28.3.06

and now...for something completely different

A verdade é que papo tudo o que me cheire a bebecêvidaselvagem, talvez como forma de aplacar a minha má consciência de refastelada suburbana. Mesmo agorinha, foi um programa sobre os crocodilos porosus (acho que é assim) australianos, que comecei a ver achando que ia encher o papinho com lutas de machos gigantes nos pântanos, manobras eróticas de acasalamento nos taludes e aconchegos maternos a crias recém-eclodidas. Estava eu, portanto, à espera de aprender qualquer coisa sobre o alegre espojanço das criaturas no seu habitat natural. Qual quê.

A tese começa a delinear-se desde o princípio, sob a forma de uma trapalhona tentativa de lavagem ao cérebro do espectador: que é a criação controlada com vista ao comércio de bens de luxo que permite a sobrevivência dos bichinhos, coitadinhos e que, se não fosse a generosidade, o bom-gosto e a consciência ambiental das novas ricas parolas provenientes dos guetos, que povoam os clips da MTV , os desgraçados não teriam qualquer hipótese. Para que conste, sim!, marcas como a Hermés e a Dior têm feito de tudo e mais alguma coisa pela conservação desta espécie ameaçada (momento da lágrima no canto do olho...nem que seja de crocodilo).

Os caçadores australianos - uns labregos das quintas - são tão bonzinhos, mas tão bonzinhos, que só apanham cinquenta por cento dos ovos enterrados, o que (dizem eles) dá aos que por lá ficam maior probabilidades de sobrevivência porque não têm que competir com a metade que eles carregam para casa. Já esta, caridosamente resgatada pelos meninos de coro em questão, como é posta em chocadeiras aquecidas e depois os bebezinhos são colocados em provetas onde mal se podem mexer e através das quais são alimentados até serem crescidinhos, também exibe, claro está, uma maior ratio de sobrevivência. Uma outra coisa boa, diz-nos o narrador, é que, como estes caçadores são remunerados, não caçam furtivamente. Genial, a distorção demagógica do raciocínio.

Fico ainda a saber que cada peça exportada (para França, claro) tem de ter um certificado de uma organização de controlo governamental, a CITES, pelo que tudo corre sempre dentro da legalidade e no melhor dos mundos. Parece, no entanto, que o recrudescer deste tipo de comércio não terá contribuído para aplacar os medos ancestrais da população em relação aos mauzões dos crocodilos (que afinal são tão queridos que dão para valises e manolos blahniks), que tem que de aprender a respeitar o animal e a ultrapassar esses medos: e é aqui que entram essas magníficas instituições nada castradoras e claustrofóbicas que são os jardins zoológicos, que aproximam o crocodilo das pessoas.

Ficamos, portanto, a saber que os caçadores australianos que se aventuram noite adentro para roubarem os ovos postos nos pântanos, os artesãos que os matam e lhes curtem as peles e os reptilários de seis metros quadrados ou menos dos zoos (afinal, os gajos são répteis, mexem-se pouco, não precisam de espaço), os governos australiano e francês, as bichas paneleiras das casas de alta costura em geral e as novas ricas labregóides em especial, são os maiores amiguinhos que estes animais poderiam ter, cutchi cutchi dá cá bjinho. É reconfortante saber que a Natureza está nas mãos de gente tão sensível.

Aaaah... pois, olhem, eu sou gaja e gosto muito de coisas de griffe, a sério: não desdenho um lencinho de seda Hermès (embora reste saber o que farão os pouco piedosos chineses aos pobres dos bichos-da-seda, com o alto patrocínio das potências ocidentais) ou um topzinho assinado Galliano mas às vezes dão-se-me assim uns ensejos anarco-fanáticos de ir Faubourg Saint-Honoré acima e largar uns coiso-bombas, porta sim, porta não. Assumam mas é que criam e matam a porra dos bichos por dinheiro (um centímetro de pele equivale a vinte e quatro dólares), ó governos de merda!, mas querem fazer o favor de não nos tomarem a nós - aos milhões que vos acham uma cambada de hipócritas venais -, por parvos?

Pronto, já desabafei (porque isto uma gaja não é só gajos).

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