17.5.06

os homens são toooodos iguais...

Ele há uma coisa que as gajas detestam, ainda mais do que dizerem-lhes que estão gordas, parecem mais velhas ou que o cartão não tem saldo: é um gajo virar-se para elas a meio de uma conversa (na qual, por exemplo, estão a falar mal de outra) e atalharem, de sorriso entre o idiota e o complacente: "Vocês, mulheres, são todas iguais!", após o que desata a enumerar os vícios que atribui ao género feminino e que nós sabemos só existirem nas outras - e nunca em nós nem nas nossas amigas.

Para além do primarismo óbvio da frase (é mais ou menos como dizer a um japonês, "Vocês, chineses, são todos iguais", só porque aquele também tem os olhos em bico), muitos homens não entendem que o facto de termos em comum a posse precária de uma vagina não nos transforma automaticamente numa irmandade histérica comandada a uma só voz, tipo fenómeno de massas, nem num conjunto de clones de mímica previsível, regidos em igual medida pela filhadaputice e pelos ciclos lunares. Muitos não percebem que, pontos de vista e pontos gês, nenhuma os tem e-xac-ta-men-te no mesmo sítio da do lado: o mulherio é uma grande molhada de latitudes e longitudes e de coordenadas descoordenadas.

A ideia peregrina subjacente à exclamação em causa pode ser uma de duas. A primeira, é a de que "Vocês, gajas, são todas, basicamente, umas cabras falsas, que só não se lixam mutuamente quando não podem".

Ora, lamento desiludir-vos, rapazes, mas isso não é verdade. Eu, por exemplo, que não sou totalmente estúpida, que até nem me acho um coiro por aí além e demonstro algum gosto no vestir (é claro que terão de aceitar a minha palavra quanto a isto), motivos mais do que suficientes para ser odiada, tenho muita gaja que vai à bola comigo - algumas são mesmo minhas amigas, juro!, e estariam dispostas a fazer sacrifícios por mim, tal como eu por elas. Espantoso, não é? É claro que terei aí uma boa meia dúzia que não me suporta, mas apenas porque cobiçam algo que eu tenho e que elas gostariam de ter - no que é uma dinâmica relacional comum ao género humano ( aliás, o glossário da história da humanidade, esta coisa da cobiça) e não específica do universo feminino.

Para algumas gajas, todas as outras que não as familiares ou amigas (e olha lá!), são potencialmente suas inimigas. Se não chover, vai fazer Sol. Graças aos cerebrozinhos hiperactivos com que foram dotadas, à pancada que foram levando pela vida e às frustrações que foram acumulando, conseguem prever todos os cenários possíveis de antagonismo feminil e detestar as outras com graus inusitados de rancor, mesmo sem alguma vez lhes terem dirigido a palavra. É claro que há homens que também detêm esta capacidade, mas esses, que me desculpem, são um bocado gajas (não há volta a dar-lhe). Tanto num caso como noutro, são uma minoria (sim, sou uma mulher de fé!).

A segunda ideia é a de que "Vocês são todas umas cabras manipuladoras que fazem de nós, homens, gato-sapato". E o que é que está errado neste pressuposto?, perguntam-me. Bom, let´s get one thing straight: não nos chateia por aí além que nos achem umas cabras dominadoras. Todas gostamos de elogios. O que nos irrita é que vejam a feiosa totó da vizinha de baixo igualmente capaz do mesmo grau de manipulação que nós próprias e, ainda por cima, com idênticos resultados (nisto, somos todas um bocadinho quase iguais, vá).

Na verdade, o ponto fraco onde a expressão nos toca reside essencialmente em nos acharmos (e sermos! e sermos!) únicas e absolutamente distintas das demais, inclusive da nossa irmã gémea verdadeira. Nós, gajas, somos sempre o grande amor da vida deles, a grande amiga delas, a filha (a sobrinha, a neta) favorita, a profissional insubstituível e a única mulher à face da terra capaz de guardar um segredo (que nem sob tortura confessamos - nem para efeitos de acreditação, como acontecia com os escravos romanos).

A prova de que uma gaja se crê genuinamente incomparável a outra, reside, por exemplo, na reacção típica que tem quando é traída: " Mas como é que ele me pode trocar a mim - a MIM, vejam bem! - por aquela loura mamalhuda com boca de chicharro?! " (o espanto é genuíno, notem).

Estranhamente, porém, os homens não se importam que nós digamos "Vocês, homens, são todos iguais", aliás, é para o lado que dormem melhor. Porque a questão, para eles, não é qualitativa mas quantitativa, define-se na vertical, não na horizontal. Os homens não querem saber de terem ou não os mesmos vícios ou defeitos que os outros, querem é ser melhores, aka ter mais: sacar mais gajas, ganhar mais dinheiro, ter carros mais potentes (e, numa vertente intelectual mais rara mas igualmente dah!: ler e publicar mais livros, escrever em mais revistas, ser mais deprimido, genial, olheirento e inconformado, tomar mais prozac e beber mais jamesons, etc., etc.).

Estar por cima ou por baixo do gajo do lado é, para os homens, mera questão contabilística e de tempo. A gente diz-lhes "Vocês são todos iguais" e eles pensam, "Ah, pois somos, pois somos... eu, por exemplo, sou parecido com o John Holmes da cintura para baixo, saco tantas gajas como o meu irmão mais novo e um dia terei um iate como o do Herman". Quando não estão em guerra uns com os outros a enfiarem-se balázios e granadas, os homens são tão corporativistas entre si que até dá ternura ver, a sério.

É engraçado, constatar que um gajo não perde tempo a detestar outro que não conheça ou que não lhe tenha roubado a mulher, a promoção, um bocado de terra ou o lugar de estacionamento. Por princípio, sente-se solidário para com o resto da sua raça, unida desde o big bang contra a perfídia feminina, como uma espécie de imperativo categórico gravado no seu ADN piloso. Quando há um que é encornado, por exemplo, é como se o tivessem sido todos e desenvolve-se uma espécie de corrente de entreajuda masculina, "Tu já viste o Zé, pá, a mulher encornou-o como João da contabilidade, pá, coitado....". É bonito.

No fundo, os homens são todos iguais: dizem que somos todas iguais, sem perceberem que

- a) nós não gostamos de o ouvir, porque atinge a hiperbólica noção que temos da nossa individualidade de gaja;

- b) não é verdade.

É claro que a alínea a) não se aplica a todas: algumas mulheres gostarão de o ouvir dizer e até concordarão com a questão de fundo, porque - como eu dizia - nós não somos todas iguais. CapiSce?

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