14.1.06

A culpa e a certeza

No princípio dos anos 90 fui ver, com o meu pai, um filme do realizador Costa-Gravas, O Enigma da Caixa de Música.
Quer dizer, fui deliberadamente repeti-lo com o meu pai. Era importanto que o visse com ele, porque, a certa altura, a relação pai-filha do filme assombra-se pela revelação do passado paterno, ao qual a investigação feita pela filha-Jessica Lange, descobria as piores ligações criminosas.


Queria que o meu pai pensasse nos crimes praticados pelo protagonista-pai, e nos sentimentos experimentados pela filha perante a descoberta da terrível realidade.
Quis levá-lo porque, entre mim e o meu pai, havia também um filha que tinha coisas por dizer, nunca ditas, que não podiam sê-lo. E ele poderia encontrar-se, finalmente, e perceber, finalmente. Eu desejava que a minha mensagem lhe chegasse através do filme.
Mas não aconteceu. Gostou do enredo, do suspense, mas, no final, a decisão que a filha tomara ao denunciar o pai, era, na sua opinião, errada. Devia ter compreedido e perdoado as suas actividades. Por ser seu pai. Em nome do sangue. Do amor.
Eu e o meu pai não tínhamos a mesma visão do mundo.
Perdoei-lhe? Nesta fase, sim, perdoei. Mas ele foi culpado.
Tê-lo-ia denunciado? Creio que não. Tê-lo-ia protegido como sempre fiz.
O meu pai precisou de morrer para eu pudesse denunciá-lo.
Odiá-lo, e amá-lo de novo, como se nascesse virgem nos meus braços.

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