23.8.06

Eu, escort girl





Vou inscrever-me numa escort agency - espero que seja assim que se diz e escreve.
Cheguei das berças recentemente, e trago o inglês enferrujado.
Garota de programa quer dizer o quê? Puta ou apenas acompanhante de homem? Mas, mesmo puta, no fim, tanto faz.
Se forem limpinhos e não disserem muita ordinarice, posso fazer o favor, mediante pagamento mealhudo. Quero lá saber se são uns leitõezinhos de bigode, desde que não mo cheguem.
Como dizia a tia Deolinda quando eu não gostava das papas, "fecha os olhos, moça, e aperta o nariz!".
Isso: fechar os olhos, não respirar, não sentir a pele dos homens. Não comparar a pele dos outros com a pele de ninguém, a pele tão morna, tão antiga de alguém.
A pele tão quase imaterial, tão certo perdida daquele que amei no vento e se desfez com ele.
Essa pele que ainda sinto da minha janela como se a avistasse, lá ao fundo, do outro lado do rio. Que ainda cheiro.

Um whisky com 10 anos. Um bom whisky com 10 anos anos. O que custa fazer companhia a um homem só, com mulher e filhos, ou sem, que interessa? Just an escort girl, ninguém me pergunta sobre a minha vida privada, eu nada pergunto, a não ser "e aventuras nos mares do pacífico; os negócios a correr bem?", e ouvir a história que se segue, enquanto ele descalça os sapatos e coça os tomates ou desentala o elástico das cuecas, relaxando. O que custa?
Faço de conta que não vejo. O que custa deixar que me paguem um bom whisky de 10 anos, sorrir, sorrir, dizer "sim, claro, concordo", aparentar mais classe que a que realmente tenho, deixar que me olhem, que pensem o que quiserem.
"Somos parecidos, já viu?!" O que me custa responder, "assim parece!" E venha um whisky; 10 anos. E a taxa horária.
Se tiver de ser puta, que seja cara. De luxo. Hão-de pagar-me bem, e eu levantarei a saia, delicadamente, e deixarei que se aliviem um bocado dentro de um cone de latex que se introduzirá em mim enrolado numa espécie de sonda vaginal - que nas clínicas se paga a bom preço! Não será diferente. Imaginarei o médico perguntar-me, "minha senhora, quando foi a sua última menstruação? Afaste agora um bocadinho as pernas... isso!"
Se me inscrever numa escort agency e, para além, da taxa de usufruto, me pagarem três whiskies como os de ontem, até pode ser que dispa a saia, o soutien e me apeteça sentir a pele alheia, o nojo da pele alheia que não é nossa, que não desejamos, que não desejaremos depois da bebida. Que me transforme em carne pura, carne de talho, pelo tempo necessário para os esmifrar piedosamente entre viagens, entre mulheres, negócios, a puta da cultura que os pariu. E depois me lave com sabão azul-e-branco e beba só água das pedras nos dias seguintes. Até ao próximo. Belas férias no Sheraton de Paris, as que hei-de ter. No ano que vem.
Porque eu sou apenas uma mulher, uma pobre mulher que precisa de dinheiro - uma mulher honesta a quem eles fazem o favor de ajudar com uns trocos. Uma mulher que se expõe, que se mostra, que sorri, que se fode, porque é para isso que eu sirvo: expor-me, mostrar-me, sorrir, ser fodida. Tanto faz. O que é que custa?

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