4.9.06

Quando denunciamos enfado, frustração, intolerância, irritação ou pura e simples falta de paciência, apelidam-nos prontamente de mal-comidas. Esta visão redutora, de que basta uma mulher estar satisfeita na cama para ser uma querida boazinha, toda contentinha com o caleidoscópio de estupidez que gire eventualmente à sua volta é, essencialmente, masculina. E porquê? Óbvio: porque os homens gostam de fazer centrar o torvelinho da humanidade em geral (e o bem-estar feminino, em particular), na sua competência viril - a qual, aliás, não se cansam de presumir. Pode, no entanto, ser também o ponto de vista de algumas fêmeas, as verdadeiramente mal-comidas, aquelas para quem "a quimera do orgasmo" ou "os salteadores do orgasmo perdido", se tornou no filme das suas vidas. No fundo, são as que colocam o que não têm no centro da sua existência (e no da existência das outras). Ora, ninguém duvida que orgasmos vários e bons são meio caminho andado para não andarmos por aí armadas em mães de Bragança a expulsar as boazonas do nordeste, em feministas anti-pilinha, daquelas ressequidas que tapam os olhos e o nariz à passagem de um bicho-homem como se este fosse um texugo, ou, então, a esquecermo-nos da abstinência forçada em manifestações pró-vida (onde se concentra tanta raiva por metro quadrado que aquilo mais parecem festas de espuma). Mas não, não basta. Fiquem sabendo que sexo decente, e mesmo sexo acima da média, não chega, para que derramemos boa-vontade e compreensão à nossa volta vinte e quatro horas por dia e para que encolhamos os ombros se o gajo nos disser que tem um jantar de negócios com a Eva Longoria. Nada disso - nós, mulheres, somos um bando de sensíveis e precisamos de mais do que meia dúzia de quecas celestiais para sermos felizes (e para o mostrarmos repetidamente). Precisamos, por exemplo, de muitos pares de sapatos.

referer referrer referers referrers http_referer Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com