5.4.06

os blogues de engate

E eis que aqui a vossa amiga chaina volta ao ataque com uma dissertação de consistência filosófico-antropológica sobre essa realidade fascinante que são os tcharaaan!, blogues de engate. Sim, vou falar-vos da estirpe de machos (e fêmeas, e fêmeas, mas os machos interessam-me mais!) que anda blogoesfera fora em afanosas manobras de sedução. E são as seguintes, as conclusões da minha pesquisa alargada (isto é um lençol, depois não digam que não avisei!):

O estilo.
O gajo do engate aposta muito na prosa poética, um valor seguro: com poesia tout court arriscar-se-ia a passar por totó, pois é muito fácil, mesmo para as leigas, constatarmos a mediocridade de um poema de dez sílabas: é aquele que nos dá vontade de rir. A prosa poética disfarça mais e melhor, pois permite ser-se medíocre sem se dar tanta bandeira. Por princípio, só os gajos completamente passados dos carretos se atrevem à poesia pura e dura no blogue - mas esses, por acaso e estranhamente, até facturam, e bem: as gajas gostam do atrevimento de uma alma de poeta que lhes mostre as vísceras moídas - uma coisa assim tipo ary dos santos mas sem a parte da bicha histérica.

O gajo do engate pode, por outro lado, limitar-se a fazer rir as gajas a bandeiras despregadas com a sua estupidez ou inteligência, independentemente do estilo. Estes são os que não precisam de mais nada, pois as gajas abrem-lhes logo as perninhas (consta que tem a ver com a libertação de endorfinas: a associação sexo/riso não é por acaso) e são eles os melhores conhecedores do género feminino. Ou seja, papam-nas todas em fila (embora sejam mais raros de encontrar que agulha no palheiro da sociedade equestre portuguesa).

A linha.
A linha editorial do gajo do engate assenta na exploração ad nauseum do amor insatisfeito: a ideia de que duas almas gémeas sofrem do mal do desencontro neste limbo urbano que é o nosso, num registo tipo lobo-antunes-do-paleolítico-inferior (mas sem alferes), é absolutamente irresistível para a sopeira chorosa que toda e qualquer gaja guarda dentro de si. Os posts que usualmente brotam da imaginação de um gajo destes são a dar para o abstracto, tipo norma em branco, por forma a que cada uma das gajas-leitoras se reveja naquilo, à sua própria luz: um blogue de engate cultiva a abrangência místico-temática, questão a que voltarei.

O design.
Convém que um blogue de engate tenha uma ambiência a dar ares de sóbrio-gótico-depressivo. Vai daí que os templates tendam a ser brancos ou pretos e sem grandes mariquices pictóricas, não vão as gajas questionar-lhes a virilidade e o bom-gosto. A única coisa em que um gajo destes concede, é nas fotos. Pensando melhor, blogue de engate que se preze tem que ter fotos! Porque, ou se é um ganda maluco que manda bojardas em poesia ou prosa (v. supra, em estilo) e se está cagando para a estética (que também os há e a facturarem bem!) ou há que enfeitar um bocadinho a coisa a modos que para disfarçar a falta de génio. Até porque (lá está!) não há gaja que resista ao reflexo da lua nova no olho da gaivota. Para além de que uma fotozinha ajudar a criar a aura de gajo-national-geographic: um macho sensível de tele-objectiva às costas e barba de 3 dias. As gajas gostam disso (no fundo, há momentos em que as gajas gostam de quase tudo, basta sentirem-se sozinhas).

A ambiência, portanto, tem que ser assim um bocadinho a atirar para o neurótico-desamparado, a fim de despertar nas gajas aquela coisa da protecção dos mais fracos, ou seja, o sentido do resgate. E é fácil, convenhamos, porque o instinto maternal é coisa tão inata numa gaja que faz com que esta, quando sem filhos, dê em maluca a embalar nenucos, cães ou gatos, e tenha desejos súbitos de sentar outras pessoas no seu colo, catar-lhes piolhos e, basicamente, infernizar-lhes a existência. Logo, nada melhor para atrair a atenção e o regaço de uma gaja, do que apelar-lhe ao consolo; uma gaja saudável é uma verdadeira máquina de consolar: traz incorporadas doses inesgotáveis de amarfanhanços implacáveis dentro de si.

O modus operandi.
Temos, então, o gajo a despejar umas figuras de estilo bonitas e a gaja lá caída, a sorver aquilo tudo, o pito aos saltinhos. Tarda nada e já está a suspirar durante a hora coca-cola light, ah!... se aquilo ao menos fosse para mim... Excitada ante a possibilidade, deixa um comentário espirituoso a dar-se a conhecer, que entende muito bem, também já passou por isso, um beijinho e tal... A não haver caixa de comentários, serve o mail.

O gajo, entretanto, tratou de se assegurar, junto do namorado da prima de um conhecido de um amigo que tem blogue e vai a jantares (isto é um penico, senhores!) que a gaja não é nenhum camafeu com quem se envergonhe de ser visto na rua e dá-lhe, subtilmente, trela, a par com o número do telemóvel. Aqui chegados, um parentesis: convém que a faixa etária de ambos seja mais ou menos idêntica, para facilitar a identificação nostálgica e os temas de conversa (lembras-te do calimero, quando éramos miúdos? E a abelha maia? opá, e os festivais rtp da canção, isso é que era, os festivais...) .

A coisa rotiniza-se: ele escreve, ela comenta ou emeila, e se ela também tiver blogue é muito mais fácil, porque ele faz a mesma coisa: durante umas semanas, esfregam-se mutuamente os egos como palhetas ao sol e a coisa pega fogo que é um tiro. Depois vem a fase do enamoramento e o gajo já a ver-se a facturar, embora saiba que tem de ter calma: antes de lhe mostrar que a acha boa, tem de lhe dizer muitas vezes que a acha esperta e fascinante e única, uma Simone, uma Sophia, um Pessoa de saias! Convém também que o gajo mitigue o entusiasmo com alguma apreensão, tipo, meu deus o que estamos a fazer, onde isto irá parar? Todas as gajas gostam de se sentir um pedaço de mau caminho: não há nada que nos dê tanta vontade de fazermos disparates como alguém achar-nos tão irresistivelmente podres de boas que até fica agoniado. Sabermos que nos sobrepusemos a outra qualquer dentro da cabeça de um gajo, assim como uma camadinha fresca de massa folhada, é meio caminho andado para ele nos facturar, olareolaseé.

Ele, por sua vez, vai avançando com um elogio entusiasmado para logo a seguir recuar, deixando a gaja maluca de tanta curiosidade - porque esta coisa do virtual é gira e tal, mas às tantas a gaja quer é saber se o gajo é estrábico, anão ou cheira mal da boca. Cai então na conversa do café ou do copo e pronto, já está: o que quer que aconteça depois, o gajo já facturou (o que quer que aconteça, porque nem todos os blogues de engate têm como fim uma boa foda: muitos, vêm-se logo nos preliminares e, alguns, até, engatam só para fazer amigos e amigas ou para aumentarem a lista telefónica... juro!).

É claro que um gajo destes passa rapidamente para outra, uma vez saboreada a presa. O que lhe dá gozo é a caça, é sentir-se o caçador (odeia sentir-se encurralado!), pelo que, na noite seguinte, mais um post e já nova gaja em perspectiva, espera lá que há que há aqui uma que um dia destes me disse que... xacá adicioná-la ao Gtalk ou ao messenger. O problema é que, tirando algumas boas amizades ou fodas com direito a fogo de artificio, que a espaços possam acontecer, um blogue de engate acaba por se reduzir a um blogue engatado, preso a um esquema repetitivo e até sórdido, que as gajas acabam por topar após se terem desbroncado umas com as outras (coisa que fazem com regularidade, diga-se).

Consequências.
Consequências? Está-se mesmo a ver: o gajo corre sérios riscos de acabar pendurado pelos tomates num tronco de árvore, como objecto de sacrifício, num daqueles rituais celtas no meio da floresta, onde muitas gajas nuas dão vivas à fertilidade e à sabedoria superior da deusa-mãe-natureza-gaja, enquanto dançam Madonna. O que, dado o pendor kinky do gajo, não será, necessariamente, mau para ele.

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