31.5.06

"Meus senhores, eu sou a água que lava a cara, que lava os olhos" *

Todos os dias, a seguir ao jantar, a conversa já em velocidade de cruzeiro, das que vogam lentamente entre marcos de quilómetros e alguns candeeiros de entradas e saídas e áreas de serviço, quebrada por silêncios confortáveis de pensamentos alinhados, ele levantava-se, que se deixasse ela estar, ele tratava do resto, ia à cozinha, dirigia-se à máquina acabada de comprar que viera susbtituir a anterior (modelo parecido mas menos design), agarrava em chávenas e pires e colheres, tratava do resto e regressava. Servia-a amavelmente, deixa-te estar que eu trato disto, queres duas colheres de açúcar ou adoçante, trouxe os dois, hoje só uma, respondia ela, mas do verdadeiro, dieta mas nem tanto e ria-se e ele também e estendia-lhe uma mentira bem tirada. Era excepcional a tirar mentiras, percebia de temperaturas do momento e de jeitos e outras coisa precisas e nunca usava nada que fosse de supermercado, pacotes embalados a vácuo, nem pensar: era a sua própria mistura, que trazia de sabes lá o que eu corri para encontrar esta, é realmente muito boa, não é? E ela concordando, bebendo a mentira deliciada, acendendo um cigarro e suspirando enquanto estendia as pernas, uma maravilha, sabe lindamente, querido! E assim se ficavam, numa serenidade feita desse perfume, que ela saboreava no momento melhor do dia, contava às amigas, é o melhor momento do meu dia, quando estou ali absolutamente relaxada e sossegada, a beber aquilo, ele pode não saber cozinhar, mas eu desculpo-o porque é realmente especial aquela altura do nosso dia.

Ele ia variando para ela não se fartar do mesmo sabor, sabes lá tu o que corri hoje para encontrar esta e ela, grata, sorridente, feliz, és mesmo bom para mim, tenho tanta sorte, ele satisfeito com aquele resultado, o trabalho que dava compensava largamente, e todos os dias repetia os mesmos gestos, uma mentira sempre bem tirada, não era preciso mais nada.

Às vezes ela dizia, olha hoje se calhar não, preciso de me deitar cedo, vou só fumar um cigarro e ele, sempre solícito, espera que tenho ali outra coisa e ia à cozinha, tirava chávenas e pires e colheres, fervia água e misturava mentiras em folhas que depois coava e, quando estendia a tisana, dizia, vais ver que com esta ainda dormes melhor e ela, agradecida, contente, que simpatia, que charme, que sorte tenho, amanhã quando contar às minhas amigas vão ficar verdes de inveja, quem lhes dera esta felicidade todos os dias, realmente não sei porque complicam tanto, basta uma chávena, é tudo tão simples.

Não sabe bem quando começou a ter insónias. Acordava de noite em pânico, estendia os braços, às vezes encontrava-o, outras não, claro não está cá hoje, que parva, ele disse-me, ainda estou meia a dormir e dava voltas e voltas na cama sem o encontrar e claro, as insónias eram disso, mas dormia mal, cada vez pior e sentia-se assim mais ou menos pouco em forma durante o dia, é de não dormir, não sei o que tenho, vai ao médico aconselhavam as amigas, que te andas a definhar, essas insónias estranhas, eu se fosse a ti ia e ela lá se convenceu. Minha senhora, disse o doutor, depois de exames e análises, não tem nada, mas deveria evitar beber coisas que lhe tirem o sono antes de dormir, nem uma tisana? Nem uma tisana, minha senhora, às vezes essas tisanas calmantes sabe-se lá o que têm dentro, beba água que limpa o sistema, muita água da torneira, beba água minha senhora e durma, que o seu mal é sono.

Nessa noite, depois do jantar, ele levantou-se e disse-lhe deixa-te estar que eu trato de tudo e ela respondeu, amor, só um copo de água da toneira, deixa-te estar tu, vou eu buscá-lo, levantou-se e nunca chegou a ver o olhar de total e absoluto pânico dele.

* título descaradamente gamado de poema de Manuel Maria Barbosa du Bocage

Isabel R:


Sabias que existe um museu da menstruação? (Museum of Menstruation and Women's Health)

Cursos de Verão

Curso de Cozinha Ceciliana

Vão abrir as inscrições para o Curso de Cozinha Ceciliana, uma das mais prestigiadas escolas de cozinha italiana, actualmente com reputadas incursões na cozinha de fusão.
Para ti, jovem, que és um homem que ambiciona ter préstimo na cozinha do ponto de vista do utilizador, eis que surge uma oportunidade.
Irei a tua casa, jovem, e dar-te-ei umas lições. Tu farás todo o serviço, nu, de avental. Sempre que cumprires à risca as instruções que te der, levarás uma palmada. Se tentares ultrapassar qualquer dos passos requeridos para obter uma obra-prima de culinária, serás castigado.
Em nenhuma circunstância poderás recorrer à varinha mágica, para te transformares numa moderna fada do lar. Se fores bom aluno, e aplicado, no fim poderás rapar o tacho.

A menstruação

A menstruação ocorre nas gajas em regime periódico desde que deixam de ser crianças até que passam a ser velhas. Digo isto não porque o primeiro caso ocorra sempre aos 10 e o segundo aos 65 (ou lá que idade é que uma gaja tem para ser considerada velha que isso é muito relativo, eu cá a primeira vez que me senti velha foi a primeira vez que me começaram a doer as cruzes e os joelhos por fazer um turno da noite, mas conheço pessoas para quem velhice é só a partir dos 70, idade em que, ao que parece, “já não parece mal morrer”, mas voltando ao que interessa). A menstruação ocorre porque todos os meses (mais coisa menos coisa) o útero põe-se a jeito para receber um óvulo e cultivar um feto: pinta a casa com umas células, põe umas cortinas de sangue e aguarda ansiosamente pela fecundação. Se esta não ocorre, o útero, sendo um órgão exclusivamente feminino desfaz-se com um humpfh de toda esta parafernália e despeja células e sangue pela vagina.
Ao que consta todo este processo é causado por hormonas que fazem com que as mulheres fiquem com mau feitio e dores quando estão com o período. Eu não tenho dores, e o meu mau feitio é constante, mas para dizer que tenho alguma coisa “porque estou com o período” digo que tenho fome e vou jantar fora.
As mulheres quando estão com o período usam materiais absorventes que permitem que elas possam fazer tudo o que fariam se não estivessem com o período ou tudo o que fariam se estivessem com o período e as pessoas dessem mais importância ao nojo que é haver merda de cão nos sítios por ponde as pessoas andam e se sentam e menos importância ao nojo que seria ver uma eventual mancha de sangue num sitio onde ninguém toca. Existem vários tipos de materiais absorventes. Os mais conhecidos são os pensos e os tampões. Os pensos são umas almofadas com duas partes: uma parte que absorve e uma parte que cola. A parte que cola é para pôr do lado das cuecas e a parte que absorve do lado da vagina. É bom seguir estas convenções de contrário fica-se com alguns pêlos a menos e sangue por toda a parte. Os tampões são uns tubos de algodão comprimido, em forma de míssil, que se enfiam na vagina com o lado aerodinâmico pra dentro e o lado do cordel pra fora. Também é bom seguir estas convenções, sob pena de se acabar com um tampão enfiado na vagina para o resto da vida (no mínimo).
Existem várias teorias no que se refere a relações sexuais enquanto a mulher está com o período. Há quem ache que vale sempre, há quem ache que é nojento e pratique a abstinência durante alguns dias por mês, e há quem ache que é perigoso porque elas estão com mau feitio e caimbras e não convêm andar com uma pila indefesa nas proximidades de uma mulher com mau feitio e caimbras.

A (in)utilidade das esperas

Nos primeiros dias, abria a casa. Janelas para a luz do final do dia, almofadas batidas, chão lavado, tapetes aspirados. Demorava muito tempo a escolher a roupa, nem de mais nem de menos, lavava o cabelo com sete cremes diferentes, fazia caras ao espelho, perguntava cento e vinte e nove vezes, se haveria alguém mais bela, o espelho farto daquilo, mentia, que não, que não, nem penses, puxa assim ali mais para além, isso, agora sim, a sério, ela convencia-se dois minutos, regressava, mas achas mesmo? e o espelho, claro, fica descansada e ela batia mais umas almofadas, verificava o estado das cerejas na taça, mudava o cd, penteava-se novamente, mudava de cuecas mais três vezes, talvez mais discretas que não quero parecer oferecida, mas não, afinal melhor estas, a camisola agora é que não sei, espelho, espelho, diz-me, há alguém mais bela, o espelho a querer-se baço, a desejar-se tampo de madeira, mas cumprindo a sua função, que não que não.

Nos primeiros dias, abria a casa. Olhava pelas janelas abertas à luz do final do dia, sentava-se e levantava-se trinta vezes, arrumava o que estava em ordem, tirava daqui e colocava acolá, mudava o cabelo, gastava o espelho em perguntas, sorria-se e verificava se chorava em condições, sem nariz vermelho sem ranho sem cores a deslizar pela cara, apenas lágrimas lentas como uma chuva de verão, dizia-lhe o espelho, já é demais assim, parece um dilúvio, lava isso, lava tudo, lavava tudo, uma vez mais, olhava pelas janelas abertas e já era noite fechada, acendia uma vela que ardia até ao fim.

Um dia chegou abriu a casa. Calçou uma chinelas, apanhou o cabelo ao alto, vestiu umas calças velhas, tratou de desarrumar a gosto. O espelho, admirado, chamou-a. Que se passa, então, hoje, não me dizes nada, estou aqui sem serviço, farto de reflectir camas desfeitas, loiça suja, migalhas sobre a mesa, nódoas no soalho? Paciência, respondeu ela. De qualquer forma, não preciso mais de ti.

E foi assim, sabendo-se bela, que encolheu os ombros quanto aos próximos sete anos de azar.

30.5.06

validade

Abrindo um pacote de polpa de tomate, descubro que num tetrapack também pode haver vida para além da morte.

já tenho um título

Só me falta o post.

Egoismo puro

- Muito prazer!
- O prazer é todo meu...

29.5.06

ahooooommmmm


tá-se memo a ver, não tá?

(imagem daqui)

Ora então, ora então

uma merda qualquer sobre sexo, xacáver...
.
.
.
xacáver...
.
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.
xacáver...
.
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(o primeiro palhaço que se lembrar de me dizer que o que eu preciso sabe ele, concordo desde já)

MAS ATENÇÃO! (APRENDAM RAPAZINHOS) Uma coisa é uma gaja dizer epá estou com um cabelo mesmo horrível; outra, completamente diferente e que dá direito a um tratamento com a ferramenta do saco de napa da Libéria, é um rapaz responder: olha, pois está, péssimo!

uma gaja ser uma pobre vítima inocente das suas próprias hormonas é fdxiyab...

Fdxiyab

Fdxiyab foi a palavra que agora me apareceu para aquela porra dos comentários, o word verification. Não tivera sido eu a decidir que assim seria configurada a coisa, para depois não ter que andar metade do tempo a limpar o spam, largava agora umas boas fdxiyabas dedicadas à autora dessa brilhante ideia. Mas tudo serve sempre para qualquer coisinha, ou lavoisierando, tudo se transforma em qualquer coisinha (qués ver que não era esse gajo, agora não me apetece ir confirmar ao google; quexalixe, esse ou outro qualquer) e, no caso concreto, a palavrinha para confirmar um comentário era esta belíssima composição aleatória de letras: fdxiyab. Tem as suficientes para tirar a barriga de misérias: desde que aqui me instalei na SOCA, de armas e bagagens e a levar a clientela ao engano, sim! Aproveitando-me descaradamente do sucesso das sócias e obrigando os leitores a gramarem com os meus dislates, que ando doente para dar um passo mais além de todas estas inutilidades escritas, com que encho este pobre e, agora irremediavelmente, condenado blog: FDXIYAB! *

(* uma puta de uma carocha voadora agora, parece um jacto - qués ver que é mecânica, controlada remotamente, já cá chegaram? All hands, stand by! Prepare to coiso - dou sempre cabo destas imagens, não tenho cura - como é que se diz ir ao fundo, coiso, nos submarinos? Ora bolas! Já foi tudo cos porcos!)

É a vossa sorte!

Já que a China Blue não se chega à frente para nos contar das voltas da Libéria, preparava-me eu para escrevinhar o capítulo "O Grande Supermercado dos Jacintos Reunidos". Não se pense lá que os Jacintos prosseguem esventrados pela história toda e se ficam, assim, sem mais nem quê; está certo que, para um homem se afastar do sofá e do comando de televisão depois do jantar, é preciso qualquer coisa: mas toda a gente sabe que essas alegres confrarias servem para umas jantaradas e umas ilusões de governar, em tons pardos, o mundo inteiro e mais um par de botas...rectificação, metade do mundo inteiro e uma bota; que a outra e mais a metade que falta é governada - pensam eles - por uns tipos estranhos que amarram uns arames farpados às pernas e...ai o echelão português! Tou lixada! Tamos todas lixadas por arrasto, felizmente isto é uma sociedade anónima, mas cautela agora! Só se pode escrever sobre menstruações, hormonas e sexo.
Bem e sendo assim, ao que vinha, realmente, era informar que, por hoje estão livres desse capítulo: que escrever histórias da carochinha, enquanto se está com um olho nas verdadeiras com asas que vão entrando pela janela, é demais!
Lá terá que ser sexo. (Ou outra coisa qualquer.)

"não posso ver nada" - eu sei

Gaja que é gaja e que é gaja que se preze, não pode ver nada sem ir a seguir calcorrear meia cidade à procura de um igual. "Um" é qualquer coisa que lhe faça subir das entranhas a inveja. A inveja não é uma coisa má. Quer dizer, nem sempre é e para o caso de hoje, não é.

Gaja que é gaja não pode ver outra gaja com O homem, que o desdenha até ao tutano. Nem outra com AS prada da estação, que se empenha até às orelhas e toma lá que também já tenho umas. E os relógios?! Isso é que é. A inveja no limite.

Amiga 100nada, no Sábado enchi-me de charme; e não é que o rapaz do quiosque me foi desencantar um saco igualzinho ao teu? E nem tive que comprar a revista.

Muuuuuuuuuuuuu

Achei um piadão às vacas espalhadas pela capital. Voto na melhor - a única que vi com as unhas pintadas.

oh vós que sabeis tudo...

Que eu sou gira é por demais evidente. Ele é carros a apitar, trolhas a assobiar e olhos a passear-se por mim afora sempre que passo.
Mas lisonjeiro, lisonjeiro é ver as pequenas pessoas do sexo masculino a caírem-se de amores por mim. Uma dessas pessoas dedicou a sua manhã a passar “como quem não quer a coisa” pela minha cozinha, vestido com o seu melhor fato de zorro. Conheço outra dessas pequenas pessoas que pode estar a chorar baba e ranho por não querer sopa, porque quer brincar ou por alguma outra razão que um gajo pode não estar bem a ver porque isto de perceber pessoas que não falam não é p’ra todos, mas basta pôr-me a vista em cima que sorri imediatamente…
Se vocês me disserem que se um dia eu tiver um filho homem ele vai ser assim e que me basta abrir o meu melhor sorriso para ele parar choros e birras, eu vou já a correr ter um.

Regresso

Às vezes esqueço-me que tenho dupla personalidade.

rasgão

Intervalo: ouviu-se da minha janela um ruído ao longe, contínuo, dinâmico, o som de um motor de vento em deslocação. Perguntei-me se seria a catástrofe que a calmaria anunciava, como a onda gigante que não se abateu sobre o medo de um povo amodorrado, num Verão passado. Terá a Mariana ouvido o eco, lá para a serra?

Sabes

O mundo pula e avança, já dizia o poeta, e é mesmo assim. Pula e avança, como um gato num telhado a ser passeado por um vulto que não se percebe se é homem se mulher. Viram os dias e chegam aqueles em que já não é noite a essa hora e o vulto se transforma numa mulher - é mulher afinal, um inverno inteiro sem se perceber. Os cães continuam a ser passeados à mesma hora mais tardia, os mesmos cães, a mesma hora, mas em dias que acabam mais tarde: não é tão noite, por assim dizer, relativa ao dia que terminou, embora cães e gatos mantenham os mesmos horários. É nessas rotinas que parecem iguais, é nas trepadeiras que parecem não ter crescido mas caem agora dos pauzinhos onde estavam presas, é nessa indiferença absoluta do mundo, que teima em pular e avançar ao tempo de uma planta a crescer, essa que observamos e se mantem imóvel e, quando nos voltamos, já foge do vaso pelas paredes acima, é essa indiferença dinâmica que o mundo teima em manter, em não nos ligar nenhuma (a nós e às nossas angústias e ritmos e dias assim e outro menos assim) e, ao mesmo tempo, em andar para a frente e nos empurrar, quer queiramos quer não, é essa força brutal que nos obriga, passe o lugar comum, a - tão simples quanto isto - viver.

28.5.06

Quietude

Ouve-se o calor andar em bicos de pés.

Memorabilia (item)

Gostei tanto daquela nossa viagem. Tu de olhar em frente, derivando por caminhos recônditos, em busca do oceano. Eu, a correr contra o vento, rumando a destino incerto, sem nunca deixar de empunhar bem firme a bandeira hasteada.

Ganda lata!!!



recebido por sms:

Olha, nós estamos aqui, toma tu conta disso! Diverte-te! Bjs!

27.5.06

(Do resto das sócias)

(oficialmente nada sei, oficiosamente duas delas falei com, outra delas estive com)

Embalagens inteligentes

Finalmente lá arranjo tempo para me dedicar ao meu telemóvel novo, que me custou meia dúzia de euros, uma data de pontos e uma porra de uma hora gasta dentro de uma loja da operadora, onde sete empregados atenderam as três pessoas que estavam antes de mim em 50 minutos.

Ora vamos lá a ver disto e tiro a embalagem do saquinho de papel. Pois tá muito bem, ainda estou para saber quem foi a mente brilhante que vendeu a ideia da embalagem enorme em plástico transparente à empresa. Fosse quem fosse, do lado do comprador encontrou um gestor igualmente iluminado, sendo a filosofia inerente, a da embalagem muita-parra-e-abertura-impossível.

Eu se calhar sou muito burra e o mal é mesmo de mim: estive com aquela porcaria às voltas uns vinte minutos. Nada. Não há meio de abrir a coisa. Lá recorro ao método mais radical de partir aquela merda toda, com algum cuidado não vá o telefone também ficar em bocados e lá consigo sacar um telefone agarrado a um cartão com uma daquelas coisecas de plástico que não me lembro como se chamam, que prendem na ponta e depois já não saem. Ataco a coiseca de tesoura, a tentar não raspar muito o bicho que está bem apertado dentro da presilha. Mais um quarto d'horinha e solto o telemóvel. Que, miraculosamente, continua agarrado ao cartão. Mau. O que é agora?
Pois nada mais nada menos que um autocolante de duas faces, daqueles de esponja, entre o cartão e o telefone. Arranco também aquilo e, claro, tenho finalmente um telemóvel na mão. Mais precisamente, um telemóvel coberto de bocados de esponja colados com super cola anti ladrão.

É de mim ou estes gajos são loucos?

(mais uma horinha amanhã para devolver a coisa...caneco...)

(suspiro)

Estou eu aqui a esmifrar-me para produzir um post de gaja, com alguma interioridade, alguma intimidade, algum levantar discreto de saia, algum tornozelo de fora, um tudo nada de imagem poética, um bocadinho de choradeira, pois umas flores, umas missangas, um ligeiro odor a alhos fritos e detergente da louça, umas vagas queixas sobre os homens/as amigas/os gatos/o calor/a praia/os cremes anti-rugas/os filhos/as cargas de trabalhos/a feira do livro, qualquer coisinha: NADA.

Um gajo aqui não se safa. (outro suspiro)

[suspiros, ao menos, sempre estão mais em linha, não? Melhor não confessar que na realidade estou a dar nas batatas fritas, faz-se de conta (mais um suspiro para efeitos literários e mais uma batata para efeitos reais)]

Não me respondam: "mas e tu não sabes?" se faz favor

Afinal quem é o tal Rui Costa???

26.5.06

Eu nem tenho nada que reclamar nem nada

mas, ou as outras meninas se chegam à frente, com algumas histórias mais internas, ou este blog corre um grave risco de se transformar no meu num tasco e é já a seguir! E depois a clientela, coméqué?

Mais um post desviado da linha editorial

Que raio se passa hoje? É o Dia Nacional do Nascimento do Mosquito? Momento...paf!
(tenho aqui uma parede coberta de cadáveres, é o literal tratamento SOCA *)

* em bom rigor chanata

Folhetim da SOCA: O que une as irmandades?

Façamos agora um zoom-out, deixando Libéria Cristina a dedicar-se, com entusiasmo e fervor, a essa tão bucólica actividade que é a jardinagem nocturna; ou corremos o risco de nos alargarmos em devaneios literários sobre as libérias que vivem presas em todas as mulheres e os perigos inerentes à sua libertação sobre todos os Jacintos do mundo, armadas de napa preta e muito artefacto em metal.

A câmara afasta-se, paira sobre a cidade adormecida e queda-se por momentos numa mancha em movimento que mais tarde ficará conhecida pela Marcha das Ratazanas: nunca esquecida nas lendas desse heróico povo, que corajosamente terá enfrentado sítios que a esta hora ainda estão por descobrir (mas na altura do contar das lendas já foram descobertos). Omitir-se-à, como é sempre o caso, a parte em que ratinhos mais novos e mais velhos terão caído ao chão e terão sido pisados e esmagados pela Imparável Marcha; e editar-se-á outro episódio, que se passará a chamar O Capítulo Em Que O Povo Roedor Providenciou Víveres Para A Grande Travessia. Ficará ainda mais que provado que nenhum dos roedores terá partido qualquer vidro ou incendiado carros; suspeita-se que terá sido coisa do Grupo Dos Gatos do Bairro Sete, com o intuito de levantar falsos testemunhos e provocar animosidades da população em geral sobre a pacífica Marcha das Rapazanas.
Antes de se voltar a afastar, a câmara detem-se ainda sobre a figura da frente, um rato coxo coberto por um pedaço de papel higiénico branco.

Uma janela iluminada atrai agora a atenção. Zoomemos(in) directos àquela luz, não sem antes reparar que, do lado de fora da referida janela, piscam umas neónicas letras. Antes de entrarmos na cena propriamente dita, reparamos num PRIMAV, mas já a câmara se move mais depressa que a nossa visão.

A uma mesa discutem Konieca Zurpeka e Maria Alves. Antes que o leitor diga, ah claro, a dona do café e a empregada de leste, esclareçamos que nem tudo o que parece, é. Poder-se-ia realmente deduzir que a rapariga alta, loira e mamalhuda era uma e a matrona morena de trança e bigode, igualmente mamalhuda, seria a outra. Na verdade, é o caso. Mas para se completarem os esclarecimentos, acrescente-se então que Konieca (Alves de solteira) Zurpeka (de casada) é cunhada de Maria (Zurpeka de solteira) Alves (de casada), existindo ainda uma outra relação entre as duas: Konieca Zurpeka é enteada de Maria Alves, por sua vez casada com o viúvo de Trombolina Libéria da Anunciação Santos que, em vida, fora grande admiradora do Senhor Vasco Granja e amiga chegada de uma prima do conservador do Registo Civil.

O som cada vez mais alto da discussão, interrompe este raciocínio, ao qual se voltará mais tarde.

- Não vou, não vou, diz Maria Alves, abanando violentamente os caracóis.
- Larga os caracóis, mulher! Que assim nunca mais cozem e ouve-me com atenção! Tu tens que ir, estão todas à tua espera!
- Não vou!
- Vais nem que te arraste!
- Olha lá e o meu irmão sabe disso, que tu andas assim à solta na rua?
- Solta na rua andavas tu antes do meu pai te tirar da vida fácil (com vistorias médicas regulares)!
- Vaca!
- Cabra!

O silêncio abate-se sobre as duas, ouvindo-se apenas a água dos caracóis a ferver. Konieca Zurpeka reflecte com os botões do seu casaco verde que, apesar de lhe apetecer enfiar a cabeça da madrasta dentro da panela, o que é certo é que, sem aquela peça fundamental, o plano não é passível de ser implementado.

- Maria.
- Não quero saber disso, não vou.
- Maria, aconteceu uma coisa.
- Não me interessa nada!
- Recebi um sms de Onde Judas Perdeu As Botas…
- Da terra da tua mãe?! O teu pai já mandou tudo o que era dela!
- É um aviso.
- Mas e o que querem mais agora?
- Não é sobre isso. É O Aviso.
- O Aviso? O Aviso Com Maiúscula?
- Esse Mesmo.

Num repente, Maria Alves, levanta-se. As lágrimas começam a cair. Konieca Zurpeka devolve um sorriso também muito molhado e ranhoso. Abraçam-se em sororidade, todos os desacatos esquecidos.

- O meu marido…
- É o meu pai. E o meu marido…
- O meu irmão…
- Todos?
- Tem que ser.

Maria Alves procura o seu casaco verde. Ambas alisam as saias azuis. Saem para a rua, depois de uma paragem pela gaveta dos cutelos. Quase voam sobre as pedras da calçada que agora gemem muito alto.

As vozes gargalham ao longe.

É O Aviso. O Implacável Aviso.

também eu

Quero estender lençois na Soca.

MENINAS PROLIXAS

Aqui:

"Péra péra péra"

- Acabaste por não dizer ao que vinhas...
- E então? Não é o que toda a gente faz?

Cigarrinho fumado

tá a coisa feita.
(este não leva comentários, antes que por aí aterre a brigada anti-tabagismo)

i

é a letra que falta no post de baixo

como se vê qualquer pessoa

(sto para quem ainda não atingiu é uma aula) pode ter um blog, custa nada

acerta com os parênteses, melher!

adenda: desde que acerte com os parênteses nos sítios certos

Espanto-me sempre

farta de ver e espanto-me sempre com a ordem errada

(nota entretanto)

(é mesmo estranho quando se lê ao contrário assim desta forma não é?)

Ahhhhhhh!

Já sei.

Mas e afinal era o quê, mesmo?

Olha! Esqueci-me! Não devia ser nada de importante.
Adiante.
Quer dizer, para cima - para mim.
Para baixo - para o leitor.

Eram dois, eram dois!

um -> )
dois -> )

Já lá volto ao isso de baixo, agora outra coisa:

(Caneco! Agora com o termo que me está a faltar em baixo já nem sei o que ia escrever mais aqui em cima (momento, outro momento...olha outro parênteses, pera lá quantos são agora? Estou toda trocada.

Então indo disto:

Um pequena dúvida que me anda a (estou com falta de termo aqui, momento)

ora concença que hoje estou a ressacar de falta de blog

e vai disto.

(Que é totalmente redundante. E vai disto, como se indo disto esclarecesse alguma coisa: claro que não! Porque depois para quem lê não é um esclarecimento prévio: é uma nota de rodapé. São as alegrias de posts por ordem de chegada.)

25.5.06

Um post da vizinhança, sobre homens que trocam cromos de jogadores de futebol (por JPH)
Está lá tudo explicadinho:

"Tens, à tua frente, dois homens maiores de 30 anos a trocar cromos. E pedes socorro: "Alguém que apareça e me explique o fenómeno."

Muito bem, eis a explicação. Na nossa civilização (ocidental, judaico-cristã, mas parece-me que também noutras, nomeadamente no Oriente) os homens são todos infantis. Todos. Sem uma única excepção, posso-te garantir. E todos desde que nascem até que morrem. Só há uma diferença entre eles: uns conseguem ganhar dinheiro com isso (o Bill Gates, o Cristiano Ronaldo, o Ricardo Araújo Pereira); outros não (eu).
(continua)

Cor de Copacabana

Do Festival Eurovisão da Canção, ou As Vozes da Libéria Cristina

Diga-se que a voz de Libéria Cristina não era só uma: eram várias, que foram reduzidas à unidade por jeitos narrativos e porque, na realidade, eram todas parecidas e insistiam basicamente no mesmo.


Assim, enquanto as vozes se acotovelavam no sofá do cérebro de Libéria Cristina a devorarem amendoins, colas e bjecas, defronte a um ecrã de tevê onde um robô-fémea musculado insistia ter perdido trinta quilos numa semana à conta de uma bracelete mágica, os apêndices corporais funcionavam-lhe numa deliberação mecânica e contabilizada ao milímetro.

Libéria abriu o seu saco avantajado de napa preta, retirou um pano tão imaculadamente branco que mais parecia uma coberta de altar, desdobrou-o em cima da cama, alisando-lhe amorosamente os vincos, e começou a dispôr-lhe em cima, com uma ordem em tudo idêntica à do universo, as suas ferramentas de trabalho.


A maior parte destas, Libéria Cristina havia-as surripiado do armário de parede que existia na única sala de operações do decrépito hospital distrital onde, em tempos, se abalançara a uns meses como auxiliar de limpeza, sem folgas nem recibos. As outras, conseguira-as pelas garagens da vizinhança, naquela semana em que se oferecera para trabalho comunitário pro bono na junta de freguesia, alegando um coração generoso e farto. Enquanto aparava relvados carecas e podava roseiras hostis, a nossa heroína ia aquietando as vozes na sua cabeça (que tendiam por vezes a comiciar-se, em ruidosas reivindicações de pendor sindical), que tivessem paciência, soubessem esperar e que não havia de faltar muito até a revolução sair às ruas e os soldados marcharem sobre a capital, reduzindo-a a pó à passagem dos seus exércitos de botas cardadas.

Ora o caro leitor, aí sossegadinho, nem imagina as potencialidades insuspeitas dos, por exemplo, utensílios de jardinagem: dos ancinhos, das tesouras de podar, dos cabos das pás, dos corta-sebes... Haja imaginação e vontade (coisas que a nossa Libéria-formiga vinha armazenando em quantidade desde a sua degenerada infância, para os invernos que se seguriam).

Adiante. Libéria começou então a retirar do saco e a dispôr sobre o pano branco, alinhadinhos como magalas em caserna para a inspecção matinal, um bisturi, três tesouras (uma de podar, outra, serrilhada, e uma terceira, de pontas retorcidas), várias agulhas de sutura (com linha!), dois serrotes de tamanhos diferentes, uma faca de trinchar, cinco seringas e as correlativas agulhas, uma chave philips pequena (furam melhor), uma bobine de fio de nylon tamanho 0.5 (que pensaríamos erradamemente para a pesca à cana), dois cabos de ancinho, uma pá pequena, um formão e uma mini-serra eléctrica.

Por fim, pegou com dois dedos num saco de plástico transparente que parecia conter uma trincha mergulhada em tinta vermelha. Lá dentro, no entanto, o que jazia era uma sachola ensanguentada, despojada do cabo numa solidão sinistra. Libéria elevou o saco à altura dos olhos e mirou-o com pormenor e interesse, como se estivesse a vê-lo pela primeira vez. Sem dar conta, lambeu com a ponta da língua o suor que lhe ameaçava os lábios.

A visão e o cheiro do sangue fresco, está-se mesmo a ver, escalou-lhe rapidamente as narinas até ao cérebro em repouso e agitou-lhe as tais das vozes, que se esqueceram da alienação televisa para logo começarem a gritar-lhe às paredes do cérebro, Tum! Tum! Tum!, instando-a a continuar e a ir mais longe, mais e mais e MAIS!.

Libéria tapou os ouvidos (como se as vozes não estivessem dentro dela!) e desatou a cantar o imortal êxito, Sobe, Sobe, Balão Sobe!, um ritual que praticava sempre que as vozes lhe surgiam inoportunas e ela tinha de lhes sobrepor a que lhe saía da garganta (e que era, no fundo, a única voz da razão que ainda subsistia nela). Às vezes, arriscava outras participações portuguesas no Eurofestival, mas nunca posteriores a 1990 - que até mesmo a Libéria Cristina, psicopata de berço engajada numa cruzada vingadora em nome das suas irmãs de cona, tinha os seus limites.

E foi assim que, aos gritos de Balão Soooooobe!, lálálálárálálá!, Libéria abafou a aleivosia homicida das suas vozes interiores que, resignadas, voltaram a encafuar-se no sofá da sua mente, lambuzando-se de gozo à visão de um reality show onde seres humanos eram cruelmente humilhados por outros.

Nesse exacto momento, o velho da recepção, um ex-alferes combatente na Guiné, de sua graça Capitão Camões Gancho (conhecido entre as meninas como o zarolho), um gordo acatarrado com bafo de dragão, batia violentamente na porta do quarto ao lado, gritando para que todos ouvissem que, ou a Sonja Karapova lhe pagava as diárias em atraso ou ia foder para o olho da rua.

Bem que pôde passar a agradecer todos os dias à Manuela Bravo, ao Eládio Clímaco e à RTP, o zarolho, sem saber que lhe faltara um bocadinho assim para ter sido a notícia de abertura do jornal da noite - ele e a chave philips subtraída de uma parede na garagem da vivenda Amares (lote 5, Rua 13), a um milímetro de ser cravada na sua sebosa nuca.

Era um altar, aquilo era um altar!, o que ele devia ter erigido sobre o balcão piolhoso da entrada da pensão; esse balcão para onde arrimava a barba de quinze dias e o triplo queixo em sestas ruidosas, das quais fazia modo de vida quando não estava a explorar as putas e as drogadas que iam e vinham em busca de um tecto descabocado.

Bom, mas retomemos a cena no quarto da Libéria: estávamos então numas águas furtadas escuras que davam para um saguão pejado de cagadelas centenárias de pombos e ratos, agora despojado dos ratos. E dos pombos também. Porquê? Bom, como sabemos, nesta altura já os ratos se puseram ao fresco, passaram palavra e deram origem a uma estória pararela a esta mas de maior dimensão bíblica, de tanto que se parece com o êxodo de Noé.

Migrações animais, no entanto, são ninharias que não importam a Libéria, uma rapariga asseada que, por isso mesmo e após a cantoria, se dirigiu ao bidé ferrugento ao lado da cama, lavou com desvelo a sachola, secou-a e botou-a junto com as restantes ferramentas. Por fim, após uma vista panorâmica que agradou ao seu pendor metódico, decidiu-se a tomar um banho. Aposto que o quarto do Jacinto Fagundes deve pelo menos ter banheira...

As vozes, entretidas com o choro na tevê de uma mulher enganada que não se sabe filmada, nem notaram que Libéria Cristina desceu as escadas, abriu a porta do quarto n.º 1 no 1º andar, que estava apenas encostada e que, evitando a enorme poça de sangue que se espraiara soalho fora, se dirigiu à casa-de-banho forrada a mofo, patchouly e alguns azulejos pombalinos partidos. Abriu a torneira da água quente, esperou que a banheira antiga de esmalte e pés de leão enchesse até meio e mergulhou, languidamente, serenamente. Ah! Hoje à noite tenho muito que fazer.

Era o sinal de que as vozes, refasteladas na sua ociosidade indolente, estavam à espera: saltaram do sofá e desataram a correr escadas da mente da Libéria Cristina abaixo, prontinhas e derramadinhas para lhe despertarem as sinapses assassinas.

O folhetim da SOCA: De como se pode comprovar a versatilidade de certas alfaias agrícolas

Libéria Cristina! Ouviu-se do cimo das escadas, depois do estrondo da porta de alçapão: não era um estrondo de madeira a cair ao chão por ter sido largada; era um estrondo de quem atira uma porta fora e uma voz muito pouco, ou nada mesmo, preocupada sequer com detalhes como degraus, com a pressa de se atirar à jugular mental de Libéria Cristina.

Façamos aqui uma pequena paragem: um parênteses dedicado ao leitor. Que se explicou anteriormente que a Libéria Cristina era uma mulher que ocupava espaço. E essa característica (a de ocupação de espaço) é um facto dinâmico que obedece a uma lei física, totalmente comprovada: criaturas que ocupam espaço têm sempre a tendência para ocupar mais espaço. Crescem, alargam, aumentam, por assim dizer. E eis que a Libéria Cristina passa a ocupar mais espaço; sem culpa, coitada! Que, como todas as criaturas que obedecem a leis imutáveis da física, não tem outro remédio, é obrigada a isso, não há outra solução: a Libéria Cristina cresce de uma personagem de segunda, um agora-apetece-descrever-uma-libéria-cristina, e transforma-se (repita-se: sem culpa dela e, quase que se apostaria! Sem grande vontade também!) numa heroína de obra trágica, a portadora do vírus da destruição total, enfim, coisas dramáticas que ainda estão por inventar a esta altura da história. Assim sendo, é nossa obrigação literária tratá-la com o respeito que merece: tiremos-lhe, pois, o artigo definido e regressemos à voz do primeiro parágrafo, que está, neste preciso momento, a esfregar as partes que sofreram mais com a queda pelas escadas abaixo.

Os corredores e escadas do cérebro não são susceptíveis de mapear com facilidade, já que possuem uma irritante mania de mudarem de sítio, abrirem para outras portas, fecharem saídas, tornarem-se intermináveis, compridos, infernalmente infinitos, parados sem irem dar a lugar nenhum, um labirinto incompreensível para a grande maioria dos detentores de cérebros. A voz interior de (agora sem artigo definido) Libéria Cristina gostava de se sentir em cima dos acontecimentos e tinha escolhido, como residência permanente, o sotão do andar mais alto com vista, que Libéria Cristina disponibilizava com alguma má vontade (como se sabe). Sem razão. Aquele arranjinho era simpático para as duas, já que a voz podia sempre fazer de conta que naquele momento estava entretida a observar outras coisas pela janela e nem se tinha dado conta disto ou daquilo, quando não estava para ser incomodada; e Libéria Cristina podia sempre alegar que não ouvia nada já que a outra fechava a porta.

Que era exactamente o que tinha acontecido desde que a voz, acordando de repente de uma série de exercícios de meditação - sob a a forma de cálculo de raízes quadradas - para se manter musculada, se tinha posto aos gritos a chamar Libéria Cristina que, por sua vez, tinha feito de conta que não tinha ouvido nada e tinha prosseguido com o seu afazer entre mãos.

A voz calou-se e começou a calcular probabilidades e vias de comunicação; que o caso era sério e afigurava-se necessário uma abordagem mais indirecta. Estava em causa a sua própria existência, pois se o cérebro estoirasse num frente-a-frente com a realidade, lá se iam escadas, sotãos com vista e outras regalias, até à próxima encarnação.

Liberiazinha, decidiu a voz. Liberiazinha! Estás a ouvir agora? Vê lá tu que tinha a porta fechada e se calhar nem me ouviste chamar! Olha, era para te perguntar se acaso já viste algum anúncio de quartos a ver se dormes sossegadinha esta noite, que estava aqui distraída a ver uns ratos ali naquele canto que iam com uns sacos e a puxarem umas malas com rodinhas e nem vi por onde é que ias...viste?

- Vi o quê?! perguntou Libéria Cristina com muitos maus modos.
- Os ratos, minha linda, os tais ratos!
- Não vi nada disso!
- Ah. E quartos?
- Também não, mas vamos andando...
- É melhor é, que se faz tarde.

Libéria Cristina saiu da sua imobilidade e começou a mover-se. A voz foi subindo as escadas para o seu sótão muito devagarinho, a fazer de conta que nem tinha visto a ponta do sacho, ainda com as marcas, a ser arrumado à sucapa na mala.

Quando chegou lá acima, fechou a porta com muito cuidado e foi a correr para a janela. Era o que esperava. Jacinto Jagunço Facínora (Júnior) eventual potencial engajador de promissoras futuras profissionais de vida fácil e vistorias médicas regulares (a informação estava no ficheiro virtual que acompanhava sempre as vistas da voz, numa transparência de dados sobrepostos à imagem, processados pelo centro computacional de Libéria Cristina) tinha tocado num braço feminino pela última vez na vida e estrebuchava ainda, agarrado à falta de um pedaço de jugular.

A voz suspirou. O caso era grave.

Nessa altura o turno de manutenção do centro computacional foi rendido e a transparência alterou-se. Que estranho, pensou a voz. O que é isto, um vírus? O ficheiro apresentou um aviso de possibilidade de mismatch de identificação e as novas coordenadas surgiram, vindas de uma outra voz já a sumir-se, que acenava ainda desesperadamente do alto da janela respectiva: Jacinto Janeiro Figueiredo (Júnior), estudante, angariador de respostas ao público, para pesquisas de mercado sobre amostras de novos produtos do sector alimentar.

O caso era ainda mais grave. E depois, havia ainda o problema do protocolo assinado com as vozes mentais dos restantes seres vivos que nunca tinha ficado bem definido nos termos da solidariedade póstuma. A voz fez o que lhe era humanamente possível, naquele preciso momento: ligou a televisão do quarto no tvshop e preparou-se para um longo período de reflexão, enquanto Libéria Cristina prosseguia no seu caminho sem entraves, em direcção a sabemos lá nós, aqui e agora.

(o próximo capítulo será escrito pela China Blue)

24.5.06

carta

Ainda tenho o presente que me deste quando fiz nove anos.
Chegava e ia logo procurar-te a casa. Ou aparecias tu, pouco depois de a minha avó dizer que já lá tinhas passado duas vezes à nossa procura. Ficávamos na biblioteca ou caminhávamos de noite pelas ruas, a falar ou a estar calados. Fumava passas dos teus cigarros.
Conseguias persuadir o dono do café, já de porta fechada, a voltar a aquecer o óleo, porque gostavas de me ver comer pratadas de batatas fritas com maionese às duas da manhã. Permitias que gastasse o gás do teu isqueiro só porque eu gostava de brincar com o fogo.
No meu ombro, ou no meu colo, encostavas a cabeça. Fazia-te festas e tu dizias que eras meu filho. Porque eu te dava mimo. Eu, pensava-te o meu amigo mais velho, e o melhor, porque eras meu confidente. A atenção que concedias às mazelas que manchavam as minhas pernas de tonalidades roxas ou esverdeadas (aquela já está a ficar verde, está quase boa), comovia-me.
Quando estava longe (que era quase sempre) enviavas-me cartas. Eram guardadas numa caixa, que se perdeu numa das minhas mudanças. Ainda espero encontrá-la. As que recebias na volta do correio quis algumas vezes ir pedi-las à tua mãe, mas nunca tive coragem. Agora deve ser tarde.
Era habitual levares passageiros na mota, por vezes mais do que dois, em passeios pelos pinhais e quintas, pelas veredas entre muros e silvados, ladeando as vinhas, os milharais. Outras vezes ia só contigo. Saíamos da aldeia e mostravas-me lugares e nomes.
Fomos um dia à cidade, às escondidas. Dessa vez recomendaste que te abraçasse com força a cintura, era mais seguro e menos cansativo; ainda era longe. Quiseste que conhecesse os teus percursos, o teu café, a tua casa, o liceu, a fachada do bar onde ias à noite. Nessa altura, tinhas o hábito de me apertar o nariz ou puxar-me de lado pelos ombros, num gesto fraterno. À volta da mesa com o tampo de feltro verde, jogávamos cartas e pousavas a mão no meu braço, quando era a minha vez. Acusavas-me de fazer batota, mas nós bem sabíamos por que eras sempre tu quem ganhava, e admirávamos-te por nos ludibriares tão bem.
Voltei uma noite e revelaste o teu receio, entretanto quase dissipado, de que tivesse estado a apaixonar-me por ti. A gargalhada que saltou da minha boca desfez-se na confusão do teu rosto, no seu sorriso desmaiado, no desconcerto. Ainda pensava, então, que estar apaixonada significava o mesmo que cobiçar pessoas muito atraentes.
Primeiro instalou-se o constrangimento. Depois tu morreste.

23.5.06

O Folhetim da SOCA: De como desapareceram os ratos de um momento para o outro

Quando a Libéria Cristina saiu do autocarro, carreira via indirecta desde a aldeia de Onde Judas Perdeu As Botas até à cidade, trazia duas certezas na vida: nunca mais regressaria a Onde Judas Perdeu As Botas. E também não ia ser puta.

Se as cidades estremecessem antes de serem fulminadas por fenómenos da natureza, ventos ciclónicos e tempestades de raios, árvores a voar e maremotos, toda a gente teria a vida mais facilitada e, ao primeiro tremor, pessoas, animais domésticos e veículos atulhados de bens, seriam vistos a abandonar as premissas, o mais rápida e desorganizadamente possível. Mas as cidades mantêm-se quedas e sossegadas até ao momento do tarde demais, quando o céu tomba sobre as cabeças e já não há nada a fazer senão entrar em pânico e correr para lugar nenhum. Terá sido por esta razão que o chão se manteve na mesma, apesar de ter sido pisado, pela primeira vez, pelos pés da Libéria Cristina, isto não obstante ninguém a poder acusar de ser um peso-pluma.

A Libéria Cristina não era gorda. Nem era especialmente alta. Era apenas uma rapariga que ocupava espaço e que descia agora os degraus do autocarro com uma mala na mão, a atenção já em eventuais potenciais engajadores de rapariguinhas inocentes, com ofertas de bons salários, horários reduzidos e vistorias médicas regulares. Que Onde Judas Perdeu As Botas até podia ser para lá de Onde O Vento Dá A Curva, mas a tvcabo digital chega a todo o lado: a Libéria Cristina não tinha nascido ontem e sabia das coisas.

Se os houvesse, os tais engajadores, o problema seria reconhecê-los, que toda a gente ali à volta tinha ar de ser completamente normal. Famílias à espera de família, netos a apoiarem avós, maridos a refilarem e mulheres a desculparem-se com o atraso da carreira, até alguns irmãos solícitos a ajudarem irmãs mais novas com malas. Nada de suspeitos vestidos…com roupas suspeitas e com ar, enfim, também suspeito. A Libéria Cristina suspirou de alívio quando viu que ninguém se dirigia a ela, embora, nos confins do sótão do cérebro, lhe tivesse aparecido a vozinha a segredar, pois é, mas se alguém te levasse para essa vida agora tinhas um quarto onde ficar esta noite e assim, está-se a pôr tarde.

Diga-se aqui, num parênteses explicativo, que a relação entre a Libéria Cristina e a sua voz interior nem sempre era em moldes cordatos. À Libéria Cristina custava-lhe aturar aquilo, sempre ali presente no quarto esconso do fim das escadas da mente. Mas nem tirando as escadas e fechando aquele alçapão a voz se calava. Atravessava paredes, nas alturas mais complicadas e lá ia resmungando, assim como quem não quer que libérias cristinas a oiçam, mas sabendo perfeitamente que não é esse o caso, coisas como, pois é, mas se tivesses aceite o namoro agora já tinhas casa tua e pois é, mas se não tivesses aberto a cabeça do teu padrasto à sacholada, agora escusavas de andar aí a fazer a mala às pressas – embora, no último caso, tivesse acrescentado, vê lá se te despachas que passa uma camioneta às oito. Sendo muito irritante, acabava por ter a sua utilidade.

Tal como agora, que realmente se estava a pôr tarde e a Libéria Cristina lá se pôs a caminho. A cidade, distraída com o ruído que produzem alguns milhões de pessoas, continuou sem prestar atenção, embora uma ou outra pedra de calçada, das que eram sendo pisadas, tivesse emitido um muito silencioso ai. Lá está. As cidades são como tudo o resto e as pedras da calçada estão no fim da escala de prioridades: se uma conduta da água ou uma antena de televisão tivesse apresentado reclamação por escrito em três vias e com assinatura reconhecida e ameaça de providência cautelar, a cidade talvez se tivesse posto fina e acordasse do seu torpor. Mas uma pedra da calçada aos ais, quem é que quer saber? Apenas umas ratazanas dos esgotos por baixo da rua foram capazes de ouvir e, à boa maneira dos ratos, resolveram que estava na hora de avisar todas as confrarias e preparar uma longa migração para outras paragens menos ameaçadoras.

É por essa razão e não por outra que o primeiro sinal da calamidade (que se esbatia já pela cidade numa indefinição que se poderia ter mantido eternamente, não fosse a chegada da Libéria Cristina) se consubstanciou num desaparecimento súbito de ratos e outros roedores.

O chefinho

O chefinho era um daqueles chefes que se fazem obedecer apenas por alguns.
Os outros, os que não lhe reconheciam autoridade, eram aqueles que estavam habituados a obedecer apenas a pessoas engravatadas daquelas a quem nunca se lhes viu o rabo, de tão agarrado à cadeira, e não sabiam como se comportar perante o chefinho.
Mas os alguns que lhe obedeciam dariam por ele qualquer apêndice que lhes fosse requerido. Se o chefinho precisasse um dia que alguém cortasse um braço, era ver uma correria desses alguns a ver quem chegava primeiro à faca, serra ou pedra afiada mais próxima.
Mas sempre que algum desconhecido chegava à firma e perguntava pelo chefinho, era o cabo dos trabalhos…
O chefinho está ali”, dizíamos nós, “é aquele senhor ali, enfiado em merda até ao pescoço” “sim, sim, aquele senhor que tem a pá na mão.” “claro que tenho a certeza que é o senhor engenheiro chefinho, atão não havia de ter a certeza porquê??????”oh senhor, por amor de deus, porque raio é que eu havia de estar a mangar consigo? Tou-lhe a dizer, o senhor engenheiro é aquele senhor todo borrado, com as mãos cheias de calos e os braços cheios de cortes e que está a explicar ao pessoal todo como se fazem as coisas bem feitas pelo método de fazê-las ele mesmo, agora se me dá licença tenho de continuar a meter pionéses nos pulsos pró caso do senhor engenheiro chefinho mais logo precisar duma mãozinha, assim é mais rápido, depois é só destacar pelo picotado”.

reconversão

Sempre que o via sentia que tinha chegado a casa. Antes da mudança, da ameaça. No fundo, fazia todo o sentido que, depois, ele se tivesse transformado numa prisão domiciliária.

Sem moral da história (Prólogo do Folhetim da SOCA)

Se os investigadores da polícia tivessem perguntado ao Alves do Café Primavera de Abril, se sabia alguma coisa sobre a mulher vestida de azul e verde, o Alves ter-lhes-ia dito que sim, que se lembrava perfeitamente dela. Mas não perguntaram, pois nunca se lembrariam de ir a todos os cafés da cidade, muito menos aos que ficavam do outro lado.
Lembrava-se o Alves não porque fosse uma cliente habitual. Antes pelo contrário, que se lembrava bem dela por não ser uma cliente habitual. O Café Primavera de Abril só tinha clientes habituais. Claro, havia sempre um ou dois que entravam e tomavam uma bica apressada ao balcão, compravam o tabaco e as pastilhas e nunca mais regressavam. Os outros, os homens, encostavam-se e pediam mines, enquanto as mulheres se sentavam com a bica e o copo d' água e por ali se ficavam, uns e outros, sem misturas, até que fossem horas de ir para afazeres ou vidas de nada, que o café não era fino mas a bica e mine ainda a preço em conta serviam para desfazer umas horas em companhia da raça humana.

Lembrava-se o Alves que a mulher de azul e verde tinha entrado e ido directa a uma mesa, sem pressas mas sem hesitações. Que se tinha sentado e só depois olhado e chamado, como se toda a vida conhecesse o Alves e o seu café. Não conhecia, evidentemente, que o Alves não servia bicas à mesa, quem as quisesse que as transportasse, mas qualquer coisa o fez levar a bica e o copo d'água e ainda perguntar se estava tudo bem e se não preferiria antes adoçante. Não que a mulher de azul e verde fosse bonita ou tivesse qualquer coisa que chamasse a atenção de alguém. Não. O Alves não se lembrava do que pudesse ser mas, se lhe tivessem perguntado, teria respondido qualquer coisa como, olhe a bem dizer não lhe posso adiantar os porquês mas a verdade é que lá fui à mesa servi-la. A única coisa que reparei é que parecia nova. Não é nova na idade, é nova, assim, como os bonecos das lojas, é isso. Os bonecos das lojas, perguntaria então um dos polícias, que é lá isso dos bonecos das lojas e o Alves diria, se calhar por causa das etiquetas.

Lembrava-se o Alves que a mulher de azul e verde, enquanto tomava a bica aos poucos, tinha tirado de um bolso uma data de etiquetas das de cartão que se prendem com um fio de plástico à roupa. Que as tinha rasgado e deixado depois, amachucadas no cinzeiro. Lembrava-se o Alves de pensar, ainda hei-de depois ver o que é aquilo, mas tinha-se esquecido e, quando tinha dado por ela, já os cinzeiros tinham sido limpos pela mulher que, de quando em quanto, dava a volta ao balcão e às mesas. Era isso do por causa das etiquetas que lhe teria feito pensar nos bonecos das vitrines.

Lembrava-se o Alves que a mulher de azul e verde tinha pago com uma nota e guardado o troco no bolso. Não trazia mala, perguntaria o investigador, e o Alves responderia, olhe agora que pergunta, não, veja lá que estranho e na altura nem notei.

Lembrava-se o Alves de não notar mais nada de especial. Nem alegrias nem tristezas, nem retocar o baton nem telemóvel. Só uma mulher de azul e verde a tomar uma bica sentada onde só se sentavam as mulheres dos tempos mortos que desfaziam umas horas, todos os dias.

Não se lembrou mais dela, o Alves do Café Primavera de Abril. Nem quando viu, no pasquim local, que tinham tirado um corpo do rio, de uma mulher desconhecida que não trazia nada que a pudesse identificar, nem sequer a roupa, nova, comprada num hipermercado qualquer. Não se sabe se caiu ou não, se sabia nadar, não se sabe nada.

Ainda hoje não se sabe quem era. O Alves, que se lembraria dela se lhe tivessem perguntado, também não saberia.

22.5.06

Heteronimias

A wonderwoman descobriu que pode ser...sonsa.
nunca é tarde para aprender. ou burro velho não aprende linguas, diremos algumas (wonderwomans, claro).

Outros tempos...(pequeno tempo de antena de choradeira)

Há dezenas de bloganos-luz atrás (cada blogano-luz dura aí umas seis, sete horas), bastava eu - eu! - dizer que aqui faltavam posts e tal, era vê-los cair. Agora que me demiti de Presidente da Assembleia desta Sociedade Anónima e admiti falência técnica de outros bens igualmente blogsféricos, não passo de uma pobre diaba, a existir apenas à mercê da generosidade do fundo de pensões da SOCA, olha, é a miséria que se vê. E ainda me exigem dois posts por semana para beneficiar dos serviços de bar.
Já posso tomar café descansada agora?
(Têm que ser 'posts de gaja' Como 'posts de gaja'? Era só o que me faltava, não querem lá ver isto!)

adenda: tá bem, tá bem! sapatos sapatos sapatos homens sapatos sapatos sexo sapatos sapatos novelas sapatos sapatos baton sapatos sapatos cabeleireiro sapatos sapatos sandálias chanatas mules ténis salto agulha compensados rasos tiras flores coisas às cores. serve assim?

Se eu escrever

Se eu escrever, tá tudo muito bem e toda a razão, toda a razão, concordo plenamente e tudo, nem vale a pena dizerem-me mais nada que já estou convencida do contrário, mas, oops, mesmo assim, como dizer isto? Gosto de touradas, enfim, gosto, e fugir depois logo a correr antes que me atirem os ferros, as outras sócias podem por uns posts por cima deste?

óskares

Estive a ver uns minutinhos dos Globos de Ouro da Sic. A Bárbara Guimarães apresenta os convidados e nomeados como se fossem atracções de feira. Quando a Daniela Mercury cantou os primeiros versos da Garota de Ipanema, de brinde, a apresentadora resolveu fazer coro e nem se tocou com o olhar espantado da outra, porque estava entretida a dançar ao som da sua própria voz. Depois veio outra rapariga, muito gira, que disse três vezes a palavra «facto» na mesma frase. Acho que foi a única palavra em que ela não se enganou. Os nomeados que não ganham são muito menos competentes a disfarçar o ressaibo que os seus congéneres de Hollywood. O Luís Buchinho teve a sensatez de nem tentar esboçar um sorriso. Depois cantou a Marisa com o Tim. Que cena. Se quiserem saber o resto, vejam vocês.

21.5.06

adenda

Esqueci-me da Maria?! Como poderia eu esquecer-me da Maria? No tempo da Maria não havia períodos mortos. É dela que me lembro primeiro, aliás, sempre que me arrasto até ao dashboard só para dar de comer ao bicho esfomeado. Preparo uns biscoitos, um pedaço de pão com caldo, ou uma porção de arroz trinca e penso: se cá estivesse a Maria, o bicho sempre teria uma refeição mais copiosa.

ainda ninguém caiu borda fora

Algumas repousam ao sol, no convés, enquanto a China Blue e a Krassy preparam as caipirinhas. Eu mesma estou a fazer um pesto e a Louca dispõe numa travessa uma salada às cores. A Teresa lê em voz alta, consigo ouvi-la daqui. A Mariana está a escolher um disco, a Maria Rita dança, em biquini e paréo, Crazy, dos Gnarls Barclay. Mergulhando regularmente uma caneta de aparo num frasco de tinta de escrever vermelha, a Santinha escreve receitas de barrigas de freira e papos de anjo em folhas de papel branco mate. Chega-me a voz da Beatriz, a descompor brandamente (o marido?) pelo telemovel. Debruçada sobre a amurada, a 100nada fala com um golfinho, e vai dando umas achegas à conversa em surdina entre a Alice e a Isabel, que cortam fatias de pão escuro; a última espalha protector solar sobre as costas da sempre tão calada Vera. Nunca mais recebemos cartas da Ana, comenta a 100nada. Pois não, digo eu. Grande cacofonia de vozes, a nossa, volta a 100nada. Pois é, respondo. Mas o mar continua a ter ondas, verdes na origem, brancas na espuma e azuis quando querem o céu.

.

19.5.06

cecília to the rescue

ora vamos lá ver se assim vai lá...

Errata

Não pára mas também não se configura.

Provisoriamente

enquanto não se recupera o template do costume, a SOCA não pára.

aviso á navegação

Estamos com dificuldades técnicas alheias às nossas competências (ou o blogger marou, ou houve boicote de algum macho despeitado). Pedimos desculpas pela interrupção. O programa segue (seguirá?) dentro de momentos. (Entretanto vou procurar a minha bóia, não vá a soca afundar...)

18.5.06

cabras manipuladoras

Quando um homem tem uma gaja volta e meia dá por si a fazer coisas que não faria em modo gaja-less: lavar a casa, dar prendas, jantar fora, abdicar de jogar à bola com os amigos, dar duas de treta na cama, dar duas de treta no sofá, cozinhar, roubar rosas, etc, etc. E, em instrospecção mental, repara que faz estas coisas porque tem medo de ouvir dois berros e de se deparar com uma gaja amuada, falta de sexo, e porventura alguns buracos nos boxers, quiça mesmo na pele. E acha que as gajas são umas manipuladoras.
Eu pessoalmente discordo. Eu cá acho que os meus quereres de rosas, jantares e cozinha limpa são legitimos, e deveriam vir naturalmente. Se porventura requer algum grito, tortura psicologica ou mesmo um pequeno espancamento para treinar um gajo a fazer aquilo que, do meu ponto de vista é o natural, a culpa não é minha, é da falta de inteligencia e senso comum do gajo em questão (isto digo eu).

17.5.06

os homens são toooodos iguais...

Ele há uma coisa que as gajas detestam, ainda mais do que dizerem-lhes que estão gordas, parecem mais velhas ou que o cartão não tem saldo: é um gajo virar-se para elas a meio de uma conversa (na qual, por exemplo, estão a falar mal de outra) e atalharem, de sorriso entre o idiota e o complacente: "Vocês, mulheres, são todas iguais!", após o que desata a enumerar os vícios que atribui ao género feminino e que nós sabemos só existirem nas outras - e nunca em nós nem nas nossas amigas.

Para além do primarismo óbvio da frase (é mais ou menos como dizer a um japonês, "Vocês, chineses, são todos iguais", só porque aquele também tem os olhos em bico), muitos homens não entendem que o facto de termos em comum a posse precária de uma vagina não nos transforma automaticamente numa irmandade histérica comandada a uma só voz, tipo fenómeno de massas, nem num conjunto de clones de mímica previsível, regidos em igual medida pela filhadaputice e pelos ciclos lunares. Muitos não percebem que, pontos de vista e pontos gês, nenhuma os tem e-xac-ta-men-te no mesmo sítio da do lado: o mulherio é uma grande molhada de latitudes e longitudes e de coordenadas descoordenadas.

A ideia peregrina subjacente à exclamação em causa pode ser uma de duas. A primeira, é a de que "Vocês, gajas, são todas, basicamente, umas cabras falsas, que só não se lixam mutuamente quando não podem".

Ora, lamento desiludir-vos, rapazes, mas isso não é verdade. Eu, por exemplo, que não sou totalmente estúpida, que até nem me acho um coiro por aí além e demonstro algum gosto no vestir (é claro que terão de aceitar a minha palavra quanto a isto), motivos mais do que suficientes para ser odiada, tenho muita gaja que vai à bola comigo - algumas são mesmo minhas amigas, juro!, e estariam dispostas a fazer sacrifícios por mim, tal como eu por elas. Espantoso, não é? É claro que terei aí uma boa meia dúzia que não me suporta, mas apenas porque cobiçam algo que eu tenho e que elas gostariam de ter - no que é uma dinâmica relacional comum ao género humano ( aliás, o glossário da história da humanidade, esta coisa da cobiça) e não específica do universo feminino.

Para algumas gajas, todas as outras que não as familiares ou amigas (e olha lá!), são potencialmente suas inimigas. Se não chover, vai fazer Sol. Graças aos cerebrozinhos hiperactivos com que foram dotadas, à pancada que foram levando pela vida e às frustrações que foram acumulando, conseguem prever todos os cenários possíveis de antagonismo feminil e detestar as outras com graus inusitados de rancor, mesmo sem alguma vez lhes terem dirigido a palavra. É claro que há homens que também detêm esta capacidade, mas esses, que me desculpem, são um bocado gajas (não há volta a dar-lhe). Tanto num caso como noutro, são uma minoria (sim, sou uma mulher de fé!).

A segunda ideia é a de que "Vocês são todas umas cabras manipuladoras que fazem de nós, homens, gato-sapato". E o que é que está errado neste pressuposto?, perguntam-me. Bom, let´s get one thing straight: não nos chateia por aí além que nos achem umas cabras dominadoras. Todas gostamos de elogios. O que nos irrita é que vejam a feiosa totó da vizinha de baixo igualmente capaz do mesmo grau de manipulação que nós próprias e, ainda por cima, com idênticos resultados (nisto, somos todas um bocadinho quase iguais, vá).

Na verdade, o ponto fraco onde a expressão nos toca reside essencialmente em nos acharmos (e sermos! e sermos!) únicas e absolutamente distintas das demais, inclusive da nossa irmã gémea verdadeira. Nós, gajas, somos sempre o grande amor da vida deles, a grande amiga delas, a filha (a sobrinha, a neta) favorita, a profissional insubstituível e a única mulher à face da terra capaz de guardar um segredo (que nem sob tortura confessamos - nem para efeitos de acreditação, como acontecia com os escravos romanos).

A prova de que uma gaja se crê genuinamente incomparável a outra, reside, por exemplo, na reacção típica que tem quando é traída: " Mas como é que ele me pode trocar a mim - a MIM, vejam bem! - por aquela loura mamalhuda com boca de chicharro?! " (o espanto é genuíno, notem).

Estranhamente, porém, os homens não se importam que nós digamos "Vocês, homens, são todos iguais", aliás, é para o lado que dormem melhor. Porque a questão, para eles, não é qualitativa mas quantitativa, define-se na vertical, não na horizontal. Os homens não querem saber de terem ou não os mesmos vícios ou defeitos que os outros, querem é ser melhores, aka ter mais: sacar mais gajas, ganhar mais dinheiro, ter carros mais potentes (e, numa vertente intelectual mais rara mas igualmente dah!: ler e publicar mais livros, escrever em mais revistas, ser mais deprimido, genial, olheirento e inconformado, tomar mais prozac e beber mais jamesons, etc., etc.).

Estar por cima ou por baixo do gajo do lado é, para os homens, mera questão contabilística e de tempo. A gente diz-lhes "Vocês são todos iguais" e eles pensam, "Ah, pois somos, pois somos... eu, por exemplo, sou parecido com o John Holmes da cintura para baixo, saco tantas gajas como o meu irmão mais novo e um dia terei um iate como o do Herman". Quando não estão em guerra uns com os outros a enfiarem-se balázios e granadas, os homens são tão corporativistas entre si que até dá ternura ver, a sério.

É engraçado, constatar que um gajo não perde tempo a detestar outro que não conheça ou que não lhe tenha roubado a mulher, a promoção, um bocado de terra ou o lugar de estacionamento. Por princípio, sente-se solidário para com o resto da sua raça, unida desde o big bang contra a perfídia feminina, como uma espécie de imperativo categórico gravado no seu ADN piloso. Quando há um que é encornado, por exemplo, é como se o tivessem sido todos e desenvolve-se uma espécie de corrente de entreajuda masculina, "Tu já viste o Zé, pá, a mulher encornou-o como João da contabilidade, pá, coitado....". É bonito.

No fundo, os homens são todos iguais: dizem que somos todas iguais, sem perceberem que

- a) nós não gostamos de o ouvir, porque atinge a hiperbólica noção que temos da nossa individualidade de gaja;

- b) não é verdade.

É claro que a alínea a) não se aplica a todas: algumas mulheres gostarão de o ouvir dizer e até concordarão com a questão de fundo, porque - como eu dizia - nós não somos todas iguais. CapiSce?

16.5.06

Vacina

Todas os dias ao deitar, consumia uma pequena dose de tristeza aguda.

na onda azul: never tell a secret





























josé maçãs de carvalho, never tell a secret, video-stills

o mergulho. A bóia (just in case)

15.5.06

recuerdo

A escola ficava em frente ao quartel, numa daquelas vilas suburbanas. A professora de ballet, adorada por todas as mini-bailarinas cor-de-rosa, casava naquele dia. Uma sexta-feira de Primavera em que o sol alternava com aguaceiros.
Tinha chovido. O brilho solar projectava uma luz rosada na estrada molhada, nas paredes dos prédios baixos dos anos 50, no branco caiado do quartel, onde se processava a mudança de turno da sentinela.
Enquanto as mães se despediam dos filhos, ouviu-se um burburinho, cada vez mais elevado. As crianças acorreram ao recreio, seguidas das mães e professoras.
Silêncio. Pára um carro. Sai uma noiva de branco e véu, loura e feliz. O trânsito imobiliza-se. A noiva descreve alguns passos de dança sobre a estrada. De frente para os meninos, rodopia, ri-se, mostra o vestido. O público acidental sorri e chora. Crianças, mães, condutores, transeuntes, os soldados.
Começa a cair uma chuva branca à luz, como a poalha daquelas cápsulas transparentes de souvenir, com água e neve. Para completar o cenário, atrás da noiva, um arco-íris.

14.5.06

caça aos replicants

trintas e tais. problemas de encolher os estomagos (eles e ela). topam-se uns aos outros mesmo de costas. pertencem a uma tribo dispersa, passaram de diferentes modos pelas crises dos sete anos. sobraram carreiras e filhos, para a grande maioria casada, já não casada, ou não casada. consomem afinal o que aos vinte anos acharam que não consumiam, porque eram diferentes, mas aos vinte anos a diferença é o mundo. aos trintas, a repetição é agora a subtileza da diferença, faz toda a diferença, e a cadência da repetição realiza pontes gregárias por sobre a solidão. são os horários que truncam loucuras de acordo com os caboucos fundados dos formatos heterogéneos de família. mais os empregos e as actividades liberais.
liberal, liberal: a liquidez do olhar, como uma palavra-passe por onde a tribo se encontra, desconhecida, por entre o alinhamento consentido dos percursos que diversamente trilharam.

Sózinha em casa

The Tubes - "Talk to Ya Later"

(Aqui na SOCA há quem tenha visto estes meninos ao vivo. Essa équéssa!)

13.5.06

gif animation

sobre as reclamações















Recebi algumas reclamações relativamente às havaianas ali no canto. Informo os leitores desgostados com a deselegância daquele par de chinelas que era este, acima, o par que eu verdadeiramente queria. Esforço vão, pois encontrei grande resistência. Demasiada. Sou uma blogger inexperiente e assumi esta chefia interina apenas por ser dona de um apurado sentido do dever. As chanatas ordinárias ficarão, assim, ali em cima, perturbação que desejamos provisória. Pedimos desculpa pelo incómodo e asseguramos que temos estado, dia e noite, debruçadas sobre o problema.

12.5.06

Coisas que acontecem quando se gosta mais de comer que de futebol

Ora o Porto ganhou o campeonato, não é? E se ganhar a taça vai fazer uma... uma... bifaninha??
(Entretanto lembrei-me da dobradinha, mas continuo a achar que bifaninha tambem não tá mal visto...)

Por Ana Sá Lopes
Diário da Vanessa

"A banalização do telemóvel criou a ilusão do objecto omnipresente. Numa posição de omnipresença, um objecto de paixão passou a ter a "obrigação" da resposta imediata a qualquer estímulo, sob pena de provocar o sofrimento do outro.

A angústia da perda passou a estar associada a trivialidades - pode acontecer, vertiginosa, quando se esgotou uma bateria; ocorre quando o amor se passeia displicente em lugares sem rede; e pode disparar a níveis clínicos quando o objecto amoroso, usando um direito inalienável de autodeterminação, decide desligar o telemóvel.

No amor, o telemóvel fez disparar o stress, a ansiedade, as angústias da rejeição e outras malaises de la civilisation. Um telemóvel desligado é uma providência cautelar para uma ruptura. Um presumível sintoma de infidelidade. Um fechar com a porta na cara. Um não, uma nega, uma tampa.

O telemóvel é caro, mas o amor tende a minimizar o impacto económico das medidas a que, no auge da paixão, recorre. E depois há as sms, esse deslumbrante e mais económico instrumento de sedução, mas - também ele - uma grilheta dos amantes. Os segundos de resposta, os minutos, as horas, tudo é contabilizado para avaliar o impacto de um amor.

Institucionalizados os novos rituais do enamoramento, não importa se o objecto costuma estar sequestrado na Biblioteca Nacional ou vive em audiências contínuas com díspares personalidades; se, por qualquer razão que o coração se esforça por desconhecer, não vive com o maldito computadorzinho na mão, em permanente disposição de disparar uma resposta irredutível.

O mail tem um tempo mais distendido, se excluirmos as pessoas cuja profissão as obriga a estar permanentemente em frente do computador. Estas são ainda fustigadas com o monstro do messenger, que, de borla, obriga ao diálogo contínuo.

Mas a minha amiga Vanessa, que num estado de paixão patético tem passado o último mês a escrever mails ridículos, sms ridículas e a contar os segundos da resposta, teve um destes dias um inesperado e surpreendente ataque de felicidade amoroso: recebeu uma carta. Um postal dos correios. Um envelope com selo e tudo. Quando abriu a caixa e viu que não eram só contas, ia desfalecendo. Uma carta. Uma carta? Sim, só um grande amor. "
(Obrigada)

11.5.06

Febre enrolada aos pés da cama

O calor esgota-se silenciosamente sobre os dedos como uma madrugada cansada.

Counter strike (tradução: 'tiro no pé')

Mission: kill all enemies.

Anda, pega nisso que não morde. Vá lá, um esforço, é muito simples, agarras por aqui e disparas por ali. Tem cuidado com as esquinas que dobras, as portas que abres, as escadas que sobes, as caixas que saltas. Nunca sabes se há um inimigo escondido. Mas é simples, agarras por aqui e disparas por ali. Anda, mexe-te que o tempo escasseia, tens um limite, nada dura para sempre, dispara agora, assim, isso, menos um, não te impressiones, é só sangue e tripas, pedaços de cérebro a explodir, foge para a frente, anda, veste o teu fato de assassina profissional, amarra o cabelo, arma-te até aos dentes atira em tudo o que mexe. A tua missão é simples, não sei como podes falhar, é só uma questão de agarras por aqui e disparas por ali, a pontaria é mais ou menos, se não acertares naquele acertas noutro, tens é que disparar sempre, depressa, muito depressa, não olhes para trás. Não consegues? Claro que consegues, toda a gente consegue, mas não páres. Não penses nisso, se todos têm a mesma cara que tu, achas que estás a disparar contra ti mesma? Não, não, é só um bug, isto é só um jogo, mata-os todos, arrasa com eles, todos, todos os inimigos, disparas por aqui agarras por ali. Não têm a tua cara, nada. Não és tu, são só os teus inimigos, dá cabo deles, não sejas molenga, não sejas lamecha, não sejas palerma. Não podes parar para pensar, só tens tempo de disparar. Eles disparam contra ti? Não tenhas medo, são só caras iguais à tua, anda, vá, força que o tempo está quase quase a acabar. Já os mataste a todos? Conseguiste? Vês eu não te disse? Não se morre, nunca se morre nestes jogos virtuais. Nem quando te matas a ti.
(eu disse-te que isso era um bug? Desculpa lá, era só para continuares até ao fim. Não me digas que não sabias que jogavas sempre contra ti própria...)

ó (nova) chefa!

Mude ali a chinelinha coularanja que já não a posso ver! Agora que entreguei as chaves disto à nova chefa aqui da nossa SOCA, vai ser um regabofe! Já não me preciso de preocupar com o template! Olé!
Olha e agora também não preciso de me preocupar se os meus postecos são apropriados! Ah que rica vidinha, esta de sócia minoritária! Cilinha! A tua SOCA espera por ti, trata dela!

Com tanta histeria até me esquecia: este post é um agradecimento público da SOCA (ainda uso esse chapéu de chefa mais esta vez) ao nosso comentador Bock. Que hoje, por bugs estranhos que o blogger sofreu (eu entrei em três ou quatro blogs de outras pessoas que não faço ideia quem sejam, mas juro que deixei tudo como estava), esse rapaz honesto, o Bock, ficou com acesso total à nossa SOCA. Podia ter apagado o blog, inclusivamente. Em vez disso, escreveu umas graças com os meus nicks e foi impecável.
Obrigada.

10.5.06

galheteiro

pode-se ou não amar dois homens ao mesmo tempo?
é que há de facto situações em que a ética e a moral se revelam antagónicas.
à espera do diabo, que não vem.

1, 2, 3

Estou inteira.

????

Pera lá! Agora estes dois posts iguais não aparecem no 'edit posts'! Devem estar no tal blog de outra pessoa...olhe, ófaxavor, se alguém os encontrar, importa-se de apagar o repetido? Agradecida...xacáver se este aparece...
Eu vinha aqui referir que isto é um blog colectivo e, como tal, as outras sócias poderiam também fazer o favor de se chegarem à frente só que, quando abri o blogger, com o meu user e password habituais, entrei noutro blog! Não era outro meu ou que eu conhecesse, era mesmo outro de outra pessoa qualquer. Que coisa mais marada! (o blogger deve estar todo escafiado, é o que é!)

8.5.06

Uma pequena explicação aos leitores (post chato e tal)

Os leitores merecem. :)

Quando abri este blog, resolvi que se era uma sociedade anónima, também eu seria anónima entre as outras anónimas. Fazia-me sentido, isso, que não alargasse o ego para tudo quanto fosse lado (costuma acontecer) e que os meus textos fossem apreciados, criticados, arrazados, por eles mesmos, esbatidos no meio dos das outras.

Tomada essa decisão, a '100nada' passou quase exclusivamente a participar em modo-templateando. Mas se calhar não era isso que as sócias pensavam que iria acontecer, quando lhes propus esta coisa da sociedade. Se poupei os leitores da SOCA à leitura dos meus dislates (pelo menos dos não-anónimos), a verdade é que me sinto, de certa forma, em dívida para as minhas sócias, visto que dei o nome mas não participei depois.

Com a saída do único alter-ego que aqui existia (único no sentido de haver uma única pessoa - eu - que aqui participava com dois nomes), fica essa minha dívida saldada. Sinto-me mais limpa, de certa forma, nunca me senti muito confortável a assinar como luisa c.
Coisas de gajedo, a partir de agora, assinadas por mim aqui.

demagogia

“Eu faço o sacrifício de não estar contigo e ir jogar à bola para fazer exercício e ser o homem bom que mereces ter”

Olha que apropriado!

Ali o post da Krassy em baixo!

Também eu preciso de tempo e vou fazer uma pausa. :)
Legendas possíveis:

... tenho pensado em nós....
... preciso de tempo....
...vamos fazer uma pausa...
...preciso de encontrar o meu espaço...
....
....

Vão lá carregar

Minhas amigas o site http://www.thebreastcancersite.com doa diariamente mamografias a mulheres desfavorecida numa tentativa de prevenir o cancro da mama. Para tal basta que se entre no dito site e se carregue no botãozinho: "Fund Free Mamograms" diariamente. Só isto. Sem qualquer custo económico para quem carrega. É só carregar e os patrocinadores pagam e o site doa as mamografias.
Outras formas de ajudar (e indo já tarde para o dia da mãe), é comprar presentes no site. Como presentes para as vossas amigas e amigos é coisa que se compra em diversas ocasiões, aqui fica também o link para as prendinhas.

Sejam solidários, não custa nada.

7.5.06

ainda por cima sou lerda

Ontem, recebi, como imagino ter acontecido com muita gente, um sms. Dizia que era o aniversário de uma telefónica e que receberia dez euro se enviasse aquela mensagem para 15 pessoas. Vulgar estúpida gananciosa, só vi a palavra «oferecer» e, entretida numa deslocação de automóvel em que não conduzia, lá enviei as mensagens. Relendo a mesma a quem conduzia o carro (a quem acabara de a enviar), parei: 10 euro?! Ha!, logro.
Imagino o espertinho que teve a brilhante ideia de espalhar o boato a rir-se de gozo com o dinheiro gasto pelos papalvos para ganho da telefónica. Não sei que dimensão teve mas recebi umas quatro ou cinco.
Com alastramento suficiente pode ainda ser tema de noticiário, vindo a telefónica desmentir que a manobra tenha vindo de dentro da empresa e usufruindo ainda de publicidade grátis, a sortuda. E eu, estúpida mentirosa, nem reparei que estava a enviar a 15 pessoas uma mensagem que continha a prova da sua não-veracidade: terminava com a frase «eu já recebi».

6.5.06

Não é o sê-lo ou parecê-lo: é o como usá-lo que conta

Esta questão, que me lembrei com um comentário do Katraponga, ali no post da celulite, não é assim tão linear.

Ora vamos lá mesoterapiar este assunto:

1. Sê-lo

Temos aqui a Laurinda, nome fictício. A Laurinda usa umas sainhas até ao joelho, sapatinho clássico, camisolita de cor bebé, um ar romântico de quem gostava de ser levada ao altar e sexo só depois (admito que as virgens tenham um certo efeito sobre o imaginário masculino, mas a verdade é que nunca ouvi nenhum a contar com grande entusiasmo uma foda de inauguração) e para quem existem coisas bonitas, como banhos e massagens à luz das velas e outras que são feias e porcas e que ela nem nunca jamais em tempo algum se imaginaria a fazer ou que lhe fossem feitas.

A Laurinda não tem celulite. A Laurinda tem um rabo perfeito. A Laurinda tem a sensualidade das pedras da calçada. E não percebe porque é que ninguém lhe pega, sendo ela aquela perfeição toda...


2. Parecê-lo

Temos agora aqui a Vanessa, nome fictício. A Vanessa é uma daquelas raparigas que tem um rabo cinco estrelas, totalmente irresistível, com medidas que estão nos mínimos olímpicos mas não ultrapassam os máximos não-aceitáveis, que o abana com entusiasmo q.b., é aquela gaja que, quando passa, suscita sempre comentários como foda-se que belo ganha-pão e aquilo sim é um valente cu e não há homem num raio de vários metros que não se imagine, nem que seja por momentos, agarrado àquele rabo, de mãozinhas apespegadas uma da cada lado para encaixar melhor todo o restante material envolvido na ideia.

Depois, lá sai a taluda a um dos potenciais pretendentes àquele rabo que parece bestial, a coisa anda conforme os conformes e eis finalmente o rapaz frente ao rabo, oferecido e desnudo, da Vanessa. Nessa altura, isto supondo que existe atenção suficiente para apreciar, com os olhos, o estado menos liso da pele, diz o Almerindo, nome fictício, à Vanessa:

Epá, desculpa lá. Já se me foi a tusa toda. Tens celulite e isso é uma daquelas coisas que me dá cabo da líbido, é pior ainda que uma falha do Ricardo. Escusas de mo por à frente da cara! E tira já a boca daí, não me lambas dessa maneira que não vale a pena! Olha: faz uma mesoterapia e depois telefona.

Está-se mesmo a ver que sim, não é?


PS: claro, depois temos as dois-em-um, que incluem todas as sócias aqui da nossa SOCA, mas prontos, são mais raras...:)

PS2: Encontrei a pic ideal para ilustrar este post, mas não vá cair o carmo e a trindade, optei por deixar o link. (sim, aquela dos cabelos no ar, mas atentai nas ancas e coxas)

flanzinhas

A Krassy, no post abaixo, aborda um assunto importante, sobretudo nesta época do ano. Já tinha chegado a esta problemática pela mão de uma amiga preocupada, ciente de estar a minha estupidez crónica a colidir com o futuro e a impedir a plena fruição das alergias da Primavera.
Desconfiem, sempre, quando um homem diz que não sabe cozinhar. Que é uma absoluta nulidade com tachos, panelas e comida crua.
Gajo que é gajo pode não adivinhar os timings certos para avivar o lume, nem ter o menor jeito para apurar a carne ao longo do tempo. Mas sabe quase sempre como obter um bom ponto de rebuçado para a seguir deixar uma gaja em banho-maria. Claro que isto acontece porque há mulheres que têm uma verdadeira vocação para pudim.

Uma tampa é uma tampa é uma tampa



"No amor, as mulheres, antigamente, eram mais simples. Dizê-lo é um risco, mas vem aí o tempero: a maioria era menos feliz. A simplicidade tinha, contudo, vantagens: antes de o "psicologismo" ter invadido praticamente todos os campos de acção, públicos e privados, as pessoas acreditavam que as coisas são como são. Conformavam-se. Faziam croché, piqueniques, tratavam das coisas. Ou então, se era para morrer, morriam (mas era menos de amor que de tuberculose).

Hoje, as mulheres nem morrem nem saem de cima. Acreditam, com uma fé bebida na mutação rápida das relações afectivas, que as coisas mudam. [O caso mais patético e, digamos, mitológico é, como toda a gente sabe menos as implicadas, aquela crença religiosa em que 'ele' se vai separar da mulher]. Talvez as mulheres tenham perdido a sabedoria de identificar o amor, ou a sua possibilidade. Admitem que os mais esconsos sinais podem ter "várias leituras" (a propagação da semiologia também contribuiu para a doença).

Arrisco esta generalização porque conheço a Vanessa, que um dia achou promissora uma criatura que passou um jantar inteiro a suspirar (era de enfado, mas ela achou que havia naquilo uma emoção qualquer), outra que adormeceu e ressonou no cinema e uma terceira que acordou a meio da noite a gritar "amo-te, Maria".

Mas, se calhar, não arriscava a generalização se não tivesse chegado às livrarias um livro dirigido ao público feminino, que quer elucidar as mulheres nos mistérios da alma masculina, ensinando-as que quando um tipo não telefona é porque não está para aí virado. A coisa, que recentemente foi traduzida para português, chama-se Ele não está assim tão interessado e foi um sucesso nos Estados Unidos. Ali pode aprender-se que "um homem sabe usar o telefone" e que os homens quando estão interessados numa mulher telefonam.

Embora a política tenha alguma coisa em comum com o amor (foi no território irracional dos "afectos" que o populismo aprendeu tudo o que tinha a saber), foi mais ou menos interiorizado o saber do dr. Salazar segundo o qual "em política o que parece é". No amor, a resistência ao que parece é imensa. Não fora o mercado promissor, ninguém escrevia livros a explicar que uma tampa é uma tampa é uma tampa é uma tampa. "

5.5.06

Coser a boca [Operação fio-dental 2006]

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Bebi dois esta semana...ando enjoada e tudo me sabe a palha. Confirma-se, é do melhor que já inventaram! :)

à la petite campagne

vai inaugurar o campo pequeno. será que vai virar a capital dos bigodes em voluta dos marialvas monarquicos deste país à beira mar plantado? é que parece uma condição indeslassável, bigodes em voluta, toiros e autocolantes monarquicos no rabo dos automóveis. salvem-se os toiros... e as corridas. o resto...bah

4.5.06

(suspiro)



A uma gaja boa não basta só parecê-lo; tem também de sê-lo.
Rendo-me à evidência: comprei um creme para a celulite.

01.02.03 04.05.06

Anda a passar um mail (também ouvi de manhã na radio) com a informação de que hoje, quando passavam 2 minutos e 3 segundos da uma da manhã, a data esteve assim como tenho no titulo e que nunca mais se vai repetir...

Acho brilhante! Aliás, até gostava de conhecer a pessoa que se deu ao trabalho de começar este e-mail e algumas das que decidiram reencaminhá-lo nas suas primeiras horas de vida (pode-se dizer que um e-mail tem vida?). Sinceramente...fizeram o quê? Uma espécie de festa de passagem de segundo? Fizeram um brinde? E já agora, quando foram 06h 05m e 04'' de 04.05.06...acordaram de novo para festejar o momento único que é ter a data em capicua?

Desde já aviso que estou ansiosa para que cheguem as 12h 34m 56'' de 07.08.09...prometo que será a loucura descontrolada esteja onde estiver (pelo menos é a uma hora decente).

Desculpem, agora tenho que ir...estou quase atrasada para a comemoração das 13h 51m 35''. Diz que este segundo não se volta a repetir na minha vida.
Quando um gajo não quer magoar os bichinhos e opta por comer só vegetais, que opção deve tomar no que concerne o cultivo dos mesmos? Será melhor um gajo deitar uns adubos e uns pesticidas e com isso prejudicar alguns bichinhos que moram na natureza? Ou será melhor um gajo usar estrume, sabendo que para isso é preciso confinar alguns bichinhos a um espaço pequeno?
Já agora, quando um vegetariano apanha uma maça com bicho, que faz ao bicho? Vai pô-lo à macieira mais próxima? E se vir uma aranha e uma centopeia e um ninho de vespas no tecto lá de casa?
É que eu cá até tenho pena dos bichos dos matadouros e dos ratos do laboratório. Ainda mais pena de peixes em aquários minúsculos, de cavalos a fazer salamaleques, de cães em apartamentos e de gatos a atirar-se de varandas.
Já aranhas e centopeias são mortas a golpe de chinelo, aperto de guardanapo e dois ou três gritos histéricos (Às vezes aspiro-as. Já pensei em aspirar também um bocadito de insecticida depois de aspirar centopeias, só para elas não voltarem a rastejar cá para fora, ou pior ainda, para elas não confraternizarem e fazerem filhinhos com a demais bicharada que mora dentro do meu aspirador). Das moscas nem quero falar…

3.5.06

Mas o que é isto?



Tudo a reclamar, tudo a protestar, cheínhos de razão, e as minhas amigas a mandriar???
Deixem lá o bronzaline, o comando da televisão e as esplanadas.
Vá, vá, tudo aos comandos do teclado.
Aiiiiiii....Vejam ao que nós chegámos:

J. Casanova said...
Bem e então as meninas vão de vacances e a sociedade fica entregue a quem? Quem é a nº dois desta coisa, onde é que está o livro amarelo, de quem é a responsabilidade deste marasmo? Minhas amigas estamos na Europa. Ainda se fosse Nice, Cannes, a Côte d'azur... agora fonte da telha...vejam lá isto faz favor.

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