25.5.06

Do Festival Eurovisão da Canção, ou As Vozes da Libéria Cristina

Diga-se que a voz de Libéria Cristina não era só uma: eram várias, que foram reduzidas à unidade por jeitos narrativos e porque, na realidade, eram todas parecidas e insistiam basicamente no mesmo.


Assim, enquanto as vozes se acotovelavam no sofá do cérebro de Libéria Cristina a devorarem amendoins, colas e bjecas, defronte a um ecrã de tevê onde um robô-fémea musculado insistia ter perdido trinta quilos numa semana à conta de uma bracelete mágica, os apêndices corporais funcionavam-lhe numa deliberação mecânica e contabilizada ao milímetro.

Libéria abriu o seu saco avantajado de napa preta, retirou um pano tão imaculadamente branco que mais parecia uma coberta de altar, desdobrou-o em cima da cama, alisando-lhe amorosamente os vincos, e começou a dispôr-lhe em cima, com uma ordem em tudo idêntica à do universo, as suas ferramentas de trabalho.


A maior parte destas, Libéria Cristina havia-as surripiado do armário de parede que existia na única sala de operações do decrépito hospital distrital onde, em tempos, se abalançara a uns meses como auxiliar de limpeza, sem folgas nem recibos. As outras, conseguira-as pelas garagens da vizinhança, naquela semana em que se oferecera para trabalho comunitário pro bono na junta de freguesia, alegando um coração generoso e farto. Enquanto aparava relvados carecas e podava roseiras hostis, a nossa heroína ia aquietando as vozes na sua cabeça (que tendiam por vezes a comiciar-se, em ruidosas reivindicações de pendor sindical), que tivessem paciência, soubessem esperar e que não havia de faltar muito até a revolução sair às ruas e os soldados marcharem sobre a capital, reduzindo-a a pó à passagem dos seus exércitos de botas cardadas.

Ora o caro leitor, aí sossegadinho, nem imagina as potencialidades insuspeitas dos, por exemplo, utensílios de jardinagem: dos ancinhos, das tesouras de podar, dos cabos das pás, dos corta-sebes... Haja imaginação e vontade (coisas que a nossa Libéria-formiga vinha armazenando em quantidade desde a sua degenerada infância, para os invernos que se seguriam).

Adiante. Libéria começou então a retirar do saco e a dispôr sobre o pano branco, alinhadinhos como magalas em caserna para a inspecção matinal, um bisturi, três tesouras (uma de podar, outra, serrilhada, e uma terceira, de pontas retorcidas), várias agulhas de sutura (com linha!), dois serrotes de tamanhos diferentes, uma faca de trinchar, cinco seringas e as correlativas agulhas, uma chave philips pequena (furam melhor), uma bobine de fio de nylon tamanho 0.5 (que pensaríamos erradamemente para a pesca à cana), dois cabos de ancinho, uma pá pequena, um formão e uma mini-serra eléctrica.

Por fim, pegou com dois dedos num saco de plástico transparente que parecia conter uma trincha mergulhada em tinta vermelha. Lá dentro, no entanto, o que jazia era uma sachola ensanguentada, despojada do cabo numa solidão sinistra. Libéria elevou o saco à altura dos olhos e mirou-o com pormenor e interesse, como se estivesse a vê-lo pela primeira vez. Sem dar conta, lambeu com a ponta da língua o suor que lhe ameaçava os lábios.

A visão e o cheiro do sangue fresco, está-se mesmo a ver, escalou-lhe rapidamente as narinas até ao cérebro em repouso e agitou-lhe as tais das vozes, que se esqueceram da alienação televisa para logo começarem a gritar-lhe às paredes do cérebro, Tum! Tum! Tum!, instando-a a continuar e a ir mais longe, mais e mais e MAIS!.

Libéria tapou os ouvidos (como se as vozes não estivessem dentro dela!) e desatou a cantar o imortal êxito, Sobe, Sobe, Balão Sobe!, um ritual que praticava sempre que as vozes lhe surgiam inoportunas e ela tinha de lhes sobrepor a que lhe saía da garganta (e que era, no fundo, a única voz da razão que ainda subsistia nela). Às vezes, arriscava outras participações portuguesas no Eurofestival, mas nunca posteriores a 1990 - que até mesmo a Libéria Cristina, psicopata de berço engajada numa cruzada vingadora em nome das suas irmãs de cona, tinha os seus limites.

E foi assim que, aos gritos de Balão Soooooobe!, lálálálárálálá!, Libéria abafou a aleivosia homicida das suas vozes interiores que, resignadas, voltaram a encafuar-se no sofá da sua mente, lambuzando-se de gozo à visão de um reality show onde seres humanos eram cruelmente humilhados por outros.

Nesse exacto momento, o velho da recepção, um ex-alferes combatente na Guiné, de sua graça Capitão Camões Gancho (conhecido entre as meninas como o zarolho), um gordo acatarrado com bafo de dragão, batia violentamente na porta do quarto ao lado, gritando para que todos ouvissem que, ou a Sonja Karapova lhe pagava as diárias em atraso ou ia foder para o olho da rua.

Bem que pôde passar a agradecer todos os dias à Manuela Bravo, ao Eládio Clímaco e à RTP, o zarolho, sem saber que lhe faltara um bocadinho assim para ter sido a notícia de abertura do jornal da noite - ele e a chave philips subtraída de uma parede na garagem da vivenda Amares (lote 5, Rua 13), a um milímetro de ser cravada na sua sebosa nuca.

Era um altar, aquilo era um altar!, o que ele devia ter erigido sobre o balcão piolhoso da entrada da pensão; esse balcão para onde arrimava a barba de quinze dias e o triplo queixo em sestas ruidosas, das quais fazia modo de vida quando não estava a explorar as putas e as drogadas que iam e vinham em busca de um tecto descabocado.

Bom, mas retomemos a cena no quarto da Libéria: estávamos então numas águas furtadas escuras que davam para um saguão pejado de cagadelas centenárias de pombos e ratos, agora despojado dos ratos. E dos pombos também. Porquê? Bom, como sabemos, nesta altura já os ratos se puseram ao fresco, passaram palavra e deram origem a uma estória pararela a esta mas de maior dimensão bíblica, de tanto que se parece com o êxodo de Noé.

Migrações animais, no entanto, são ninharias que não importam a Libéria, uma rapariga asseada que, por isso mesmo e após a cantoria, se dirigiu ao bidé ferrugento ao lado da cama, lavou com desvelo a sachola, secou-a e botou-a junto com as restantes ferramentas. Por fim, após uma vista panorâmica que agradou ao seu pendor metódico, decidiu-se a tomar um banho. Aposto que o quarto do Jacinto Fagundes deve pelo menos ter banheira...

As vozes, entretidas com o choro na tevê de uma mulher enganada que não se sabe filmada, nem notaram que Libéria Cristina desceu as escadas, abriu a porta do quarto n.º 1 no 1º andar, que estava apenas encostada e que, evitando a enorme poça de sangue que se espraiara soalho fora, se dirigiu à casa-de-banho forrada a mofo, patchouly e alguns azulejos pombalinos partidos. Abriu a torneira da água quente, esperou que a banheira antiga de esmalte e pés de leão enchesse até meio e mergulhou, languidamente, serenamente. Ah! Hoje à noite tenho muito que fazer.

Era o sinal de que as vozes, refasteladas na sua ociosidade indolente, estavam à espera: saltaram do sofá e desataram a correr escadas da mente da Libéria Cristina abaixo, prontinhas e derramadinhas para lhe despertarem as sinapses assassinas.

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