10.7.06

Blogues de engate no feminino


Bom, então para desviar um bocadinho do tema horny sex (ou nem por isso) e porque o prometido é devido, vamos a isto. O tema é delicado, afinal, vou falar das minhas irmãs de sangue, de mim própria. Este é, portanto, um post longo (fica feito o aviso), algures entre o levantamento demográfico e a auto-ajuda, no qual abundarão as analogias com a lei da selva, por motivos óbvios.

Assim (e ao contrário dos masculinos), nos blogues femininos impera a biodiversidade de estratégias, temperada por mais subtileza e uma maior determinação férrea, pelo que não é fácil reduzi-los a meia dúzia de estereótipos para efeitos de dramatização. É que, se os homens não têm vergonha em mostrar que andam à caça, já as mulheres fazem questão de assumir o papel de presas distraídas (e nunca de predadoras - que é o que, na verdade, são).

Em primeiro lugar, uma blogger disponível tem que mostrar que o está, porque a maior parte dos homens (solidários com a sua própria espécie) não estão por aí além interessados na invasão do território alheio. No entanto, também não convém aparentar demasiada inexperiência, que o tempo da desfloração de virgens já lá vai e hoje em dia ninguém está para ensinar nada a ninguém (nos tempos actuais não se perde tempo na cozinha: é enfiar refeições prontas no micro-ondas e comer). Ora, como se conjugam estas duas vertentes? Simples, escrevendo sobre uma relação mais ou menos acabada e que não tenha dado certo: à disponibilidade do presente junta-se a experiência amorosa do passado, ao mesmo tempo que se aproveita para alardear a sensibilidade estética e artística através de poemas, quadros, fotos e prosa poética, de preferência da própria lavra (nisto, fazem o mesmo que os gajos).

Como forma de acautelar a chegada da mensagem ao receptor, a blogger à procura tem o cuidado de fazer constar da sua lista de linques quase só blogues de homens, de preferência listados pelo nome verdadeiro dos seus autores. Pelo meio, põe uma ou outra gaja para disfarçar. É um facto comprovado: este tipo de mulher detesta todas as outras bloggers e mulheres em geral, olhando-as como fêmeas que lhe disputam os machos alfa; no entanto, e para não dar muita bandeira, escolhe sempre uma ou duas daquelas bloggers mais totós (as nerds que vivem para socializar através dos comentários, tadinhas), de quem se finge amiga e que acalenta em respostas, nos mails, etc. Numa vertente mais extrema, a blogger é machista e misógena: despreza as outras mulheres, achando-se a única digna representante da espécie e acredita que a raça masculina é a única por que vale a pena esforçar-se (problemas com a mãe e assim). Escusado será dizer que o arremesso público da sua disponibilidade aparente é independente da disponibilidade de facto: uma blogger pode andar à procura, e ser casada, namorada, amancebada, whatever (a solidão encontra sempre buracos por onde entrar e se instalar). O que interessa é dar a imagem de que não o é, para não espantar a freguesia.

De seguida, há que ter o cuidado de colocar no perfil uma foto verdadeira meio disfarçada no photoshop (se a gaja for efectivamente boa), onde realça um ombro, um olho, um joelho, ou então uma imagem de uma outra gaja boa (no caso de ela própria, blogger, ser um estafermo e ter consciência disso). Depois, é arranjar um nome evocativo de heroína trágico-boazona com laivos de sedução místico-erótica, assim tipo lady godiva, mata-hari ou china blue, e não indicar o autor das fotos com partes do corpo eventualmente a descoberto, deixando no ar a dúvida se aquela maminha que se antevê será, ou não, da que se assina lady godiva, ou se aquele cavalo branco da foto do post de sábado, foi, ou não, efectivamente montado por ela em pêlo.

É claro que uma blogger destas, por mais desesperada que esteja, não pode entrar a matar, pois sabe que espanta mesmo a homenzarrada mais afoita, pelo que, nos primeiros tempos de blogue, convém mostrar-se self-centered q.b. no seu desgosto amoroso (imaginário ou não). Há que cuidar de não cair na lamechiche excessiva e de não abusar das reticências (o que é quase impossível: o mulherio adora as possibilidades em aberto que advêm de umas boas reticências). Se opta por seduzir pela vertente estritamente intelectual em vez da romântico-lamechas e resolve ter opinião, não pode ser demasiado assertiva, pois tal também espanta os homens que, fascinados embora com as suas eventuais inteligência, argúcia e capacidade argumentativa, fogem a sete pés com medo do confronto: nenhum gajo gosta de uma blogger de calças. Eles até acham graça à converseta do morra o macho pim! (atrai-os a perspectiva de domarem a fera e de lhe dobrarem os ossos), mas convém não exagerar.

Uma coisa que estas bloggers têm especialmente em atenção é o fazerem coincidir a música, em especial a letra, com os seus estados de espírito, pois é assim que enviam mensagens subliminares aos potenciais pretendentes. Tipo, e hoje rola aqui no gira-discos do engate, you had a bad day, de james blunt, porque também eu, coitadinha de mim, tive um dia para esquecer, merda, ai a minha vida iadaiada, não me queres vir consolar. Também gostam de mostrar que são um bocadinho malucas, pá! e que até dizem algumas asneiras quando é preciso, especialmente quando estão chateadas, vão no trânsito, apanham bebedeiras, gritam com as empregadas nas lojas ou desafiam o patrão que lhes olha para o rabo ou para as mamas (sempre fantásticos). Para contrabalançar, volta não volta deixam cair informações soltas sobre teses de mestrado ou cursos de especialização extraordinariamente difíceis por acabar, para que se perceba que, apesar de estarem sozinhas e serem boas como o milho, não são estúpidas.

Um outro aspecto engraçado: como todos os homens são tendencialmente voyeurs (os bloggers, então, nem se fala - se não, não seriam bloggers mas outra coisa qualquer), a blogger vai deixando cair poemas ou opiniões que demonstram inequivocamente a sua forte e encantadora personalidade, bem como bocadinhos da sua intimidade. Como quem não quer a coisa, lá vem a copa de soutien que usa, quanto mede, a cor dos olhos, do cabelo, o peso (pesam sempre menos de cinquenta e cinco quilos e a maioria tem olhos verdes, o que é extraordinário, pois ficamos com a sensação de que a blogoesfera é uma afiliada da Central Models), a curva do pescoço, a frescura do ombrinho... É claro que algumas, mais desesperadas, perdem completamente a noção do decoro e acabam a elogiar-se desmedidamente nas suas características físicas e intelectuais, como se fossem espelhos mágicos de si mesmas, o que se torna patético - mas com as malucas super-hiper-extra não vou perder, nem o meu, nem o vosso tempo. Adiante.

Também costumam dar a entender que até sabem cozinhar (embora odeiem o corropio doméstico, brrrr!, pois são muito independentes), mas sempre na onda da nouvelle cuisine, onde usam ingredientes difíceis tipo cardamomo, acelgas e gengibre (são poucas as que assumem que não sabem estrelar a porcaria de um ovo ou, então, que admitem que o que gostam mesmo é de se alambazarem com um cozido à portuguesa cozinhado por elas... o que seria manifestamente grosseiro). Por princípio, têm gatos (mais raramente, cães) aos quais devotam enorme carinho, como se dissessem a quem as lê, vêem?, em vez do félix podias ser tu, aqui enroscado no meu colo e eu a coçar-te as virilhas, pois tenho muito amor para dar, não sei se já percebeste.

Depois, os métodos de aproximação. As mais espertas elogiam sem parcimónia, pois sabem como os homens se pelam por amostras de admiração vindas do sexo fraco, como se vendem por uma fracção da admiração feminina: quanto mais bajulação, melhor. Um breve comentário a mostrar como perceberam o sentido do post do gajo (apesar de este parecer ter sido escrito em sânscrito) e o dito fica logo de anteninhas levantadas. Segue o link, dá com a imagem de um mamilo alçado e com um desabafo de amor em três linhas (os posts têm de ser curtos, se não o gajo maça-se e baza), um comentário por troca e trucas! , está estabelecida a comunicação. Elas também gostam de usar um outro método mais subtil, que é o de se fingirem de lorpas quanto a templates, códigos html e quejandos: opáaa!, apaguei o blogue sem querer, buáaaa, alguém me ajuda? Alguém me põe uma musiquinha que eu não sei como?, e por aí fora. Na verdade, existe sempre maneira de despertarmos o cavaleiro andante que existe em cada blogger-gajo, designadamente fazendo-nos de tontinhas que precisam de ser salvas das garras da ignorância informática. Nunca falha.

Entabulada a conversa vem a parte das fotografias via mail, olha lá como é que sou, e aqui elas tendem a aldrabar e a enviar fotos de quando eram muito mais novas, mais magras e relativamente mais favorecidas pela mãe-natureza (fotos com, digamos, para aí uns dez ou vinte anos de atraso). Algumas chegam ao cúmulo de enviar fotos de fim de curso (quiçá por ter sido essa uma das poucas alturas em que alguém se terá dado ao trabalho de as fixar com alguma atenção, nem que fosse apenas o fotógrafo de serviço: estamos a falar de muita tesão mas também de muita solidão, é preciso não esquecer).

É claro que, a seguir, se vêem metidas num pau de sete varas e prolongam a relação virtual até ao limite do impossível, ou seja, até o gajo se fartar de apalpar o ar e se babar para o ecrã e partir para outra. Ficam a arder, claro está, mas no fundo já estão habituadas: a vida destas mulheres que remexem nos fundos virtuais da blogoesfera a ver se encontram algo que lhes sirva é, fundamentalmente, cerzida a suspiros em frente a um ecrã, seja de PC seja de televisão. Aliás, o ponto universal de partida para se ter um blogue, seja ou não de engate, é sempre o mesmo: darmos vazão a uma espécie de loucura contida e arremetermos contra a solidão que nos infecta, mesmo que vivamos rodeados de pessoas e tenhamos que nos fazer ouvir aos gritos.

E sabem que mais? Eu até acho muito bem que através dos blogues e dos expedientes que atrás referi (e de muitos outros), homens e mulheres, e homens e homens, e mulheres e mulheres, se engatem, se apaixonem, se desenganem, se comam, se adorem, se embirrem, se detestem, se precisem, se dispensem... whatever, e driblem assim as suas intrínsecas solidões. O que me irrita um tinnytinnylittlebit é andar tudo a fingir que não se está cá para isso. Olecas.

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