liderança – transita para o ano seguinte. Quando cresceu, o orgulho da professora de matemática, de português, de química, física…e também, a namorada do miúdo mais giro da escola e a gaja que conhece todos os spots fixes da night e vai prós copos com a malta.

Sim, a mesma que nunca punha o dedo no ar nas aulas, que se senta calada numa mesa de café onde não conhece toda a gente, que deixa de escrever quando sabe que é lida e que nunca corre…não vá por azar tropeçar e estragar os dias perfeitos pintados a cor-de-rosa.

Para descobrirem as diferenças

Sobre um artigo no Público publicado em 1900 e trocó passo e na altura em que eu ainda me chateava com as piadinhas machistas dos meus coleguinhas de escritório aqui vai o que eu escrevi vs o que um coleguinha meu escreveu ao dito jornal sobre um artigo do qual não me recordo de todo o conteúdo mas que agora para o caso também não é de grande importância!

E depois digam-me lá que necessidade é que os homens têm de serem assim mauzinhos para nós?...

Eu:

"Caros senhores,

Sobre a vossa notícia "Os homens que elas preferem" publicada hoje no vosso jornal tenho a dizer-vos o seguinte:

Fiquei muito desiludida porque acho que um jornal como o vosso não precisa de recorrer a este tipo de notícias para aumentar as vendas e este só serve para denegrir a imagem das mulheres. Não basta que no nosso dia a dia tenhamos que provar a nossa competência profissional face a uma enorme competição (e por vezes termos até que suportar certas injustiças) como agora ainda temos que aturar piadinhas dos nossos colegas a perguntarem em que fase do ciclo menstrual é que estamos...

Realmente, não havia necessidade...
"

Ele:

"Amigos,

Sobre a vossa notícia "Os homens que elas preferem" publicada hoje no vosso jornal tenho a dizer-vos o seguinte:

Fiquei bastante contente porque acho que um jornal como o vosso deve recorrer a este tipo de notícias para aumentar as vendas e estas só servem para elevar a imagem dos homens. Sim, porque não basta que no nosso dia a dia tenhamos que lhes dar um par de estalos para as acalmar, é também preciso desmistificar a sua competência profissional, que concerteza não se compara à dos homens. Por vezes termos até que suportar certas injustiças, em que mulheres de capacidade inferior nos tentam passar a perna. Depois do vosso artigo vamos começar a mandar piadinhas às nossas colegas a perguntar em que fase do ciclo menstrual é que estão...


Ah ah ah!"

Mas que Raio?!

Eu até cá me vou aguentando umas vezes melhor outras vezes pior mas a coisa por enquanto ainda vai andando. Agora obrigarem-me a escarrapachar uma coisa incompreensível aqui na minha janeleca e dizerem-me que eu tenho que levar aquilo à letra ai isso é que já tão a abusar da minha paciência! É que se ainda me dessem uns bilhetitos prá cena da MTV eu ainda fingia que percebia muito bem estes slogans que agora arranjam e punha o sorriso chapa 30 porque assim como assim não é todos os dias que temos oportunidade de estar perto da Madonna e afins… Agora se não me arranjam os ditos bilhetitos levam com as trombas do costume e não me venham cá com merdas de Rock Solid e Restless que isso já não são coisas para a minha idade!

P.S. E desculpem-me lá a crise de mau feitio totalmente provocada por TPM! :-S

Beauty is on the eyes of the beholder

Quando era miuda era o patinho feio. As senhoras da mercearia diziam "deixe ir esse menino primeiro", chamavam-me cigana, tinha bigode. Quando jogavamos aqueles jogos em que era preciso haver prémios e castigos, "dar um beijo à Isabel" era um castigo pior que correr nu à volta da cantina a gritar o meu pai leva no rabo. Mesmo depois da puberdade, havia miudas que tinham as mamas maiores e os rabos mais redondos e que tinham todos os rapazes caídos por elas. Eu sempre achei que tinha uma beleza incompreendida, e que todos os outros haviam de o descobrir um dia, que fazia falta apenas um pouco de logistica: um dia haveria de ter a oportunidade e o dinheiro para arranjar unhas e cabelos, fazer limpezas de pele, tirar pelos e comprar roupas bonitas e aí sim, o mundo iria apreciar a top model que há em mim. Volta e meia fazia uma pequena tentativa de ingressar no clube das bonitas: comprava um top, fazia umas tranças, arranjava uma saia, até ao dia em que por acaso acertei num corte de cabelo mais favorecedor e umas 5 pessoas disseram que eu estava bonita e me ficava bem. Foi aí que eu disse de mim para mim "vêem quem tinha razão afinal?" e nunca mais ninguêm me tirou da cabeça a ideia de que sou a gaja mais gira do mundo. Claro que há dias em que me sinto feia, velha e gorda mas eu sei que lá no fundo no fundo sou a boazona do costume, apenas com alguma falta de tempo para ir à esteticista e ao ginásio.
Tu és a vontade
do meu corpo
Por cada morte perpetrada
Jaz a carne
entre as tuas mãos
-densos punhais revoltos
No último gemido que cumpre
o meu desejo

Porque isto não podem ser só queixas

Este fim-de-semana ele lavou a loiça e fez-me um bolo de chocolate (confesso que a qualidade do dito bolo me surpreendeu). ;)

Antecipação de pesadelo *

De repente tive um vaipe a pensar num blog com 14 mulheres e o Natal a aproximar-se...

* para os outros, claro; eu adoro!

Bela manhã de chuva

Hoje demorei metade do tempo a chegar ao trabalho. Fiquei com a impressão de que toda a gente teve direito a fim de semana grande, menos eu. Não foi mau, porque pude vir o tempo todo a olhar para o rio. Havia uma nuvem tão baixa e horizontal, teerminando ao fundo num recorte esbatido, que eu parecia estar a espreitar uma sanduíche de luz entre duas fatias de água. Chegada à cidade, acima das ruas violeta e dos prédios branco amarelento, pelo brilho do sol rasante, ainda vi um gigantesco arco-íris, muito nítido sobre o céu de chumbo.
Fiquei uns cinco minutos parada à porta, a ouvir a rádio radar aos gritos, enquanto observava a bátega de água a desabar sobre os vidros do carro. Num registo monocromático que só exacerbava as cores todas que podia ver do outro lado, o sol, mancha disforme entre os pinheiros inclinados e negros e o fundo cinza das nuvens, tornava branca a água que a seguir me caiu em cima.
Vou tomar um café quentinho.

30.10.05

Ai e o romantismo?

Colegas de blog havereis de me desculpar mas eu sou uma gaja que gosto de sexo sim e discuto tudo sobre ele até ao ínfimo pormenor com muitos deles e algumas delas mas… não concebo o acto sexual sem haver uma enorme carga afectiva por trás. Eu sei porque já ouvi muitíssimas vezes que o mal de falar de sexo assim com a frontalidade que me caracteriza sendo eu uma gaja passa aquela imagem de tipa-prostituta que anda sempre atrás dum dito-cujo para enfiar na dita-cuja… e abstenho-me de usar os termos porque hoje estou demasiado melancólica para ser directa!

Eu gosto do acto sexual mas para mim tudo o que o antecede e precede tem tanta ou mais importância do que a coisa em si. A sedução, a conquista, os olhares, os toques, as palavras sussurradas, as centenas de poemas que sentimos rasgados e arrancados de nós pela inspiração do ser amado, o bater constante do coração quando o outro passa perto ou mesmo quando por momentos nos perdemos numa recordação… O sexo é um passo apenas num caminho que começou antes e a meu ver deve continuar e prosseguir para outras avenidas muito mais amplas e muito mais ricas e ornamentadas do que um mero acto físico em si. Ter prazer e dar prazer a alguém que se ama… fazer a pessoa sentir-se o homem ou a mulher mais feliz do mundo por estar ali a partilhar um momento, intenso, incondicional, eterno. O acto é partilha, rendição, submissão, cumplicidade, ternura, carinho e amor elevados ao seu exponencial máximo. E é só assim que eu concebo a coisa e é só com alguém que eu sinta que já conheço tão bem como as palmas das minhas mãos e que sabe que para mim o que dou e o que recebo são dádivas sagradas, especiais e únicas.

Não quer dizer que não tenham acontecido alguns erros de percurso ao longo da minha existência atribulada (mas não muito). Acontece porque as minhas expectativas por vezes não correspondem à realidade e ninguém sai mais magoado dessas experiências inconsequentes do que eu.

Sou uma eterna romântica sim. E ainda acredito no Amor apesar de todo o cinismo e hipocrisia que vejo à minha volta. Sinto um nevoeiro cerrado à minha volta neste momento mas tenho esperança que um dia Ele virá e penetrará no meio deste cinzento com a força de todas as cores do mais belo e reluzente Arco-íris.

E se isso quer dizer que eu sou uma gaja mal fodida… tant mieux! Prefiro poucas mas bem dadas do que muitas mal digeridas!

Pra quem pediu posts sobre conas e fodas

À vez, os ovários disparam um óvulo para as trompas de falópio que lhes estão, respectivamente, ligadas. O útero reveste-se de uma substância designada por corpo amarelo, que vai servir de ninho para o óvulo, caso este tenha sido fecundado durante a sua descida. Havendo nidação, multiplicação de células, embrião, o processo segue em diante até ouvirmos um choro à entrada da vagina (neste caso, à saída). Não havendo fecundação, o corpo amarelo solta-se do útero, provocando, nesta ruptura, uma hemorragia interna, que arrastará na descida o óvulo descartado e os destroços do corpo amarelo. Juntamente com alguma tristeza da autora deste feito, já que sendo fêmea há sempre uma melancolia ligada à ecologia humana, uma espécie de vontade intrínseca de procriar, mesmo quando não se deseja ter filhos.
Se pensarmos objectivamente no tema, o sangue é uma coisa bonita. Uma matéria líquida, untuosa e vermelha. Os pensos de agora são mais confortáveis, mas têm aquela superfície tipo rede, “que se mantém seca”. Antigamente, o velho modess permitia ver a mancha de sangue em toda a sua pujança e intensidade cromática, com a forma da anatomia feminina. São também lindíssimas as pequena manchas, de formas diversas, como diferentes interpretações, a vermelho, do sexo da mulher, que ficam sobre o papel higiénico quando nos limpamos. Como marcas de baton num ensaio de beijos.
Para os homens o sangue está ligado à guerra, à briga, ao acidente. Para as mulheres, além disto, está também ligado à vida, à fertilidade, ao nascimento. Este sangue, mais ou menos mensal, traz sangue frio às mulheres.

Nota: Certas e determinadas pessoas podem pensar que este é um blog de senhoras mal fodidas que estão sempre com o periodo, mas asseguro que esse não é, de todo, o caso: a menstruação dura apenas alguns dias por mês. :P

anda, luz

mi soledad. JoaquinCortés é talvez o animal vivo mais belo do mundo. que há coisas que só o flamenco diz. bendita sejas, andaluzia.

29.10.05

on the road

se há coisas de que gosto na ideia de viagem é a ideia de comer quilómetros; são também as estações de serviço nas auto-estradas. são espaços breves de um sempre possivel encontro. bebo o café, olho à volta, adivinho nos pequenos gestos as pessoas mais interessantes, saio. penso sempre: ainda não foi desta.

Unbearable lightness

Para mim o silêncio é o que vai saindo de dentro para fora até que nos tornamos tão leves que a nossa própria leveza se nos torna insustentável. O meu silêncio interior é a ausência de conteúdo, de luz, de cor e de calor.

Hoje sinto-me demasiado leve para me puder suportar.

Quase ao teu ouvido

Se me pudesses ouvir eu dizia-te que te amei muito. Desejei-te num silêncio que ainda hoje me dói. Queria ler as tuas cartas para te poder rever, mas agora já não tremo. Mas que feitio o meu, rasgar tudo, partir os restos em pedacinhos com a ilusão que tu irias com eles. Eu sabia que seria o tempo o meu amigo e o meu desconsolo. Se me pudesses ler, dizia-te que, por vezes na distância, sentia o teu calor ao acordar. Se eu soubesse escrever havias de perceber o meu desencanto. Terias escutado o coração se o tivesses ouvido. Eu dava-te o meu, inteirinho, verdadeiro, com tudo, com o bom e o mau, na felicidade e na angústia. Foi tudo tão curto, tão pouco, a prazo, com data marcada. Depois de ti já amei, já deixar de amar e tornei a amar. E agora nem sei bem porque me fui lembrar de ti. Se me pudesses ver, saberias que já não choro. E eu a escrever que chorei por ti, que coisa esta... .Tu não me podes ouvir, mas eu dizia-te que hoje tens muitos rostos. E tu não gostarías de sentir esse calafrio. Ah sim... muitas vezes fingi que ignorava. Se soubesses ler os sinais havias de os ver. Estavam lá todos: nos meus olhos, nas mãos que afrouxavam no teu corpo, nas palavras que não saíam. Mas também sei que sempre que te sentires sózinho te vais lembrar de mim. Será o teu segredo. O nosso segredo.

28.10.05

(...)

Às vezes, o silêncio escorrega para dentro de nós, vai crescendo sem barulho, instala-se como um peso e, quando damos por isso, estamos curvados, levando o mundo às costas.
Hoje, carrego o meu mundo; não está leve.
Quando perdemos a virgindade, lá pelos catorze, quinze (dezasseis, dezassete...), o sexo é uma locomotiva apressada que descarrila quase sempre antes de chegar à estação. Ali, no reino hesitante da ejaculação precoce e da frigidez súbita de quem suspirava por algo diferente, quase nunca se exploram mutuamente em condições, esses corpinhos muito jovens e sem mácula, apregoados como únicos ideais possíveis de beleza e felicidade. Esses corpos de miudagem nova, todos bonitos, quase todos perfeitos, sem rugas nem cáries dentárias, entregam-se naquele frenesim ditado pela urgência das hormonas, geralmente curto e rápido. Os distúrbios alimentares passam também por aqui: a adolescência, não só é mal-comida, como se alimenta mal, à base de fast food deglutida em pé e à pressa.
O engraçado é que, só quando notamos em nós próprias as primeiras rugas, só quando reparamos com desagrado na bimba a querer descair, nos avanços da celulite e na ameaça das varizes, é que nos encontramos em condições de gozar o sexo como deve ser, ou seja: de nos entregarmos aos preliminares com a calma de monges budistas, de nos obrigarmos (e a eles) a ir devagar e com calma, de interromper alegremente um broche para ver um episódio do CSI, de misturar um minete com a ingestão de uma salada de frutas (de usar uma das frutas), de desatar a rir quando nos vimos, como num ataque de cócegas, e de mandar às urtigas a solenidade nervosa de quem está concentrado em aprender como se faz.
É quando olhamos de frente as imperfeições que a idade nos traz, e as somamos à auto-confiança adquirida por tentativa & erro, que começamos a ficar no ponto, como uma iguaria rara: mais desejadas, melhor comidas e vice-versa.


Paradoxo magnifico, convenhamos.

brincar sózinha ou as virtudes da motricidade mínima

Outcome sem input. (Numa dislexia assumida.)
Podia ser pior.

O preconceito da heterossexualidade

Dizia-me um dia uma amiga, bissexual assumida, "não me apaixono por homens ou mulheres, apaixono-me por pessoas".
Fiquei a pensar naquilo. Tem toda a lógica. Será que isto de se ser heterossexual ou homossexual não acaba por ser um preconceito contra um dos sexos? Se nos vendarem os olhos e nos masturbarem não sentiremos prazer sem saber de que "sexo" são os dedos (ou línguas) ou o que for que nos masturba? Fiquei a pensar nisto. Na verdade eu consigo sentir paixão de todo o coração por certas mulheres da minha vida, uma paixão que, por vezes, até dá um aperto no peito, mas não me consigo imaginar a ter uma relação física com elas, não é que me dê nojo ou algo do género, simplesmente nem me imagino. Será preconceito?

Gosto sempre de homens...

Gosto deles mal os vejo, bastante e de quase todos (tenho um certo receio de homens arrumadores de carros e de homens sujos que andam com a mão estendida na rua e falam com os pombos), é assim um gostar por defeito, imediato e intuitivo, um "se tem os ombros largos e a voz grave só pode ser boa gente".
Já com as mulheres, tenho uma aversão imediata, uma espécie de medo-nojo, da mesma classe que sinto por centopeias e aranhas peludas, um "se tem as unhas pintadas e o riso estridente é porque é uma vaidosa, falsa, fútil que só está contente quando se meter na minha vida e açambarcar os meus homens". (Mas claro que se tiver as unhas roídas e for caladinha é porque é uma desleixada, ingénua, que não percebe nada da poda e mesmo assim deve ter a mania que sabe viver a minha vida e pode açambarcar os meus homens.)
Depois a coisa evolui, com o conhecer das pessoas que as pessoas são, mas não consigo evitar ter estes sentimentos à primeira vista.

O outro lado de uma simpática família numerosa ou... coisas que me irritam

Andar sempre a mudar os rolos (vazios) de papel higiénico.

27.10.05

chuva

quando chove o barulho dos carros fica diferente na rua. rolam com um som dir-se-ia mais metálico, um rasto sonoro que se propaga durante mais tempo. a casa vira mais toca. as pantufas ficam menos ridículas.

Calhauzada

As pedras vieram de onde eu menos esperava.
Logo hoje que eu estava mesmo a precisar.
Foi cada palavra cada pedra.

Rendo-me!...
Tou-me para aqui a armar em forte e nem sei bem porquê nem para quê.

Da minha própria sogra?!?!?! Ouch…

No fundo, nasci foi para isso

Eu sei, eu sei, o que está a dar é ser hiper-ultra-super-kazumsónica gaja; a mulher-concorde que em menos de duas horas circunda um planeta onde vivem coisas estranhíssimas como seres muito baixotes que berram desalmadamente e só se calam se forem enchidos de açúcar, bocados de carne ou peixe em blocos de gelo que se colocam dentro de umas caixas que fazem plim passado um bocado e ainda são depois metidos dentro de uns instrumentos que vão para cima de chapas quentes ao mesmo tempo que se mistura um pó dentro de um líquido que depois se serve com colher, filas de pessoas a empurrarem carrinhos de metal aos quadrados cheios de caixas e frascos e pacotes, sítios onde lhe arrancam os pêlos e lhes enchem o cabelo de água e espuma para depois tirar, e onde também se encontram em todos os lados outros seres mais altos que os baixotes e que andam sempre de trombas dentro de quadrados em cima de coisas redondas com luzes e apitos, caixinhas com uns botões que se carregam e se encostam ao ouvido e se fala lá para dentro quase sempre para dizer ai que estou mesmo atrasada e ainda consegue, esta mulher-concorde, chegar ao destino sem uma falha no baton.
É giro.

Mas eu não quero nada ser kazumsónicakamiconcordekazegaja. Eu nasci para acordar de manhã (já tarde), olhar para as unhas e pensar nas unhas, isto é, no sentido da vida, o resto do dia. Uma coisa assim transcendental, etérea, uma busca da perfeição nas unhas, na alma digo, uma reflexão continuada no verniz, quer dizer, na sabedoria eterna, enfim, assim coisas profundas que incluam base e top coat. No fundo, no fundo, nasci para dondoca; mas é mais chique chamar-lhe filósofo.

Isto é um bocado como aquilo da gripe das aves:

Eles andam agora a reunir-se para decidir o que fazer na eventualidade duma pandemia. Eu aqui há anos reuni comigo mesma para decidir o que fazer na eventualidade de ver alguêm a trair uma pessoa querida. Hoje a eventualidade aconteceu e eu segui o procedimento. Fiz bem, fiz mal? Muita gente deu a sua opinião sobre o que fariam na mesma situação. Amanhã, seguiriam o procedimento que hoje, com a cabeça fria, opinaram ser o correcto?

A fronteira

Não é assim tão fácil julgar alguém que comete um acto impensado. Eu há quase um ano atrás debrucei-me sobre o assunto do adultério e andei que tempos a pensar onde estaria a tal fronteira que separa a fidelidade da infidelidade. Todos aprendemos que devemos ser fieis ao outro nas palavras, nos pensamentos e nos actos. Mas… quem nos controla os sonhos? E a imaginação? E quem estabelece quais as palavras que são válidas e quais não são?

Estava eu ocupada a pensar nestas coisas quando uma amiga me perguntou apenas e só: "sentes-te adúltera?" E eu mesmo sem ter feito ainda nada e sem ninguém ainda saber de nada respondi-lhe que sim. A fronteira afinal estava dentro de mim. Não tinha consumado o acto mas já tinha pensado em fazê-lo. Já tinha sonhado com isso, muitas e muitas vezes até.

E neste momento em que passou quase um ano desde aí e em que a minha vida mudou completamente, eu sou a primeira a evitar julgar seja quem for. Cada um sabe com o que pode e consegue ou não viver e conviver. E quem nunca passou por uma situação semelhante que me atire a primeira pedra.

A minha mãe nunca entra por portas fechadas

Nunca, nem que a porta seja do quarto dela, da casa dela, nunca entra sem bater. Nunca dá opiniões sem que lhe sejam pedidas, nunca se mete na vida dos outros. Uma vez perguntei-lhe se, se ela um dia visse o marido da filha com outra mulher, ela diria alguma coisa à filha, alguma palavra de aviso. Ela disse que não porque não lhe dizia respeito. Eu, se por um lado admirava o absoluto respeito dela pela maneira que os outros escolhiam viver a sua vida, por outro lado achava que me iria sentir traída e desamparada se me visse nessa situação. Pensei muito nisso, e achei que a melhor atitude a tomar, se algum dia me visse nessa situação, seria avisar o traidor "não concordo com a tua atitude porque não quero ver a minha filha magoada, vais-te esclarecer com ela, e é hoje!".
Há dias descobri que uma amiga minha não sabia que o homem dela, tambêm meu amigo, era casado. Andei dias a pensar se lhe havia de dizer (somos amigas, porque não mencionar de passagem "ah, gostava de cortar o cabelo como a mulher do x" e segurar a bronca?), mas a dada altura, lembrei-me do que eu própria tinha escrito no meu "grande livro dos valores morais" e telefonei ao meu amigo. Hoje perdi um amigo.

A quem possa interessar

Pronto, está bem. É um post indigente.... mas era só para dizer que já há Mon chéries à venda. E parecendo que não, também tem a sua importância.

PS - E as lojas já estão cheias de jingle bells.

Alverak

O código para introdução de comentários, para além de me danar um bocadinho pela perda de tempo (que se ganha na parte de não ter que o perder depois, a apagar o spam) deixa-me completamente alucinada: escrevo um comentário e vejo em baixo
apapui
e penso numa ilha do lado de lá do atol de corais ou então
jeuxdant
que jogo é este, o dant? serão peões ou peças em tabuleiro, ou bolas que se atiram ou é uma coisa de cartas e logo
diconut
um fruto só pode, é branco e sabe a coco mas tem a forma de amêndoas de casca dura que se partem entre duas pedras e cresce nos cactos e depois
nazhjum
um remédio para me desentupir o nariz, é exactamente isto que eu preciso.

Alverak foi o último, agora mesmo: ainda lá estou, em Alverak, com um blusão de aviador e óculos de sol. É só colocar este post e já regresso, a Alverak onde se discutem jogos de reflexos em dias de chuva. Lá (em Alverak, ou aqui, nem sei se é o mesmo sítio) só há arco-íris.

pelos olhos adentro

o que é que faz deixar de amar daquela maneira estúpida? é perceber-se que afinal se vê implacavel e nitidamente através de um vidro e não de um espelho?

Atempo

Um dia, deitar-me-ei sob o céu estrelado, abrirei a minha boca e
engoli-lo-ei.
Então,
saberei falar sobre estrelas e sonhos, saberei parar no tempo e, voar.

Puta de neura

Foda-se.
Está na hora do reforço de pequeno-almoço.

Re: SMS

Estás enganada. Não sou grande. Sou uma porra de um vazio iluminado por fogos de artifício.

Tormentas interiores

É nestes dias assim que o que vai lá fora reflecte o que sinto por dentro. Ou então é ao contrário. Seja como for sou apenas uma transparência neste momento. Tantos sentimentos maus escondidos e abafados durante tantos anos. Cresceram comigo e tornaram-se desmesurados. Indomáveis quase. É bom falar do passado mas obriga-nos a enfrentar demónios interiores para os quais podemos não estar preparados.

Olhar a besta nos olhos foi coisa que sempre me atemorizou. Não a besta que é a pessoa velha e doente em que ele se tornou mas a besta imagem dele que em mim ficou. E a besta imagem minha por nunca ter feito nada e nunca ter dito nada para parar algo que mesmo sem saber o que era sentia ser errado.

Fui uma vítima. Mas ainda não fui nem sou capaz de aceitar isso. Porque de uma forma ou de outra sinto-me culpada por o ter deixado fazer-me o que fez e durante tanto tempo. Tenho um passado muito pesado dentro de mim. Sempre convivi com ele durante toda a minha vida mas bloqueado… e agora que resolvi libertá-lo… não sei bem ainda se serei capaz ou se saberei lidar com todas as memórias que escondi tão lá no fundo de mim e durante tanto tempo.

26.10.05

como um animal vivo

moro num prédio antigo, com mais de cem anos, daqueles com janelas de sacada verdes escuras e escadas de madeira. muitos dos meus vizinhos são da terceira idade. habitar num apartamento torna indiscutível a companhia que nos faz o ouvir o som seco dos passos na escada. adivinham-se as horas do dia pela circulação nos degraus e pelo ouvir a porta da entrada bater (como me ajudam estes sons a vencer nas manhãs a timidez de sair à rua). à noite, a sombra dos ferros da sacada das janelas faz nas cortinas uma barra de renda virtual, incerta e já insubstituível.

a tectónica e a avestruz

as que tinham irmãos mais velhos não ousavam perguntar-lhes. espremidas eram pois as que tinham irmãs mais velhas, incumbidas que ficavam assim da nossa formação. as variadas versões do mito da tectónica intrigavam obsessivamente as nossas reuniões no quarto dos brinquedos.
tem osso, disse triunfantemente um dia a Fernandinha, irmã mais nova de uma prole de cinco raparigas.
osso?! perguntámos nós, curiosas e espantadas.então é por isso que dizem que fica de pé? sim, tornou a Fernandinha com ar entendido. é rijo. o osso é tipo... tipo pescoço da galinha. sabem, já todas comeram frango assado, e arroz de cabidela, não já? pois é assim parecido.

éramos miúdas urbanas, conhecíamos só quase dos livros de histórias a bicharada de capoeira. A carne de avestruz, essa então, ainda não era vendida nos talhos.

BIG BANG

ou a puta que pariu o mundo.

A injustiça desta merda

Despejam uma gaja de volta ao mercado da carne e, embora ela saiba que merece ficar pendurada com a placa 'lombo' espetada, despois de tanto amassada está boa é para hamburguer de cão...:p

O bom disto tudo é que tudo, mesmo tudo, se resolve

Maria Rita diz:
Agora já estou mais bem disposta mas, para imaginares o caos, há bocado tive um ataque de choro no Minipreço porque não havia os danoninhos que eu queria....
Clima diz:
A sério?
Maria Rita diz:
Estou doida, só pode
Clima diz:
Não estás nada; isso é muito stress acumulado. Precisas de ter mais calma.
Maria Rita diz:
Pois preciso
Clima diz:
Mas que danoninhos é que querias? É que se for preciso eu vou de propósito a algum lado para os comprar!
Maria Rita diz:
Mas eu comprei. Uma empregada viu-me tão desesperada que me perguntou se eu precisava de alguma coisa. E eu disse que precisava dos danoninhos liquidos marca Minipreço
Clima diz:
Então afinal havia...
Maria Rita diz:
Havias de ver a cara dela a pensar “Esta tipa não está boa da cabeça”
Clima diz:
Imagino...
Maria Rita diz:
Então ela foi lá dentro e trouxe
Clima diz:
Vês? Tudo se resolve...

Muito à frente

Ele diz: Quero ver como vai ser em Janeiro quando sair o mail...ou nos fechamos os dois a fazer uma grande festa ou cortamos os pulsos...
Ela ouve: bla bla bla em Janeiro...nos fechamos os dois bla bla bla
...e pensa: Ele faz planos a longo prazo; vamos estar juntos em Janeiro; Yeeeeeeesssssssssssss!!!

vestígios rasgados

No início da minha adolescência era hábito os rapazes enviarem bilhetinhos às raparigas (e recíprocamente). Continham declarações como És a rapariga mais bonita que eu conheço. Queres namorar comigo?, ou corações com os nomes inscritos, setinhas e o caraças. Como raramente correspondia a essas atenções, acabava por rasgar os bilhetinhos, na maioria dos casos. Hoje tenho pena de o ter feito: sempre que encontro um sobrevivente acho imensa piada.
Todavia houve missivas de idades posteriores que acabei por destruir, sem qualquer arrependimento subsequente. Porque há coisas que tentamos, em vão, compreender. Se delas sobram resquícios, estes colam-se a nós e fomentam essa necessidade de perceber um porquê que, já sabemos, não irá nunca obter resposta. O passado conserva-se rolhado em formol quando não nos pode atingir. Quando somos capazes de não voltar a abrir o frasco para só nos intoxicarmos com o cheiro. Do formol, bem entendido, porque um passado que não conseguimos arrumar numa simples gaveta é um passado inodoro. Procuramos-lhe o perfume, mas só encontramos o da mágoa que o conserva.

olhar excêntrico

quando era miuda morria de inveja duma vizinha minha que era vesga. na altura já achava que a simetria era algo um bocado matricial demais, e achava lindo aqueles olhos tortos, um deles virava para fora (mais tarde descobri que chamavam a isso estrabismo excentrico: lindíssimo - sempre senti uma atracção secreta pela excentricidade). a miúda em si era um bocado toina, mas aqueles olhos possuiam um poder qualquer que eu, miuda com os olhos normais, não conseguia entender. achava um bocado horrivel ela andar com uns óculos com uma lente tapada (diziam-me que havia um furinho minusculo na máscara por onde o olho deveria ser educado a espreitar, mas eu não acreditava). e o olho tapado com aqueles óculos foleiros apenas fazia recrudescer em mim a atracção por aquele olhar. achava que eles viam mais do que os outros. e pedia-lhe para ela não usar os óculos nas brincadeiras de miudas que partilhávamos nos pequenos jardins das casas das nossas avós. chegava a esconder-lhe os óculos de propósito nos canteiros das flores, ela não ligava muito, penso até que ficava aliviada por não andar com aquela coisa, embora por vezes os reclamasse com ar importante e havia fita e ameaça de queixinhas as mães das nossas mães, num assumo da superioridade que sabia que exercia sobre mim.
da miuda perdi-lhe o rasto. mas a atracção pelos vesgos perdura, é qualquer coisa que existe desde que me conheço, e que talvez numa das formas mais recuadas me deu a conhecer a diferença dos corpos e dos entes neles contidos, a alteração subtil das dinâmicas pelas diferenças a descobrir em mim e nos outros.

Na verdade, nunca somos mexeriqueiras

Temos é este indomável instinto que nos impele a tomar conta dos outros.
No fundo, é um furor filantrópico.

Acontece-me

Dar dois passos em frente, resoluta. Estender a mão para o lado: tentar agarrar, mesmo sem ver, o que sei estar ali. Olhar em frente e perder o pé. Não encontrar linha que me una a um ponto de fuga. Quando há muito perdi a linha do horizonte.
Fica difícil quando não se consegue encontrar as pontas.

Coisas prosaicas

Como todos os seres humanos, as mulheres são altamente complexas e impossíveis de categorizar. Em dada ocasião qualquer uma se transforma numa excelente (mãe, dona de casa, amante, amiga, prostituta… whatever) Temos em nós uma capacidade de adaptação inquestionável. Capacidade essa que é posta à prova e duramente quando temos filhos pequenos (e se calhar quando temos filhos de qualquer idade).

Para uma mãe como eu é a coisa mais normal do mundo que uma filha pequena leve o caminho todo a vomitar de casa até à escola e depois não pode lá ficar porque já estão lá não sei quantos meninos com diarreia e vómitos e depois levar a criança que continua a vomitar todo o caminho até casa da avó… e valha-me a santa da avó que se prontifica a ficar logo com ela para a lavar e mudar enquanto eu volto a casa para deixar lá a cadeira do carro a lavar (sim que hoje é dia de senhora das limpezas ou técnica auxiliar ou lá como é que se chama a dita cuja que ficou de me limpar o vomitado hoje que também é para isso que lhe pago!) E em minutos mudo de roupa, limpo o carro com os benditos dodots que até na porta do lado de dentro tinha vomitado…

E às 9 e meia estou no escritório com ar de poucos amigos é certo mas aqui estou eu a fingir que sou uma profissional competente e a tentar muito desesperadamente abstrair-me e esquecer-me de tanta porcaria que saiu de dentro da minha menina!... E se calhar devia ter tomado banho também… isto de ser mãe tem que se lhe diga!

Pedaços de papel colorido

Em casa da avó, no meu quarto, havia uma cómoda das antigas, muito escura e pesada, cujas gavetas custavam imenso a abrir. Na verdade aquele quarto não era meu e, na cómoda, tinha apenas o direito, durante as longas férias de verão, a usar uma das gavetas de cima que tinha metade do tamanho das seguintes; mesmo assim era suficiente.
O quarto não era meu, era de uma tia que já lá não vivia. Rapariga nova, casada, raramente ali passava férias, ocupada com os filhos noutras férias de praia com o marido e de campo com a família do marido. Mas a cómoda ainda tinha coisas dela, de outra vida, que já não eram precisas.
A última gaveta da cómoda era a mais difícil de abrir, tal era o peso. Cheia até acima. Eu, fascinada pelo conteúdo, de vez em quando lá a tentava abrir e ficava a olhar, sem mexer: nunca lhe toquei, uma menina de bem não se deixa arrastar pela curiosidade, mesmo quando é grande. Mas não me conseguia impedir de abrir a gaveta e olhar: parecia-me aquilo uma coisa gigantesca, enorme, imensa, uma coisa de tal forma exagerada que me custava a acreditar que fosse possível.

A gaveta estava cheia até acima de cartas. Dezenas, centenas, milhares (sem qualquer exagero) de cartas. Cartas endereçadas ao marido, escritas durante muitos anos de namoro, a letra larga e redonda, muito legível de menina ainda quase garota, para o Exmo. Sr.; no remetente apenas o nome próprio seguido da morada: ambas as moradas na mesma cidade. Milhares de cartas escritas num quarteirão e enviadas para um quarteirão muito perto, meia dúzia de ruas de distância, milhares de cartas com milhares de palavras de menina enamorada, ainda quase criança, visível na escolha dos envelopes e dos papéis, cores felizes e brilhantes, vermelhos, amarelos, verdes, azuis, alguns brancos, outros poucos de cores mais raras (quase que se imagina a alegria de menina em encontrar Oh! Envelopes e papéis de carta em lilás ou cor de rosa, mas sempre cores muito fortes, cores da felicidade que se envia assim, em vermelho ou amarelo).
Aquele amontoado de cores, mais até do que a quantidade, mas por causa dela evidentemente, era aquilo que me atraía à gaveta, que me fazia doer os braços para a abrir e ficar a olhar. Não sei, mas aquilo deixava-me feliz também, sem saber muito bem porquê.

Um dia, a tia apareceu. Uma senhora elegante e bonita, tia adorada de amável e de piscadelas de olhos aos disparates de sobrinhos. Eu estava no meu quarto, o quarto que tinha sido dela, que era dela ainda. Disse-me, deixa-te estar que preciso da tua ajuda. Dirigiu-se à gaveta das cartas e abriu-a. E começou a tirar cartas, sabes estas cartas escrevi-as eu ao teu tio, quando namorávamos, são muitas não são? e eu que sim, que eram e bonitas também e ela começou a rasgá-las. Vem ajudar-me a rasgar isto tudo, pediu-me e eu, mas porquê? porquê? e ela, sempre a sorrir, já não as quero, melhor rasgar tudo.

Passámos muito tempo a rasgar tudo. De dentro dos envelopes soltaram-se palavras muito grandes e redondas sobre vermelhos e amarelos e verdes e azuis. Os pedaços foram-se misturando em montes no chão, nós as duas sentadas ao lado, a tirar mais cartas da gaveta, a rasgá-las; até à última. Depois, a tia, sem nunca deixar de sorrir, juntou todos todos aqueles pedaços coloridos em grandes sacos e levou-os para serem queimados.

25.10.05

Agradecimentos (ó que queridos!)

É absolutamente impossível continuar com os agradecimentos aqui em post...as referências são muitas mesmo! :)
O nosso enorme obrigada e os agradecimentos passam ali para a coluna da direita de baixo (assim comássim ficamos também com uma lista de links).

Fomos DESTAKadas


Agradecimentos ao Destak e parabéns Isabel R. ! :)

fixe...

já chegou alguém.

TA AÌ ALGUÈM?

tou sozinha no blog. TA AÌ ALGUÈM?
tou a sofrer de solibloguidão.

Meninas, no Intervalo, hein?

conquentão na hora da telenovela?....
antes isso do que a lavar a loiça.

Boys will be boys

E não é que hoje até me sentei no café ao lado de um grupo de rapazes de liceu e me estiquei toda para tentar ouvir de que falava aquela manada. E não é que estavam com uns novelos de lã nas mãos (um branco e um azul bebé), lã essa que estavam a usar para entrelaçar pulseiras!! E eu cá prós meus botões já a pensar "Mau! Será que as coisas mudaram assim tanto??"...

Mas depois um deles pega no novelo branco e diz aos outros "Olha parece mesmo uns colhões!" Segue-se risota geral e depois vai o outro e com o novelo azul bebé por cima diz "E este é o caralho!" E vira-se outro ainda "Ó Pires bora lá tirar aqui uma foto pra mandarmos prá malta!" E tiraram a foto no meio da risota geral…

E eu saí de lá mais descansada porque sendo certo que estes estereótipos nos encaixotam demasiado, de uma forma estranha qualquer também nos fazem sentir aliviados por sabermos que ainda existem e que afinal não estamos (nem eles estão) assim tão desadequados!

personagem secundária

cresceu a modos de discretamente, tentando não chatear uma família problemática com dramas variados. raramente pedia alguma coisa, partilhava quase tudo - falta o muito importante 'quase' - , e dava sobretudo paciencia e mão de obra variada. habituou-se a um lugar estrategicamente no discreto, tinha uma esperança do caraças no futuro algo longínquo, aquele em que seria crescida e dona de si.
ficou uma sobra especular do que aprendeu a designar de 'síndroma de personagem secundária'.
foi averiguando dos seus efeitos de formas variadas: foi puta de dia -não dava jeito em casa sê-lo de noite, por causa das justificações - com pagamento exclusivo em experiencias das variações de afecto, por entre o ser boa aluna e menina de decoro, mais do que de coro, não havia tempo para ser tanta coisa.leu avidamente ' a vida sexual de Catherine M.',quando saiu a edição portuguesa, onde se reviu em episódios da procura do que sempre faltou. foi procurando entender ao longo da sua vida o lugar de quem encorna e o da encornada, esse processo estranho que observava na sua casa de menina, a de família, essa dinâmica devastadora e simultaneamente cimento que lhe trazia o pai no fim de contas sempre a casa, refeito com culpas para continuar; a mãe cheia de direitos de vitima; e as cenas pródigas nas quais os progenitores se degladiavam em veneno, cansaço, coisas partidas e berros.
aprendeu na sua história particular que a paz e a coragem se encontra muitas das vezes de fora: que o exterior empresta muitas vezes uma espécie de força sem nome, anónima, a que muitas vezes recorreu, numa sede promíscua que com o tempo foi ficando mais teórica. apesar de tremendamente discreta, mesmo em menina, tornou-se talvez mais apolínea, com o decorrer dos anos.
Hoje, por entre a formalidade e a reserva dos modos,tem um olhar nada ortodoxo, estranho, do conhecimento dos heterónimos que a ajudaram a crescer.

Os modelos teóricos

Odiamo-los de morte, de paixão, de amor, de raiva, de tusa, de tudo. São todos os nomes de besta a criatura vil, de desarrumado a rei dos porcalhões, de grunho a criatura cretina (e ainda me devo ter esquecido de alguns cumprimentos que estão nos comentários) de selvagem a besta outra vez. Os homens, esses bichos que se peidam e arrotam e se coçam e tiram o resto que sobrou do bife do buraco do dente lá detrás, que deixam crescer cotão entre os dedos dos pés, no umbigo e no rego do rabo, uns patifes feios e monstruosos, esses homens são igualinhos às gajas putas vacas de merda, as cabras que são tão amigas pela frente e espetam estiletes nas tais amigas pelas costas, as que abrem as pernas a todos, as que não abrem, as que andam por aí a pedi-las e as coironas a quem se tapa a cara com uma almofada e marcha na mesma, as que dão estalos nos putos ou que os calam com gomas, as que são desarranjadas, sujas, porcas, feias, pirosas, merdosas, as que levantam a garimpa e as que se amocham sempre, as que deviam era levar no focinho e as que mereciam era levar com ele a ver se falavam assim depois.
Entre todos os nomes estão pessoas, umas mais assim, outras menos.
Para se entenderem os modelos que correspondem à realidade, é necessário primeiro entender os conceitos teóricos puros que ficam nos extremos.

Homens da minha vida

O miúdo era giro. Aliás, era o mais popular dos jogadores de bola da escola e, ainda por cima, mais velho – 4 anos mais velho – um sonho! Segui-o por todo o lado – treinos, jogos e festas – na esperança que reparasse em mim. No dia em que, finalmente, e em plenas escadas da esquina da rua, nos beijávamos apaixonadamente, surge o meu pai vindo directamente de um dia de trabalho naquela que parecia ter sido a sua missão toda a vida – apanhar-me em flagrante de delito! Recua, olha para trás e diz calmamente: à minha frente! Ao que obedeci, claro... Chegados a casa disse que não me queria a fazer aquelas figuras na rua, perguntou-me se precisava de saber alguma coisa sobre protecções e afins (acho que estava a falar de sexo e preservativos e, do alto dos meus 13 anos, respondi que não) e que podia namorar à vontade desde que tivesse juizinho.

A minha pergunta é, mães do nosso blog, quantas de vós não desatava aos gritos e à chapada_tipo_mãe enquanto esgritanhava que isso não são figuras para uma menina como tu andar a fazer no meio da rua!; quantas diriam ali, e a quente, que sim podem namorar à vontade?

Eu, que não tenho filhas, faço apostas que se tiver as fecho até aos 21 no quarto sem ver sol nem gajos! Não vão elas sair à mãe...

[para os gajos que, no fim, até nem são todos uns grunhos]

caraças pró 'fofinha'...

não sei que é que hei-de fazer... então o dito cujo, o actual, o apaixonado, o coiso e tal,chama-me de f.o.f.i.n.h.a ?! caraças, mas como é que hei-de dizer-lhe que detesto que me chamem tal ternura que parece carpélio? não quero parecer ingrata... mas... ...fofinha?!?!

os vilões nas vilinhas

os vilões de que falo são as criaturas com pila, sim essas que têm lugar marcado no sofá e uma relação íntima com o comando da televisão e que ainda acham de direito o não fazer a ponta de um corno em casa, como se fosse uma virtude ser mentecapto e atrasado manual e mental... mas a parte isso são capazes de ser mais eruditos na música do que nós nos programas das máquinas de lavar a roupa, de comprarem os livros na fnac e nem nos mostrarem (acabamos por os descobrir, nem que seja na senda de limpar o pó) ... tão modernos e cultos que parece para o exterior funcionarem assim em todas as frequencias.
aqui, o pessoal do INEM domestico tem de saber fazer as magias do lar, ser culta q.b. e não dar barraca nos jantares com faltas de cultura ou informação, andar arranjada e não se deixar engordar - há desgostos deste género que não é raro dar para a bulimia. e ainda por cima comparam-nos directa ou indirectamente com as estadias pré-nós, geralmente a da vilinha da maezinha, ou a da outra gaja que o meteu fora de casa, mas que apesar de tudo ficou atravessada neles porque teve tomates para isso.
as nossas necessidades de ir arejar são frivolidades; as deles são reuniões importantes; as nossas desarrumações são desleixos; as deles são resultados de se ser distraído; se não fizermos o jantar andamos no boicote; se eles não o fizerem foi pq pensavam que nós o fazíamos ou estavam ocupados, etc, etc, etc...

Uma amiga minha disse uma vez, num desabafo, que a paixão acaba com um par de meias sujas fora do cesto da roupa... nunca mais esqueci. e todo o resto que sabemos cada uma à sua maneira? acaba com o quê?

não me lixem...

Tenho vindo a falar aqui duma manada (no sentido de mão cheia) de moços, a quem têem apelidado de neendartais, pedregulhos, bestas, crianças e os mais variados adjectivos apenas porque escolheram partilhar comigo alguns provérbios um tanto ou quanto redutores da natureza humana (como tantos outros, se formos a pensar bem). Pois é verdade sim senhor que estes moços, apesar de bons moços e trabalhadores, não tiveram a oportunidade de ter uma boa educação, e não estavam muito habituados a companhias femininas. Eram novos, só pensavam em sexo, falavam de pouco mais que sexo, eram machistas quanto baste e nunca lhes tinha sequer ocorrido que uma mulher tambêm pudesse ter desejos de índole sexual. Gostavam de tony carreira e de bailes, apanhavam carraspanas de caixão à cova e traíam as namoraditas por qualquer uma que lhes piscasse um olho (que era de seguida apelidada de oferecida, obviamente).
Ao mesmo tempo que conheci esta manada de moços, conheci um senhor de seus 40 anos, um senhor que tinha um mestrado, que tinha viajado pela américa, áfrica, europa e austrália, que gostava de vinhos e não fumava à mesa, gostava de comer bem, de literatura e de Zappa, falava de politica, da conjuntura mundial, que dançava salsa e era fluente em 6 línguas.
Agora adivinhem lá então quem é que me me tentou violar e adivinhem tambêm quem é que o tentou evitar, me enxugou as lágrimas, me deu abraços e teve dias seguidos a conversar comigo?

Ainda à mesa com a mesma manada de moços...

Aprendi um outro provérbio que reza o seguinte: "Quem tem uma cona tem uma quinta, quem tem uma piça tem um caralho".
Este é um provérbio catita que ao que parece quer dizer que uma gaja, basta abrir a perna para ter o que quer, enquanto que um gajo, tendo o apêndice que tem, nada pode ganhar com ele. Este provérbio incomoda-me porque, não tendo eu conhecimento de falta física de cona por esse país fora, leva-me a pensar que o mal está no sitio do costume: Gaja bem comportada só deve abrir a perna no intuito de fazer filhos e só se tiver aliança no dedo e contrato assinado. Gaja que abre a perna por outra razão, nomeadamente porque lhe apetece, é puta.
Por outro lado um Gajo enfia-a onde quer e muito bem lhe apetece, sendo, quando muito, mais macho se a enfiar mais vezes e em mais sítios.
Esta maneira de pensar leva a que, mesmo que haja muita cona por aí, alguma dela aos saltos, esta não está disponivel no mercado, porque está protegida por um par de pernas bem fechadas pelo medo de se ser puta, havendo portanto um excedente de pilas erectas e sem medo, dispostas a fazer tudo para que um par de pernas se abra, incluindo oferecer quintas.

Das princesas e dos sapos

Dentro do género feminino (e se calhar dentro do masculino também mas isso já não sei!) há as que se consideram princesas e outras que se consideram sapos. E muitas que não se consideram nem uma coisa nem outra ou qualquer coisa intermédia mas não é sobre esses 99.9% de mulheres que eu quero falar.

A coisa começa logo em criança. Há as bonitas e engraçadas que levam todos os adultos a tratarem-nas nas palminhas por causa das covinhas e dos caracolinhos nos cabelos e outras coisas tão giras que me estou a tentar recordar da minha mana mais nova que era um exemplar deste género. Não havia alma que passasse lá por casa que não se prendesse com as gracinhas desta menina tão radiante e despachada.

Detectam uma pontinha de inveja? Pois então detectam bem sim senhora! Eu sempre tive uma inveja e uns ciúmes danados desta minha irmã que parecia um anjinho de altar. Eu sempre me senti um sapo. Daqueles para quem as pessoas só olham quando está ali mesmo à frente do nariz e se desviam do caminho pra não pisar!

A grande porra é que a maior parte do tempo ainda me sinto assim embora neste momento tenha um enorme carinho por esta minha mana mais nova. A vida não tem sido fácil para ela e muitas vezes lhe tenho pedido desculpa por ter sido tão cruel para ela em criança. Tanto gozei com ela, pobrezinha… nem sei como é que ela hoje ainda me fala! Foi claramente um caso de rebaixamento por diferença de idade. Por ser mais velha e mais esperta mas apenas pela diferença de anos, enganava-a e roubava-a e sei lá mais o quê que tenho até vergonha de me lembrar!

Mas voltando ao sapo que sinto existir dentro de mim… não é fácil sentir-me assim. Porque os sapos podem até fazer um esforço para melhorar a aparência, mas no fundo sentem-se sempre ridículos por o estarem a fazer. Ou se nasce princesa ou se nasce sapo… e cada um carrega a cruz que merece ou que o destino lhe deu. Sapo nasci e sapo morrerei embora uma coisa se possa dizer em abono destes batráquios. São muito feios mas podem conseguir ter um certo charme… mas é mesmo só para disfarçar a beleza que lhes passou ao lado! :-P

Coleguinhas de blog??? Hallo?????

É só para dizer que vocês escrevem muito bem.
Pronto. Já disse. Podem continuar.
Beijinhos
Krassy

Há uma tontura

Há uma tontura. Não é bem uma tontura nem é grave. Não tira o sono (não?) nem se pensa muito nela, mal se sente. Não é bem uma tontura, é uma curva. Não, também não é bem uma curva, é um cruzamento à beira do sentido do pensamento. É curva na medida em que se pode virar de repente e enveredar por esse atalho e é tontura por causar um certo desfazamento da realidade.
Falo da estrada que tem por placa de entrada a palavra Se. É o caminho para Se embora o caminho seja já Se, como se Se começasse logo ali, umas casas ainda antes de chegar a completamente Se, uns bairros-satélite, uns prédios no alto de um monte, um muro meio a cair de uma quinta, tudo prenhe de Se mas ainda sem se ter lá chegado.
Imagino a placa, de madeira pregada num pau, enter Se at your own risk, como nos filmes, quem sabe uma caveira se for série B, ou um abutre desenhado por Morris, gosto mais desse, e uns bocados de alcatrão e penas; Se, beware of the alcatrão e penas (tar and penas? adiante, inglesismos é o que dá, depois saem todos mal), mas o aviso, seja ele qual fôr, é sempre um aviso visível. A Terra de Se é um local perigoso para qualquer um, mesmo avisado. E claro, com avisos assim, poucos resistem. Não me faz mal a mim, todo esse Se, estou bem agarrado ao chão, exclama o incauto com bravata, a pior forma de entrar em Se; Se não gosta de falta de respeito, Se é sítio que morde a coragem, que rói todos os ossos dos que pensam que não são afectados por Se.
Se entra-se pé ante pé, pois resistir é quase impossível, mas melhor seria. Pezinhos de lã e bico calado, um pouco fora da estrada, atrás das árvores, à espreita, discreta e silenciosamente. E talvez Se não dê por nada e talvez não atire
uma hipótese qualquer das que, de repente, parecem tão plausíveis
um Se dos mesmo grandes
um daqueles que transformam a tontura numa amona que arrasta para dentro de mais completamente Se
talvez assim (mas só assim) Se não nos afogue.

Xiuuuuuuuuuuuuuu......

Sabem do que eu gostava? De estar atrás da porta a ouvir as conversas de um jantar só de homens. (Uma nota: de homens que sabem ler, escrever e pensar). A sério. Não tive irmãos: só marido e cunhados e esses não contam. Será que falam dos problemas deles? Das alegrias? Das frustrações? Falam dos filhos? Dos empregos? Dos colegas de emprego? Dos chefes? Do ginásio? Gozam uns com os outros? Gozam deles próprios? Discutem? Sobre quê? Não pode ser só sobre política; também não pode ser só sobre mulheres. Não acredito que só falem de futebol. De roupa, sapatos e cortes de cabelo, não acho. Má língua (vulgo calhandrice)? Já perguntei diversas vezes e só recebi evasivas: "de que te foste lembrar." ou então melhor ainda: "Não falamos de nada". Já me indignei: "Trabalham todos para a CIA? Não se pode saber?" E nada. Nadinha. E toca a mudar de conversa.
Bom, a verdade é que eles também não sabem que escrevo isto "under cover".

A B C da intuição feminina

A está deitada no sofá da sala a ler
B está no quarto a dormir, no berço
C está noutra divisão a brincar

Um silêncio que se prolonga por mais de dois minutos. O estalido subtil de uma das tábuas do corredor. A pousa o livro e vai directamente ao quarto, a tempo de impedir C de despejar o caixote dos legos sobre B.

24.10.05

...volta

Corria desesperado com o comando na mão, na tentativa de encontrar um ponto assinalado naquele mapa cheio de luzes e riscos verdes, que se cruzavam sem compreender as referências. O sol, aquela bola gigante de calor que pairava sobre si, confundia-o, sentia pela primeira vez o corpo molhado em comichão, colado às roupas que nunca tinha estranhado até então.

Devia ser do ar, pensou, ficando satisfeito por lhe sobrar alguma lucidez. Como era leve aquela respiração, como mantinha o coração acelerado, um cansaço que custava a digerir.

Olhou para o lado e viu alguns dos companheiros caídos naquele chão de pó, quase laranja, uma cor que só tinha visto naquelas estranhas criaturas, ainda pregadas na sua mente quente. Sabia que não os podia socorrer, a sua missão era chegar até ao topo da outra montanha, fintar o inimigo e colocar as armas no ponto 34c22b. Era crucial que fosse bem sucedido.

O barulho era ensurdecedor, explodiam bocados de rocha dura sobre a sua cabeça, os gritos vinham até si como ondas monstruosas e, só tinha vontade de se fechar sobre o seu corpo, enrolar-se naquele chão laranja e ficar quieto até que tudo parasse. Estava demasiado pesado, demasiado quente, demasiado desorientado, o corpo seguia numa direcção precisa e o comando pendia-lhe ao longo da cintura, batendo-lhe ligeiramente nas coxas, dizendo-lhe que o fim estava longe.

De repente, viu o seu companheiro de quarto, de muito anos passar por si. Não sabia que podiam atingir velocidades como aquela, corria tanto que o perdeu de vista. A sua tentação foi olhar para trás, saber porque tal acontecia, já que era suposto que este fizesse um caminho contrário ao seu. Mas parar era atrasar e, isso não podia fazê-lo, fora treinado para seguir em frente, nunca olhar para trás.

Continuou a percorrer o chão, no sentido certo, a subida era pior que tudo o resto mas, o corpo parecia ter sido alimentado para aquela aventura. Passou por uma coisa que supôs ser uma árvore, era verde, tinha centenas de bocados soltos no fim de paus muito direitos. Dançava, sem se mexer do mesmo sítio, dançava como se celebrasse uma vitória, que não seria de nenhuma das partes mas, dela, ela pertencia ali, àquele mundo pelo qual lutava, sem ter tempo sequer de o ver.

Muitas vezes tinha pensado para si, porque lutariam eles por algo perfeitamente desconhecido, porque não se ficariam pelo que tinham. Já não eram tão altos como os antigos, não tão escuros como via nas pinturas da sala de treinos, não tão felizes como lhe tinham dito que deviam ser. Havia água, havia comida e, reconhecia sorrisos nas faces de quem tenha conhecido. Qual seria a medida certa para a felicidade.

O comando estremeceu na sua perna. De imediato olhou para as coordenadas e surpreendeu-se com o ponto onde se encontrava. Será que um dia, ali no mundo de fora, passava mais depressa do que no seu mundo? Que espécie de tempo era este, em que o cansaço se desvanecia à medida que se esforçava?

Apressadamente, desceu a mochila das costas, abriu-a com destreza e colocou a arma no ponto 34c22b. Agora, teria apenas de escavar um pouco aquele chão e enterrá-la de forma a que pudesse ficar completamente estável. Procurou, sem efeito, a sua faca, aquela que lhe tinha sido entregue com alguma solenidade, pois pertencera ao seu pai.

Enquanto revolvia o interior da mochila, os estrondos aproximavam-se cada vez mais, os gritos eram cada vez mais profundos, como se o seu corpo partilhasse da dor dos seus companheiros. Pensou que na ida, poderia apanhar ainda um ou dois, levá-los a casa. Sem, conseguir encontrar a faca para cavar, tirou as grossas luvas e deitou as mãos ao chão.

A terra era tão suave, escorregava-lhe entre os dedos, deixando-os da mesma cor. Levou a mão ao nariz com um pedaço de terra, sentiu o cheiro da água seca, um cheiro que lhe lembrava os momentos de criança quando brincava na sala maior, depois das refeições, quando se fingia de morto para o seu companheiro de quarto, quando brincavam às guerras e aos gemidos, demasiado baixos para o que se tornara real.

Sem tempo a perder, encaixou a arma no buraco que tinha aberto, tapou-a um pouco para testar a sua firmeza e ligou o botão. Pelo seu tempo teria uns bons quinze minutos para se afastar dali, para conseguir sobreviver ao embate da explosão que supostamente arrasaria o mundo do adversário. Mas aquele tempo, era um tempo rápido demais, porque não lho tinham dito antes?

Apressou-se a guardar todos os artefactos dentro da sua mochila, activou de novo o comando que ainda bailava na sua cintura e, apanhou um punhado de terra, de pó laranja macio, que guardou dentro do bolso das calças.

A descida parecia-lhe vertiginosa. Olhou finalmente para trás, agora à sua frente; o rasto de destruição era imenso. Conseguia ver os corpos parados, os olhos abertos dos companheiros em direcção ao sol, cegos, sem movimento algum.

Os seus pés adquiriam uma velocidade estrondosa, não tinha tempo para pensar nos movimentos, sentia o peito a bater-lhe no fundo da boca, a cabeça girava mais que nunca e o comando assinalava a quase explosão da sua arma. Ao fundo da descida viu novamente a árvore, que continuava serena a dançar sobre si mesma, incólume, tinha a certeza, ela sim, iria sobreviver a tudo isto, tal como o céu azul claro, como o sol quente, como o chão laranja que pisava.

Foi varrido por uma chuva de pedregulhos e um vento forte atirou-o para chão. O barulho vinha de dentro do mundo. Meteu as mãos à cabeça e enfiou a cara na cor laranja. Pelo canto do olho viu a cor do seu corpo salpicada por bolinhas vermelhas. Custava-lhe a respiração, o pó do mundo de fora entrava em si, misturava-se com aquilo que lhe corria dentro. Dos seus olhos caía agora um líquido incolor que lhe ardia, tinha a certeza que era a bebedeira que lhe tinham descrito anteriormente, pois não se conseguia equilibrar, não se conseguia concentrar numa coisa de cada vez.

Respirou lento, pesado, tentou lembrar-se de todas as advertências que lhe tinham sido feitas antes de partirem. Colocou-se de pé a custo, activou de novo o comando e seguiu em frente.
Deu consigo diante da imensa porta que se abria para si, sem saber quanto tempo tinha demorado a chegar, quantos deles teriam voltado, como teria corrido a missão.

Duas mãos sustentavam-no pelos braços e sentiu de novo o cheiro húmido das paredes que o rodeavam, o frio que se entranhava dentro da pele e que a fazia estranhamente rígida em comparação ao mundo de fora. Deitaram-no numa cama feita de gazes; sentia-a tão macia como a terra que trazia no bolso das calças.

Olhou em volta e viu muitos dos seus companheiros, envolvidos em gazes vermelhas e laranjas, sentados no chão em silêncio. Encontrou aquele que mais procurava, que lhe devolvia um sorriso largo ao seu olhar. Um simples gesto com a mão foi o suficiente para se acalmar novamente.

Ficou suspenso entre o olhar e a memória, aquele tecto não tinha fim, o inimigo não tinha conseguido atingir os seus objectivos. Havia um vazio no seu corpo de tão cheio que estava. Era um homem agora e a sorte estava-lhe reservada, teria tempo, não precisava de se ajustar de imediato. Respirou com regularidade, olhou as mãos ainda laranjas e deitou a mão ao bolso. Um pedaço do mundo exterior ficava consigo.

Na manhã seguinte acordou alagado por um cheiro doce. Abriu os olhos e viu à sua frente umas mangas de vestido tingido, que se movimentavam de forma graciosa. Levantou o braço e afastou-as da sua cara, por detrás daquela cor, encontrou novamente aqueles olhos negros, os lábios carnudos sorriram-lhe, deixando antever os dentes alvos. Era certo que era para si.

Meteu a mão ao bolso onde guardava o chão laranja do mundo de fora, e com a ponta de dois dedos retirou um pouco do macio pó. Procurou a mão dela com a sua e, deixou-o cair sobre a palma estendida. Aquela estranha criatura, tão igual a si, fechou a mão depois de muito o olhar. Sentou-se a seu lado e deixou-se ficar quieta.

vós que sabeis tudo...

uma gaja que trabalhe no turno da noite, tem enjoos matinais a que horas?

Receitas fáceis (2)

Uma receita rápida mas sempre com muito sucesso:

Corte as batatas em cubos (é melhor comprar batatas para assar) e leve ao forno num pyrex largo, com azeite. Polvilhe com alecrim (de frasco) e sal. Mexa de vez em quando.

Para sobremesa:
Corte maçãs às fatias não muito grossas. À parte faça um pudim de pacote. Eu gosto com sabor a baunilha ou mesmo pudim flan.
Barre o pyrex com manteiga e vá colocando as maçãs e o pudim em camadas.
Vai ao forno polvilhado com açucar (se quiser) e canela.

Receitas fáceis (1)

Ingredientes:

1 frango em pedaços (ou uma série de pernas e coxas que é como eu faço)
1 pacote de natas
1 embalagem de sopa de cebola (knorr ou magi ou da marca que vier à mão)
Batatas q.b. (se preferirem podem servir com arroz branco, mas eu prefiro as batatas)
Azeite q.b

Preparação:

Metem o forno a aquecer a 180º Pegam nos pedaços do frango e tiram-lhes a pele. Descascam as batatas e cortam-nas em cubos (ou uma cena do género porque o que interessa é o sabor). Passam os pedaços do frango pela sopa de cebola (tipo frango panado em sopa de cebola) e fazem o mesmo com os pedaços da batata. Metem o azeite no fundo de um tabuleiro de ir ao forno. Metem os pedaços do frango e as batatas no tabuleiro. Deitam metade da embalagem de natas por cima do frango e das batatas. Levam ao forno durante 45 min.. Ao fim de 45 min. Viram o frango e tentam virar as batatas o melhor possível e deitam o resto das natas. Levam ao forno mais 45 min. Já 'tá!!! ;)

E hoje vou fazer carne de porco à alentejana.

Tá bem, tá bem, eu meto um post!

Caneco, pá, tanta gaja e nem uma receita, uma que seja!

O pudor e a vergonha (ainda sobre o mesmo tema)

Quantas mulheres, mesmo aquelas que conhecem perfeitamente o seu corpo e todos os botões e reostatos, que exploram e deixam explorar todos os milímetros de pele que estão disponíveis e mais alguns que ficam menos à mão, são capazes (sem sentir qualquer desconforto) de dizer ao parceiro agora vou aqui bater uma e tu ficas a ver?

Agora apôsce-me uma dúvida

Nunca senti a mais pequena vontade de me masturbar em criança: oh meu Deus serei normal?

Handymen, candymen

Estão a ver aquela frasezinha irritante, eu ajudo bastante lá em casa? Quem ajuda, está a ser apenas um complemento para quem, efectivamente, dá conta do recado, o que enquadra o bastante numa escolha de palavras paradoxal.
Nesta época de indefinição, os homens deixaram até de fazer aqueles trabalhos ditos pesados, como mudar lâmpadas (tarefa, está-se mesmo a ver, muito mais pesada do que passar a ferro ou dar banho a uma criança de dois anos). Agora vão adiando até se indignarem quando nós lhes comunicamos en passant que vamos mandar vir cá um homem para arranjar a porta do frigorífico...
Sucedem-se ofensas e mais promessas, para depois esperarmos outras três semanas e chamarmos o tal do homem a quem pagamos - e bem! - para ser mais homem que o nosso.
O handy man (ele é tão raro que se usa mais assim, no singular), além de poder viver mais tranquilamente, sem recriminações e de ter menos barriga porque se mexe mais, tem uma mulher menos cansada, mais bem disposta e mais grata, quando se deita ao fim do dia. Presumo que estejam a ver as implicações, meninos.

"É toda ao alto"

'Tive aqui há dias sentada à mesa de café com uma manada de moços que me ensinaram a frase que entitula este post. Ao que parece, numa gaja inteira, só a cona interessa, e sendo esta toda do mesmo formato, todas as gajas são iguais.
Personalidade e inteligência à parte, supondo que só o sexo faz girar o mundo, esta frase fez-me alguma confusão e tentei esclarecer junto dos moços em questão alguns pontos que me pareceram controversos:
- Beleza física: Está bem que eles só pensem na tal que é ao alto, mas pensava eu que, estando esta escondida por camadas de têxtil, eles se regiam por outras características mais visíveis para decidirem onde atacar, o tamanho das mamas ou a cor dos olhos, por exemplo, mas ao que parece, só a tal que é ao alto interessa, e se por acaso uma moça tiver uma cara assim menos favorecida, mete-se-lhe um saco na cabeça que é para não distrair. (Sendo assim, qualquer dinheiro gasto em maquilhagem, roupa, operações às mamas, antirugas, etc, se for gasto com o intuito de melhorar a vida sexual, é mal gasto, e melhor empregue em pilhas)
-Performance sexual: Eu costumava achar que eles davam importância ao factor “doida na cama”, e que preferiam uma moça que se mexesse a um cubo de gelo, mas sendo ela toda ao alto, fiquei com dúvidas, e sendo este um ponto que uma gaja pode modificar com alguma facilidade, com kamasutras e sites porno tão à mão de semear e sendo tão mais barato e indolor quando comparado com uma operação às mamas, esforcei-me por o esclarecer. Aparentemente, eles não desgostariam duma louca tarada que gemesse, chupasse e gritasse como se não houvesse amanhã, mas, ao que parece, sempre que lhes calha na rifa uma dessas, eles desconfiam que é tudo fita e fingimento e sentem-se ofendidos. (Sendo assim, mais vale uma gaja ir adiantando o preenchimento do irs enquanto dá a queca do que apreciar o momento, não vá soltar um gemido inadvertido e passar por falsa)

E eu que até pensava que senhores velhotes se vinham masturbar para a minha beira nas paragens de autocarro porque tenho um rabo jeitoso e desperto a líbido de qualquer um mesmo enquanto penso em cogumelos encostada a um poste, mas se entre mim e a senhora ao lado não há qualquer diferença, resta-me pensar que o senhor em questão se limitou a cumprir a ordem na fila para se aliviar...

Ciúmes da Outra

Eu - E então a […] é gira?
Filha - É muito gira!
Eu - Mas… é mais gira do que a mamã?
Filha - Não mãe, claro que não!
Eu - :-)

(Valha-me isso que a minha filha ao menos ainda me acha a mais gira de todas!)

23.10.05

Intimidades

O meu post anterior foi apagado porque achei que expunha demasiado a intimidade de outrem. Peço-vos desculpa pela precipitação. Essencialmente, o que queria transmitir era que, se quisermos quebrar esta estupidamente longa cadeia de transmissão de culpas e recalcamentos, no que toca à sexualidade infantil e à descoberta da sexualidade em geral, será fundamental que no quotidiano tentemos dar uma melhor educação sexual aos nossos filhos (raparigas e rapazes). Essa educação decorrerá muito daquilo que lhes possamos transmitir verbalmente, mas também da nossa postura, isto é, da nossa própria vivência do corpo e da sexualidade.

Na prática, nas questões da sexualidade, acho que a melhor coisa que uma mãe pode fazer pelos seus filhos, além de estar disponível para o diálogo, é preservar a sua identidade de mulher, amar muito e, se possível, dar muitas quecas. Faço-me entender?

Espírito prático

Ela 1 - Ele é casado? Gosta de arroz de pato?
Ela 2- Para que queres saber isso do pato? É importante?
Ela 1- Se não for casado posso convidá-lo para jantar e assim já sei o que posso ou não cozinhar.

As "conversas de casa de banho"


É uma piada que os homens dizem muito, isso de que as mulheres adoram conversar na casa de banho. E o complicado é que até é verdade. Simétrico ao “quando mija um português…”, temos de reconhecer que “quando uma portuguesa vai à casa de banho, vai logo uma amiga atrás”. E, se repararmos bem, isso surge na adolescência. Quanto a mim, nasce do ponto bem evidente de ser o único lugar de uma casa onde se pode ter total privacidade. Quanto temos 13 ou 14 anos e queremos trocar confidências com uma amiga, não é na sala, na varanda, no quarto, na cozinha. Aí pode sempre aparecer outra pessoa a interromper. Na casa de banho não. É suposto, se a porta está fechada, que ali é privado.
Depois crescemos, e já podemos definir o nosso espaço privado, mas há hábitos que ficam. Claro que se estivermos sozinhas em casa com uma amiga, conversamos no sítio onde se está, mas se é numa festa, numa reunião, ou muito simplesmente se há mais família presente, é irresistível o fascínio da casa de banho.
Tenho de confessar que soube coisas importantes dentro de casas de banho! Uma informação que pôs o ponto final numa relação de muitos e muitos anos, recebi-a com a minha amiga sentada na borda da banheira e eu encostada ao lavatório. E dá muito jeito, estarmos numa casa de banho, porque se pode lavar a cara para fazer de conta que não se chorou. E lembro outra situação, muito cómica desta vez, em que depois de uma reunião de trabalho, fomos à casa de banho eu e uma colega amiga, e a conversa foi tão prolongada que toda a gente se foi embora, e às tantas andávamos a percorrer os corredores enormes do edifício sem ver viv’alma e sem encontrar a saída… Valeu-nos um segurança nocturno ou ficaríamos ali toda a noite. Eu penso que isto tem a ver com a capacidade que nós temos de falar com mais facilidade das nossas emoções, dos nossos problemas pessoais. Dos homens que conheço, não direi que eles também não se analisem, mas quase sempre fazem-no com uma amiga e não com um amigo. Parece existir nos homens uma barreira invisível, de pudor, de resistência a mostrar que sofrem, como qualquer ser humano, não só por factos mas também por sentimentos. Para uma mulher, o falar é uma catarse muitas vezes. Ficamos aliviadas quando “desabafamos”, o que quer dizer que andávamos “abafadas”, com falta de ar. E quando se conversa na casa de banho, a maioria das vezes não é do que se passou, mas daquilo que sentimos, de como os factos nos afectaram. E sabe muito bem, ouvir um eco bem receptivo na pessoa que nos escuta a um metro de distância.

Sabes de onde vêem os macaquinhos?

Os macaquinhos no meu sótão vêem do facto de um familiar ter abusado de mim aos 5 anos. Não consigo falar da experiência com o à vontade com que o fez a Teresa M. no seu post tocante.

Primeiro porque nem percebi o que era que me tinham feito a não ser anos depois (e quando digo anos refiro-me a no mínimo uns 7 anos…) Anos em que pensava no que teria sido aquilo e porque é que aquela pessoa me tinha “tocado” assim.

E quando finalmente percebi o que era e porque tinha sentido o que senti, o meu maior ódio foi contra mim própria! Porque ao início tinha gostado daquelas “festinhas”! Porque me senti uma verdadeira filha do diabo por ter gostado daquelas “festinhas”!

Nunca falei disto com ninguém a não ser muito recentemente. A vergonha é enorme porque de alguma forma sempre me senti culpada por ele me ter escolhido a mim! E já passaram tantos anos e agora acho que já não vale a pena falar com ninguém da família sequer. A única coisa que me deita abaixo ainda às vezes é que o raio do velho nunca mais morre. Prometi que não falava disto a ninguém até ele morrer. Mas pelo andar da carruagem ainda vou eu primeiro do que ele!

22.10.05

Do amor e do sexo

“Amor sem sexo é amizade
Sexo sem amor é vontade”
Rita Lee (Amor e Sexo)

Uma coisa é o sexo e outra completamente diferente é o amor. Isso já todos nós sabemos apesar de talvez homens e mulheres divergirem sobre este tema como em tantos outros. Antigamente os homens amavam as mulheres que tinham em casa mas tinham amantes para o sexo que não tinham em casa. Toda a gente terá conhecimento de um tio, avô ou familiar que funcionava assim. Pelas conversas que tenho com as minhas tias o assunto das amantes era sabido mas não discutido entre as legítimas mulheres. Que pouco ou nada se incomodavam com isso desde que elas não lhes aparecessem à porta a exigir direitos que à partida lhes estavam vedados por serem as outras.

Mas hoje em dia já não é bem assim. Não sei se as mulheres que se casam agora partem em pé de igualdade com os homens no aspecto das exigências em relação ao direito a terem uma sexualidade plena e sã. Eu cá para mim sempre achei que as mulheres a partir do momento que são mães abdicam de muita coisa pelos filhos, incluindo esse direito que muitas deixam de considerar importante ou tão importante como era antes de nascerem as crianças.

Passados uns anos (e às vezes nem isso) eles começam a olhar para outros lados e elas hoje em dia se calhar também. Quem dá o primeiro passo e assume que quer ter outras experiências a nível sexual… isso é ser-se honesto e verdadeiro? É assunto para ser discutido com o parceiro? Ou os homens sentir-se-ão atingidos na sua masculinidade se a sua mulher assumir ter vontade sexual por outro homem?

Não sei como se viverão as relações entre homens e mulheres no século XXI. Sei que me parece praticamente impossível qualquer casal manter viva a chama do desejo sexual durante décadas a fio. De amarem-se loucamente e apaixonadamente passarão a amar-se não sexualmente e portanto tornar-se-ão mais amigos que amantes? E o que farão esses casais à vontade sexual que sentirão por terceiros?

Mais difícil ainda…

E este tema é absurdamente sério. Eu sou uma gaja liberal e sempre fui embora só ultimamente tenha começado a mostrar por fora a abertura de espírito que sempre senti por dentro. Mas mesmo assim sinto que existe um muro de pudor entre eu e as minhas filhas. Tal como os meus pais fizeram comigo, sexo é assunto que não é discutido cá em casa. Sinto que devia começar a falar com a mais velha. Mas não sei como abordar o assunto. Estava à espera que ela me desse uma deixa, que me fizesse perguntas. Mas ela nunca me falou nisso.

Como posso abordar os temas da masturbação e do sexo com ela sem ferir a susceptibilidade dos seus escassos anos? Ela já sabe a mecânica da reprodução humana. Mas duvido que lhe tenham falado sobre a outra parte que é muito maior. Como falar-lhe sobre o prazer que se pode ter com e dar a outra pessoa? Como falar-lhe do prazer que ela pode ter em solitário?

Não faço a mínima ideia por onde hei-de começar…

21.10.05

curiosidade

Não sei que idade teria, talvez uns 5, 6 anos, quando a Isabelinha vinha a nossa casa. A Isabelinha era nossa amiga e era muito marota. Ensinou-nos uma brincadeira passada no hospital, em que uma fazia de doente, outra de médica e a terceira de enfermeira. Curiosamente, todos os diagnósticos passavam por uma minuciosa análise do pipi e uma cuidada inspecção do ânus, alternando doutas apreciações e risota.
Não me lembro de ter particular interesse pelo sexo oposto, exceptuando uma vez em que espreitei o meu pai antes de entrar para o banho, tinha eu três anos. A minha mãe apanhou-me em flagrante delito, de cabeça virada para baixo, a espreitar pelas frestas de ventilação – numa altura em que ainda se usavam esquentadores dentro da casa de banho. Levei três palmadas no rabo e creio que foi a punição e a sensação de injustiça perante uma curiosidade que eu considerava legítima, que fixaram na minha memória a imagem do meu pai completamente nu.
As pilinhas dos meninos da minha idade interessavam-nos pouco; pelo menos não o manifestavamos abertamente. Lembro-me que eram por vezes, se vistas de relance, alvo de alguma chacota.
Mas o nosso corpo – o nosso corpo nós inspeccionávamos, comparávamos, espreitando-nos umas às outras e esclarecendo as diferenças observadas durante o exame geral. Nessa fase, no entanto, recordo-me de que o papel mais desejado era o de médica, o que indica, talvez, que poder observar, até ali, se revestia de maior interesse do que ser tocada.
Foi pouco tempo depois que comecei a explorar de um modo consciente o prazer que mexer no meu corpo provocava.
É natural que a masturbação feminina seja pouco discutida. Na minha adolescência, revistas pornográficas debaixo do colchão de um rapaz eram vistas com complacência, enquanto numa rapariga um meneio de ancas mais atrevido, mesmo que inconsciente, suscitava as mais duras críticas maternas. Os rapazes masturbavam-se em grupo. Sendo um acto testemunhado, tornava-se quase oficial. As raparigas faziam-no em privado, muitas vezes com a certeza, só perdida muitos anos mais tarde, de que estavam a fazer qualquer coisa de aberrante, seguramente uma grande porcaria.
Talvez, nesse tempo, se me tivessem perguntado se mexia no meu corpo eu tivesse respondido com uma mentira. Talvez todas as raparigas o façam sem saber que não são as únicas. Eu, pelo menos, não sabia.

Há coisa de um ano

E, quando morarmos juntos, quero aprender a fazer umas coisas na cozinha e vamos dividir as tarefas, porque não quero que sejas tu a fazer tudo.

AH AH AH, só me rio.

P.S. - Não me rio por ele ter dito, rio-me por eu ter acreditado.

P.S.2 - Acho que alguém que vai ficar muito aborrecido com este post...

Toque

Sou a favor de que no nosso corpo quem manda somos nós e, na intimidade, podemos e devemos fazer com ele tudo o que bem entendermos, quer sozinhos, quer acompanhados. Uma coisa que sempre me fez impressão, foi chegar aí aos vinte e tal anos e perceber que muitas mulheres que conhecia, sem serem virgens já há muito tempo, nunca ou quase nunca se tinham tocado. Claro, que isso não é coisa que se ande para aí a bradar aos céus e por isso sempre assumi, que tal como eu, todas elas se tocariam normalmente, quer na descoberta do seu próprio corpo, quer na busca de um prazer, que apesar de ser menos completo, existe e satisfaz.

Fiquei mesmo chocada, quando numa acção de formação para dar educação sexual a adolescentes, se fez um inquérito totalmente anónimo e, os resultados eram abissais. Numa população escolar de vários níveis sociais, com idades compreendidas entre os 14 e os 17 anos, todos os rapazes assinalaram que já se tinham masturbado, enquanto apenas dois por cento das raparigas o admitiam ter feito e, só um por cento da totalidade do do universo feminino o fazia com alguma frequência. No entanto, quase sessenta por cento delas já tinham tido relações sexuais, tinham feito sexo oral e, uma percentagem delas, que já não me lembro bem mas era superior à da masturbação, tinham também experimentado sexo anal.

As diferenças corporais, acredito que são determinantes para que a totalidade dos rapazes o faça. Perante uma erecção, deve haver muito pouco a fazer, senão deitar-lhe imediatamente a mão e seguir para bingo. Mas, em relação às mulheres, a falta de interesse aparente pelo seu próprio corpo, não se pode basear apenas na falta de uma erecção visível e na educação, que será a explicação mais óbvia e neste caso também, mais à mão; até porque por experiência própria, venho de uma famíla em que não se falava de sexo e em que por exemplo, a minha mãe acedeu a comprar-me primeiro um maço de tabaco do que uma caixa de tampões, que já usava desde os meus onze anos.

Olho para trás e percebo hoje, que quanto mais me toco ou quanto mais me tocam, continuadamente, mais prazer sou capaz de sentir, que há uma espécie de memória sensorial cumulativa que o corpo adquire e, o prazer parte sempre do fim da última sensação, como um jogo que se deixou a meio.

Pergunto-me às vezes, que se houver mesmo um nível destes de abstenção por parte das mulheres, quer em relação à masturbação, quer ao conhecimento do seu corpo, que quantidade (leia-se qualidade) de prazer não estarão a perder.

o teste

Eu uma altura andava com muitas dúvidas sobre o tamanho. Uma amiga mais experiente (que já tinha visto uma de relance num filme) disse que achava que o diâmetro era mais ou menos o de um pacote de bolacha maria. Outra com o mesmo nível de experiência inclinava-se mais para um pacote de bolachas de água e sal. Eu que já sabia de diversos usos para lhes dar achei que era fácil esclarecer essa dúvida: tentei meter um exemplar de cada pacote na boca e verifiquei que o de bolacha maria não cabia, pelo que foi aprovado por unanimidade que água e sal estaria correcto.
Nenhuma de nós se casou...

E para o fim de semana......BEYONCE

Vá lá pôr o vestido curto com o sapato de salto alto e toca a dançar:

Got me lookin so crazy right now
Your love's got me lookin so crazy right now
(your love)
Got me lookin so crazy right now your touch's
Got me lookin so crazy right now
(your touch)
Got me hoping you page me right now your kiss's
Got me hoping you save me right now
Lookin so crazy your love's got me lookin
Got me lookin so crazy your love

Que insistência. Que obsessão. Caramba, só falam disto

A primeira fantasia sexual de que me lembro, tinha eu 11 anos e incluía dois trapezistas. Eu, já se vê, era aquela menina flexível, trajada de tules e lantejoulas, que fazia uns contorcionismos e andava na corda bamba.
Desde cêdo muito interessada no assunto, demorou tanto tempo a chegar o dia em que me livrei da maldita virgindade, que nessa gloriosa ocasião já conhecia em pormenor a anatomia masculina, provavelmente melhor do que muitos machos adultos. Teoricamente, é claro. Sabia tudo: o escroto, a uretra, a glande, as vesículas seminais, o funcionamento da coisa. Não estava mesmo preparada era para o tamanho da peça. Essa parte é que me assustou.
No decorrer da minha existência enquanto ser sexual - refiro-me áquela altura em que ainda estava no activo - fui tendo uma fantasia ou outra, mas não voltei a ter fantasias recorrentes, nem impraticáveis ( os trapezistas talvez arranjasse, agora eu em cima da corda bamba...). Nem voltei a ter sonhos molhados. E, felizmente, também não voltou a acontecer-me, nunca mais, o reverso da fantasia, que me acordava a gritar e com suores frios: pesadelos eróticos com a minha sogra.

Mas cá para mim foi uma perda sim!

Por muito banal que a palavra "perda" seja no contexto da virgindade eu senti que perdi alguma coisa naquela noite em que isso aconteceu (e não estou a pensar no juízo que isso todos perdemos em determinadas alturas da nossa vida).

Eu perdi sangue... houve alguma coisa que estava lá antes e que deixou de estar lá depois. A virgindade de uma mulher comprova-se fisicamente. Mesmo que ela a possa perder de formas tão banais como sejam a intrusão de tampões ou de outros quaisquer objectos que de humanos não tem nada.

O que é certo é que para qualquer mulher há sempre um antes e um depois. Talvez nos homens essa diferença não exista porque ejacularem para o ar ou efectivamente o fazerem para dentro de uma mulher em termos físicos não representa diferença nenhuma (e muito menos "perda" nenhuma… o que se "perde" num caso será equivalente ao que se "perde" no outro… diria eu que de homens não percebo nada!).

Ó que queridos! (3)

A quantidade de pessoas giras, simpáticas e de inteligência bastante acima da média que existem! Imensos obrigadas nossos com beijos e abraços para a fabulosas Vieira do Mar, Diane, Margarida, Zu e Ângela e para os amabilíssimos Cap, PiresF, O Silva, Xupacabras, Animal, Delfim e Bruno Sena Martins (considerações muito giras sobre a perda da virgindade).

Eu juro que fui eu que disse isto

Olha, minha querida*, eu não cultivo amizades como quem cultiva raminhos de salsa, está bem?

*Onde está itálico sinta-se o tamanho da ironia.

ADENDA

Ena pá, tanto comentário acerca da senhora que me dá uma ajuda lá em casa!
Ontem foi dia. De lá ir a casa.
E tal e tal, que vou limpar aqui o tecto com lixivia e a menina não tem lixivia e tal e tal...

Esteve lá toda a manhã.
Cheguei a casa às seis da tarde e o cheiro a gás era indiscritível. Reparei depois que provinha do fogão, onde um bico apagado debitava butano.
A chave dela estava na porta, DO LADO DE FORA. (não é um apartamento)
E o chão de madeira estava todo manchado por ter sido limpo, provavelmente, com uma esfregona ensopada em sabe-se lá o quê. (No meu tempo limpava-se o chão de joelhos e pano de lã)

Fez o que lhe mandei - cozinhou e limpou a casa.
O resto serão detalhes ou queixo-me ao sindicato?

(tudo verdade)

Ooops...I did it again!

Não querida, não era esse...o dos olhos rasgados era aquele que fodia com ar de tarado e se vinha em 5 minutos. Um horror!

Se só pensamos em sexo?

Não. Não pensamos só em sexo: uma pessoa também não passa a vida a pensar nos braços e nas pernas e nos dedos dos pés; é uma coisa sempre presente. :P

Insónia

Há uma que é esta gaja chamada 'sónia que não é minha amiga nem de ninguém.
Mas que de vez em quando vem visitar-me, especialmente nos dias em que eu posso e quero dormir. O' 'sónia desgraçada que me queres tanto mal! Não me deixas sossegar e só me sussurras ao ouvido todas as asneiradas que fiz hoje e ontem e no dia antes e já agora no anterior a esse. E ainda te ris das asneiradas que sabes que vou fazer amanhã também!

O' minha grande filha da outra senhora… que isto por enquanto é um sítio decente e não dá para a gente desatar já aos palavrões ainda mal começamos… porque não vais tomar ali um cafezinho com aqueles parezinhos que por ali se andam a passear à beira mar? Esses até se devem deliciar com a tua companhia!

Quando não posso dormir não durmo.
Quando posso dormir… a 'sónia não me deixa!

Miséria de vida esta e mais esta gaja mal amanhada que arranjei para me fazer companhia nesta noite solitária e malfadada!

20.10.05

Vestiários de mulheres (Provadores de mulheres?? ?)

Estive na Zara e verifiquei que agora só pode entar uma pessoa para cada um dos provadores. Confesso que é uma medida acertada.Eu própria cheguei a meter lá a minha mãe e o meu marido para darem opiniões.(Fica bem? Acham que leve? Não tenho nada para pôr com isto. Não podes oferecer a saia, não?) Mas havia por lá outras mães, irmãs, amigas e namorados.
Uma pessoa saía lá detrás da cortina na maior humulhação, com os fechos a rebentar ou os botões sem fechar, fula da vida com os números que não batiam certos, e dava de caras com um sujeito de guarda a uma outra cortina, a olhar para nós com ar de quem não está a ver.
Aquilo era mais tipo balneário de ginásio mas de mulheres semi-despidas ou de tshirt às flores com saias de xadrez e casacos às risquinhas, com o chão soterrado por calças 36, saias 40, blusas M e casacos L.
Terá havido queixas? Cenas? Não basta o que se transpira e o cheiro de transpiração das outras e ainda tinhamos que levar com rapazolas em transe a olhar para as calças com alfinetes.
- Ó menina, por favor chama a sua colega da secção clássicos?
- Em que nome fica o arranjo? Krassimira Chun Lao.

Desconversar

Ela - Gostas mais de me ver com a camisa branca ou com a verde?
Ele - Sem.

Eles e elas

Tenho visto em alguns blogs de homens o comentário de: "ah e tal vão à sociedade anónima para verem do que falam as mulheres na sua intimidade". Ora para os curiosos aqui fica o esclarecimento:

Eles falam de gajas Elas falam de gajos.

Eles comentam o tamanho das mamas. Elas comentam o tamanho das pilas.

Eles comparam o tamanho das pilas no balneário. Elas comparam o tamanho das mamas no balneário.

Eles preocupam-se com o tamanho das suas pilas. Elas preocupam-se com o tamanho das pilas deles.

Eles comentam a noite de sexo. Elas comentam a noite de sexo.

Eles dizem que a comeram. Elas dizem que o comeram.

Eles acham que a usaram. Elas sabem que o usaram.

Eles dizem: Xiiii, olha-me aquela boazona!!! Elas dizem: Xiiii, olha-me aquela pindérica com a mania que é boa!!!

Eles falam de sexo. Elas falam de sexo.

Eles falam de futebol. Elas falam de sexo.

Eles falam de carros. Elas falam de sexo.

Eu juro que nunca disse isto!

Sim, sim...era giro, inteligente e rico mas, aiiiii que queriam?...tão pequenino!? Oh céus, que desperdííício!

Desvairada segadita desvirada da escrita.

Pinto as unhas, aquele instrumento em esponja côr-de-salmão desatina-me, desata-me os dedos dos pés: uma gata em meias de lã, enquanto o verniz não seca. Pezinhos de lã agora, unhas de vidro depois: à espera de lombo.

A senhora que me dá uma ajuda lá em casa

É uma expressão que me tira do sério

Eu, na minha casa, tenho uma empregada
Ou seja, eu sou a patroa, ela é a empregada. Eu dou as ordens, ela cumpre, eu pago.
Não há cá

A rapariga que nos dá uma ajuda
A fulana de tal
A dona não sei quantas


É a empregada e pronto.

(Eu também sou empregada do meu patrão. Ele é o patrão, eu sou a empregada. Não sou a senhora que lhe dá uma ajuda, sou a fulana que faz o que lhe mandam.)

lentidão

dos pequenos gestos, que lia como se tivesse uma lente de aumentar, gostava do sorriso imperceptível que deixava ver nele um dente ligeiramente partido. o pequeno músculo da face no qual ancorava, nesse mesmo sorriso, uma covinha desmanchadora do porte tão adulto dos cinquenta e poucos anos dele. a mescla da inocência perdida do que sabe desse homem transformou-se numa ideia de pureza passível de ser encontrada na paz transitória desses momentos. viciada nesses discretos instantes, reunia monumentos ínfimos de uma história lenta e erodida, não fossem tais imagens, extra-textos essenciais, de uma perenidade não serena.

Ó que queridos! (2)

Mais agradecimentos pelas simpáticas palavras e referências que pessoas inteligentes e de extremo bom gosto tiveram a amabilidade de dirigir a este tasco blog; beijos e abraços ao Nelson Santos, Ana Gomes Ferreira, Ruiva, Luna, Miss Pearls, Caiê, J.A., Rosa Carne, Blasfémias, Abnose, Carlos Alves, Piotr Kropotkine, pbeldade, PN, O Mundo Perfeito, JoanicaPuff, José Carlos Abrantes, Ana G., HFR, Zero, Ruiiiii, Papo-Seco, Carlos Lopes e Miuda da 4L.

As mulheres da minha família


Eu ainda sou do tempo em que se agitava a famosa bandeira «on de naît pas femme: on le devient» e tive em minha casa e na minha família modelos para todos os gostos.
Se queria chegar a uma mulher “feminina” no sentido mais tradicional tinha que subir na árvore genealógica até à avó. UMA das avós, atenção. A outra era uma rebelde! Mas a minha avó paterna era um modelo. Tudo o que fazia era perfeito! Metia-me alguma raiva, como se pode imaginar porque a perfeição é irritante. Mas aquela senhora podia ter ganho um prémio da dona de casa modelo. Costurava, cozinhava, geria as finanças domésticas com economia, arrumava, limpava, e aceitava o seu lugar secundário dentro da hierarquia doméstica sendo a primazia do marido. Dizia-me com orgulho que só tinha dado um beijo na boca ao meu avô depois de casada. Porque era uma senhora muito decente, e sempre me quis convencer que o sexo era para procriar, mas de resto era uma porcaria. Tinha de ser porque os homens gostavam, mas era melhor não se falar disso.
A avó rebelde era o oposto. Esta, acho eu que era perfeita, mas a pensar. Uma fonte de ternura e meiguice, razoável dona de casa mas sem se ralar lá muito com isso, nessa altura havia criadas e elas que se ralassem, lia muito, sabia música, adorava conviver, e era um espírito muito aberto. Tinha muitas amigas, conversava, saía, tinha opiniões fundamentadas. Escuso de acrescentar que eu adorava esta avó…
E depois a minha mãe. Uma intelectual. Naquela altura tinha de se saber um mínimo do governo de casa, mas ela sabia mesmo apenas o tal “mínimo”. Trabalhava de igual para igual com o meu pai ( até talvez mais, e talvez ganhasse mais) e as questões domésticas eram totalmente secundárias. Quando eu era pequenina vivia lá uma tia-avó que se encarregava dessas coisas. Contudo, curiosamente, com esta autonomia e autoconfiança que a minha mãe tinha, eu sempre senti que quem “mandava” era o meu pai. É claro que as coisas eram discutidas entre os dois, e procurava-se um acordo, mas… a palavra final era a do homem.
Com isto tudo queria explicar que me foi difícil escolher um modelo de identificação. Fiquei assim a modos que um patchwork: gostava de ter a sensibilidade da avó materna, as capacidades intelectuais da minha mãe, ser cordon bleu como a avó paterna. Uma confusão. Pronto, fiquei assim, como sou. Olhem, podia ser pior!

A história da sereia e do lamento

Todos os dias passava ali à beira do mar. Ficava apenas a olhar à procura de algo que me pudesse acalmar. Sentia tais tormentas e infernos interiores que precisava daquela brisa que me vinha acariciar quando fechava os olhos ali à beira do mar. De onde me vinham tantas lágrimas num fluxo que teimava em não acabar? Num desses dias ouvi um lamento, um cântico suave mas tão triste e profundo como se alguém ali me quisesse acompanhar na tristeza e na dor do vazio que fica quando se deixa de saber amar.

Olhei bem para a beira do mar e ali a encontrei a chorar e a cantar. Era uma pequena sereia tão transparente que quase se confundia com a areia. Olhei-a bem dentro dos olhos de água e sal e perguntei-lhe porque se lamentava assim. Ela olhou com carinho para mim e contou-me a história de um ser encantado que um dia a tinha raptado. De corpo e alma a manteve cativa até que um dia dela se fartou. Disse-lhe que a libertava e soltou-a no mar alto bem longe de onde tanto se tinham amado. "Agora vai e nunca mais voltes"…

Mas a sereia já não sabia o que era ser só um quando já tinha sido dois. E agora vagueava de mar em mar, deixava-se ir ao sabor das ondas sempre à procura daquele ente querido. Perguntava a todos os seres de todos os rios e mares se sabiam onde ele se teria metido. Perguntou-me a mim se o tinha visto por ali. Com pesar lhe confessei que nunca tal criatura houvera visto. E mesmo que por ali tivesse passado eu não teria notado. Estivera sempre ali de olhos fechados.

Desatou num pranto desesperado e eu cheguei-me mais para ao pé dela. Dois desconfortos juntos que somados se tornaram num ainda maior. Ficamos ali todo o dia em sintonia a chorar pelo nosso coração ferido. Nesse dia o seu lamento suave soou ainda mais triste e dorido. E nesse dia a pequena sereia e eu criamos um novo lamento ao amor perdido. Que só à beira do mar e de olhos fechados pode ser entendido.

19.10.05

Há vidas assim

"Voltas? Voltas um dia?" Sabia que não, mas ainda assim queria ouvir a voz dele. "Quem sabe?" Ela sabia. Ele sabia. Sabiam todos. Viu-o partir, casar de novo, uma nova família. Esteve anos a fio com o ouvido na porta para o ouvir chegar. Acho que agora já não espera por ele, mas não espera por mais ninguém.

branco

respirou fundo, assim que fechou a porta.
não sabia o que ia acontecer no dia seguinte. se ficaria feliz à espera de um telefonema que a ligasse à realidade que a porta encerrou, ou se desejaria ardentemente que aquele número de telefone não tocasse. naquele momento, apenas lhe apetecia fechar os olhos, ou olhar-se no espelho para não se reconhecer. para finalmente encarar nos seus próprios olhos reflectidos, que deixara por instantes de controlar um breve e tão simples momento dos seus dias previsíveis.

Perto

Nunca quis ter um grande amor. Tudo o que é grande assusta-me, na realidade; talvez porque seja um pouco descontrolada por natureza, talvez porque a soma de dois descontroles seja exactamente o oposto, uma coisa demasiado certa para mim, ou um desperdício imenso porque não o saberia aproveitar.

Sempre senti que os espaços vazios, aqueles que não se notam quando se tem um grande amor, são aqueles de que realmente gosto. Gosto do amor aos pedaços, dividido em inúmeras sensações que não se podem ligar imediatamente. Como uma romã, em que cada bago por si tem um sabor diferente, um só bago não nos chega e queremos sempre mais, queremos todos os bagos, comidos um a um, pois só em conjunto, desfeitos lentamente na boca completam o sabor do fruto.

Para mim amor é homem, antes de mais, antes do sentimento que o envolve e, como tal, tenho um modelo ideal na cabeça, como acho que todas as pessoas devem ter um mas, acabo por encontrar aquilo que mais quero, numa forma nada idealizada. Separada, dividida, enlevada em partes.

Gosto da cor dos olhos e do olhar inquieto, gosto do cabelo sempre certo, gosto daquelas mãos e dos gestos que as compõem, gosto das orelhas grandes e de senti-las frias a passarem pelo interior dos meus braços, gosto das pernas não muito esguias e peludas que se entrelaçam nas minhas, adoro a barriga e o cheiro da pele quando me afundo nela -sempre quente, gosto do peito que se faz ao meu tamanho quando nele me aninho, gosto do tamanho dos braços e da segurança que me dão, gosto do nariz, dos lábios molhados que me sabem a doce e me sorriem sem temor, gosto daquele rabo abanicado, dentro e fora das calças. Todas as parte são perfeitas, na sua função, no meu olhar pequeno, no conforto e no desejo que me despertam.

Um grande homem, tal como um grande amor, podem apenas ser vistos ao longe e, eu, eu gosto de estar perto.

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