29.9.06

Deixa-me cá então dizer só mais uma coisa

Eu já fiz um aborto. Não foi um aborto propositado, foi derivado a uma situação dum embrião que se encontrava dentro de mim e que não desenvolvia tendo portanto que ser retirado (eventualmente até acabaria por sair por si mas hoje em dia quando algo está mal a gente precisa sempre de soluções imediatas para pudermos voltar asap ao business as usual sem pensarmos muito no porquê das coisas acontecerem). Eu tive que fazer um aborto e a primeira coisa que me passou pela cabeça foi que a culpa de toda aquela situação tinha sido minha. Pedi mil desculpas ao embrião, ao pai dele e à irmã que não chegou a sê-lo. Achei mesmo e durante muito tempo que a culpa era minha, que eu não estava preparada, que não tinha tomado as precauções e cuidados devidos e que aquilo era um castigo.

No hospital onde estive internada fui muito bem tratada apesar de ter que partilhar o quarto com uma parturiente e mais o seu bebé recém-nascido o que é duma violência psicológica sem nome para uma mulher que acabou de perder um projecto de filho muito desejado. Lá iniciaram o tratamento expulsivo recorrendo ao medicamento de nome cytotec que não tendo nada a ver acaba por ser um abortivo eficaz especialmente nestes casos de gravidezes de poucas semanas. Passaram-me uma receita para ir aviar o dito numa farmácia pois o tratamento devia ser efectuado durante uma semana, ao fim da qual a situação teria que ser reavaliada para verem se teriam que efectuar uma raspagem.

Saí do hospital em estado psicológico caótico e dirigi-me a uma farmácia nos arredores de Lisboa onde assim que viram o fármaco prescrito na receita olharam-me logo de lado. A técnica que me atendeu disse-me que não me podia vender aquilo assim sem mais nem menos. Chamou outra doutora que continuando a olhar-me de lado me fez uma série de perguntas para confirmar se era efectivamente o cytotec que eu queria e para que era que eu o queria. Expliquei a situação e a doutora disse-me que precisava dum relatório médico para aviar aquilo nessa situação (em que o medicamento era para ser usado como abortivo). Para além de me sentir culpada pelo que se tinha passado ainda senti que me estavam a dificultar o acesso à terapêutica receitada pelo médico por possivelmente acharem que eu era uma criminosa que queria o cytotec para ir abortar ou para ir vender no mercado negro.

A farmacêutica acabou por me vender o medicamento mas tive que lhe deixar os meus dados, apresentei o meu bilhete de identidade e tudo (será que iriam fazer queixa de mim?!) Deixei também os contactos da minha médica e apresentei a factura do hospital onde tinha sido internada. E mesmo assim senti que tinha sido tratada abaixo de cão… imagino o que não sentem mulheres desesperadas que compram o cytotec no mercado negro por dez ou vinte vezes o valor dele e usam aquilo sem qualquer indicação e sem seguirem a posologia indicada pelo médico. E escuso-me de falar aqui das reacções adversas do dito porque durante uma semana andei dobrada com dores abdominais fortíssimas de tal forma que cheguei a dizer a alguém que tinha sofrido menos durante o parto da criança mais velha do que nesses dias em que andei a tomar o cytotec!

28.9.06

Tava aqui a ver

Já que é assunto do qual se fala muito e já que estamos entre mulheres e mesmo sendo assunto que não seja grato a algumas (esperando que não a todas) venho deste modo dar o meu contributo como cidadã deste miserável rectângulo e espetar a minha opinião no espaço público que aqui ocupo. Quem não gostar passe à frente, ou opine em contrário, ou reaja da maneira que bem entender desde que não fique indiferente! O que interessa neste momento é que as pessoas reclamem, e metam na cabeça que isto não é um problema individual e que se cheguem à frente na hora de votar!

Eu vou votar a favor da despenalização do aborto no próximo referendo. Conhecendo este país como conheço, se o "sim" ganhar até que as coisas se alterem de facto talvez isso venha a beneficiar a geração das nossas netas. Já li muita coisa sobre o assunto em muitos lados e na realidade não quero saber porque razão as pessoas tanto levam a peito uma situação que não lhes diz directamente respeito. O aborto não é um tema que diga respeito aos homens mas no entanto são eles que o legislam e como tal acham que têm que preservar qualquer coisa que sentem que deve ser preservada. Também não diz respeito às classes médias/altas até porque toda a gente sabe, e até conhece, mulheres com poder económico que dão um saltinho ali a Espanha e tratam do assunto sem grande espiga.

Eu voto a favor porque sei que ter um filho, mesmo que seja programado ao milímetro, não é fácil. Ninguém sabe o impacto que causa a vinda duma criança pela qual somos responsáveis no mínimo durante uns vinte anos. Ninguém pode dizer que arranja soluções fáceis para quando as crianças não são tudo aquilo que nós esperávamos e não nos proporcionam uma vida plena e mais tranquila e sei lá mais que baboseiras já eu ouvi dos que acham que devemos aceitar ter uma catrefada de filhos só porque podemos. Nesta sociedade em que vivemos, ninguém pode obrigar uma mulher a ser mãe. Em última análise, nem o estado pode obrigar uma mulher a ser mãe!

Claro que há mil maneiras de precaver uma gravidez indesejada e nós sabemos bem quais são. E também sabemos que essas mil maneiras também podem falhar e falham porque nenhum dos contraceptivos é 100% fiável. Mas um momento de prazer não pode, nem deve, condicionar toda uma vida. O argumento que eu percebo menos é aquele em que se diz que se a pessoa erra deve assumir os erros que cometeu. Neste caso em específico, a mulher que errou tem que carregar esse estigma e pagar por ele durante toda a vida caso venha a ter um filho que não desejou nem quer? E por mulheres que carregam estigmas estamos obviamente a falar das camadas mais desfavorecidas da população porque o dinheiro neste caso resolve mesmo o problema.

Pois discuta-se, reclame-se, inflamadamente ou nem por isso, mas espero que se vote! Que se mexam os reais traseiros que para comprar tabaco ou ir tomar um cafezinho ou seja o que for estão sempre prontos, mas para ajudar a liberalizar uma lei que está caduca face à condição da mulher como cidadã participativa de pleno direito numa sociedade que se quer progressiva, tá quieto ó real traseiro!

brincar sozinha - a retoma

Na falta de mão de obra disponível, as letras têm-se revelado uma bela terapia de substituição, num esforço meritório de efeito placebo.

27.9.06

26.9.06

Vamo lá mazé ao quintressa

Hoje eu de chinelocas (long story, um calcanhar para obras no primeiro e único dia de sapatos fechados sem meias) a conversar com um par de botas.
Minhas amigas, o que havemos nós de calçar nesta altura do ano? (suspiro) Tão difícil isto, tão difícil...

25.9.06

O que alguns /algumas bloggers pensam das pessoas que pensam como aquilo que é descrito nos dois posts abaixo

Ok. Adiante, siga.

24.9.06

O que alguns deles pensam das bloggers comá gente II

"Bloguistas que se acham famosas! Gajas normais, iguais às outras! Gajas que passam por nós na rua, e que gostavam de ser de plástico, e que vêm para a blogosfera armar-se em grandes boazonas, mas que não valem nada, que são rídículas. Que vêm para a blogosfera meter-se com gajos que lhes põem os cornos no mês seguinte. Vivem grandes paixões, ai, ai, grandes paixões, com gajos casados com quem se encontram às escondidas. Ai, ai. Eu já tive a minha dose de gajas assim. De plástico, convencidas que não são, mas a quererem ser. De silicone. Burrinhas todas que se acham grande coisa."

O que alguns deles pensam das bloggers comá gente I

"Fazem-se santinhas cultas e lá acertam nas palavras, mas o que querem é homens para se meterem em cima delas e dar vazão ao que aprendem nas revistas femininas que lêem, e ao que julgam ser o politicamente correcto. Temos de lhes dar o ámen. Vazias. Temos de as educar. Venham essas tolas de licenciatura, iguais às outras, sem licenciatura, mas, ao menos, sem manias."

Ai as minhas cruzes!

(Post dedicado ao Sr. Animal)

Foi desta que se pôs finalmente fim às manigâncias virtuais com que me entretinha, e só deus sabe com quanta dificuldade que estas artroses dão-me cabo dos dedos e escrever uma palavrinha que seja demora-me eternidades! Pois eu, Adozinda da Silva aqui e agora me confesso! Durante mais de 60 anos tive desejos inconfessáveis de ser stripper num bar de alterne. Mesmo quando já quase não podia andar ainda sonhava com todo aquele fascínio das luzes e do espectáculo e dos corpos desnudos ali a bambolearam-se ao sabor da música. Haja quem me venha dizer que uma senhora de 84 anos não tem desejos inconfessáveis que leva logo uma mocada no trombil que eu posso estar senil e esclerosada mas ainda tenho força para levantar a minha bengala e ferrá-la num certo sítio!

Tenho desejos inconfessáveis sim e desde que me conheço! E nisso sou maior do que toda essa mocidade que por aí anda a benzer-se e a rezar aos caídos por causa do pecado e dos ciúmes e das traições. Dizia-me o meu pai Santiago que eu não era coisa boa e que saía à minha mãe que se finou na hora em que nasci. Fui concebida em pecado porque ela não era a sua legítima e toda a minha vida carreguei este fardo comigo, mesmo que ele ao fim de alguns anos lá me tenha reconhecido pois se até de perto me confundiam com ele! Por ser filha de quem sou todos os mancebos da aldeia achavam que eu era mulher fácil. Andavam sempre uns quantos à minha roda e eu morrendo-me de amores pelas estrelas de cinema da altura, elas sim, mulheres bonitas e encantadoras e imaculadas! Naqueles breves momentos em que embevecida as adorava, eu e mais todos os pacóvios da aldeia onde nasci e cresci, pois ninguém se levantava a falar do pecado, pois não! Ali só se levantavam os membros dos ditos pacóvios incluindo o do senhor padre cura que ó menos se assumia ali homem, acima de todos os outros cargos e responsabilidades (e que não eram assim tão poucos pois também ele tinha uns quantos filhos a cargo!)

O que me deu na cabeça para me casar com o meu primo Quim e vir morar para a cidade ainda estou eu para saber! Eu que sonhava em ser estrela de cinema, nem que fosse desses mais ousados em que a gente tem que se despir para ganhar uns míseros trocos mas pelo menos valemos pelo prazer que fingimos ter, amarrei-me ali a um homem, que não sendo dos piorzitos também me fez passar por muitas e nada boas. Eu sabia que ele me enganava, toda a vida o soube! Ele nem se esforçava muito por esconder achando que eu ficaria calada e muito agradecida por ter havido quem tivesse pegado em mim. Mas eu nunca me calei! Chaguei-lhe tanto o juízo que o homem morreu envenenado só de me ouvir! Enfim, em bom rigor o arsénico que lhe juntava no chá calmante que tomava ao fim da noite lá surtiu os efeitos desejados e felizmente fiquei viúva cedo!

E eu tive os meus tempos áureos sim! Tive muitos amantes nessa altura, homens que se apaixonaram perdidamente por mim! Muitos chegavam a dizer-me que fariam de mim a mulher mais feliz do mundo mas eu nunca mais quis nenhum! Deixei de acreditar no amor, acho que nunca mais acreditei nele desde esses tempos em que me apaixonava pelas estrelas de cinema. Depois da morte do Quim jurei para mim mesma que nunca mais seria enganada e preferia mil vezes ser amante a legítima! Ao menos as amantes sabem com o que contam, e só são enganadas se quiserem, se forem parvas e se deixarem levar pela conversa dos homens que as desinquietam. Se era sexo o que eles queriam de mim, era isso mesmo que eu lhes dava! É difícil agora pensarem em mim assim, mas por dentro o fogo ainda arde tal como há 40 anos atrás!

Talvez seja uma visionária, gostaria de pensar que sim! Não tenho vergonha nenhuma de assumir os desejos inconfessáveis que me assolam e que não esmorecem com o passar do tempo! Eu sou muito mulher ainda, apesar das rugas, e dos cabelos brancos e das peles que sobram onde não deviam e que escasseiam onde deviam sobrar. Vivi muito e com muita intensidade e se hoje não passo duma vizinha da frente cheia de artroses e quase transparente aos olhos dos jovens que comigo se cruzam, pois fiquem sabendo esses jovens que esta mulher que já muito viveu ainda está aqui para as curvas! E que preferia mil vezes morrer ao cabo dum gigantesco orgasmo do que ser carcomida pelos nódulos cancerígenos que em mim alastram. E que não quero ninguém a chorar no meu funeral! Quero que mandem vir umas strippers e que façam dele uma festa! Quero meninas semi-nuas a dançarem em cima do meu caixão e que com essa fascinante imagem me providenciem uma condigna despedida desta vida miserável que tão pouco tempo durou!

21.9.06

Modelos errados

Hoje sou eu que venho aproveitar-me deste espaço público tão gentilmente cedido (e nada merecido) para me pôr aqui a reclamar porque no fundo a vida corre-me mal e a culpa é sempre de todos os outros menos minha, e hoje até decidi que a culpa é da sociedade em geral o que facilita a minha acusação pois que a sociedade sempre é uma gaja de costas largas e com muito arcaboiço para aguentar estas reclamações e muitas mais!

Hoje não é do tempo que me queixo embora o raio da chuva não me tenha deixado dormir decentemente mas se calhar é também por isso que hoje me sinto assim tão inconveniente! E também não é da falta de companhia que sinto mais numas noites que noutras que hoje passei a noite toda a ouvir o vizinho do lado a ressonar e a mulher a reclamar e eu penso que ao menos eu tenho a sorte de não ter que aturar uma mulher daquelas todas as noites que se eu fosse ao desgraçado do gajo já me tinha mudado que uma pessoa já nem pode ressonar em paz sem haver quem reclame!

O que eu venho aqui dizer é que sinto, penso e acho que os nossos modelos estão errados! Não há outra maneira de dizê-lo sem ser assim mesmo de chofre e a direito. Esta coisa do matrimónio para o resto da vida e nem pensar em olhar para o vizinho ou vizinha do lado que nos caem logo todos em cima com o pecado e o inferno e o fogo que tudo queima e a gente fogo a bem dizer só conhece um e é esse precisamente que nos impele a olhar para o vizinho ou vizinha do lado pois que a relva é sempre mais bonita e saborosa lá do outro lado que daqui a gente não vê as minhocas nem as ervas daninhas nem as pragas do Egipto que assolam todos os relvados mas que às vezes nos parece que é só mesmo o nosso!

Portanto aqui me declaro contra a monogamia e a fidelidade tal como o mundo dito civilizado a preconizam. É que simplesmente a coisa não dá meus amigos. Não tem pernas para andar! E pensar que há gente, coitados, que se esforçam toda a vida até ficarem azulinhos e tesos para todo o sempre, e nessa vida toda que podiam ter aproveitado mais ficaram ali agarradinhos ao terço e a quem sabe o que mais a rezarem e a rezarem e a reprimirem-se por alma de quem? Mesmo que eu acreditasse em deus (e eu não acredito mas isso é outra longuíssima história que se deus existisse haveria de ser um cabrão de um sádico e hoje já me estou a esticar o suficiente) por alma de quem haveria esse gajo de achar que nós, uns quantos biliões que andamos aqui todos aos encontrões, porque raio haveria ele de achar que nós temos que escolher um parceiro e que há-de ser o mesmo para o resto da nossa vida? Ainda por cima nós mulheres temos um ciclo reprodutor relativamente curto, diria eu que são para aí uns 20 anos se tanto o que é para aí um quarto da nossa vida, e portanto escolher um gajo para pai dos nossos filhos e depois gramá-lo para o resto da eternidade só porque sim?!

Comigo a coisa não cola! Não acredito na capacidade de ninguém em ser monógamo e fiel e os que mais juram a pés juntos que são, até se vai a ver e na volta são os que são menos! E depois é aquela coisa muito chata de definir onde estão as fronteiras que se para algumas mulheres a gente olha de lado e já tá a querer comer o gajo, para alguns homens a penetração nem sequer conta como traição! Se as fronteiras são assim tão ténues e se os modelos são assim tão castradores, algo está mal e muito mal!

Porque não assumimos logo e já que somos todos adeptos do amor livre? Que as pessoas dão-se a quem quiserem e quando quiserem sem terem que assinar papéis e jurarem a pés juntos que aquele anel que levam no dedo bem podem levá-lo num certo sítio e tão apertado que não terão coragem de o pôr em pé a não ser com a legítima? É que às vezes me parece que as coisas podiam ser muito mais simples se as regras fossem outras. E não digo que a gente não goste muito de algumas pessoas e que seja até possível gostar muito delas, e querer comê-las, durante muitos e longos anos. Mas é que realmente esta coisa de a gente ter que escolher só mesmo uma no meio de tantas, e depois ter que a gramar até ao fim dos nossos dias quer se goste quer não, e mais ainda termos que nos castigar pelos olhares indecorosos que lançamos ao vizinho da frente, isso é que sinceramente não!

Prontos, agora vou ali arrumar o meu banquinho e esconder-me durante alguns dias até que os insultos acalmem que eu cá gosto de reclamar mas nem por isso gosto de me pôr a jeito para apanhar!

serviço público

Sirvam-se...

relativibloguidade

Sociedade Anónima em época alta: olha, mais um post...
Sociedade Anónima em época baixa (rasa): ENA, ENA!! Mais um comentário...!

19.9.06

Apropriação do talento alheio II

Mas cobramos bilhete, e eu também mudo o tampão, se não te importares!


"Nem imaginas o que me divirto a mudar o penso higiénico. É um espectáculo. Se quiseres, combinamos e tu vens cá assistir."

Cecília R., a mulher-perigo, no tal post lá em baixo.


Apropriação do talento alheio I

Um paradoxo muito simples


"O conceito de humanidade que não se coaduna com a possibilidade de alguém se divertir enquanto observa um animal a sofrer."

Cecília R. (em comentário ali em baixo aos touros!)

18.9.06


A minha flor favorita para a Mariana Martins, com um grande beijinho. Foi um prazer estar neste espaço com ela.

Com a chave debaixo do tapete

Eu sei que tenho andado fugida, mas passo por cá todos os dias. Vejo que está nas melhores mãos e encosto-me aos vossos posts.
Isto de escrever tem que se lhe diga. Se estamos tristes, desiludidas, infelizes, magoadas, as palavras saem da alma, vêm com os sentimentos. Quando temos os olhinhos a brilhar de alegria, de contentamento, de ilusão, de felicidade, enchemos o post com o coração aos saltos. Quase que o brilho dos olhos salta cá para dentro. Mas e quando nos sentimos vazias, em alturas em que parece que nada sentimos? Parece que não se soltam as palavras, a escrita fica constrangida como nós, à espera, a bater o pé, a roer as unhas, a suspirar, a olhar os outros, a fumar um cigarro, de cabeça no ar, a jogar paciências.
Oscar Wilde sabia isto muito bem: Conversation about the weather is the last refuge of the unimaginative.


Entre outras coisas, venho escrever com todas as letras que este homem é l-i-n-d-o. Já o repeti por aqui entre o final do jantar e um jeitinho na sala, mas ninguém me ligou nenhuma.
Deixem-me escrever de novo: l-i-n-d-o.


pink - stupid girl

17.9.06

O gáudio do sangue, segundo a tradição


O problema dos touros de morte, caros(as) aficcionados(as) não reside sequer no sacríficio do bicho na arena do traditionis circus, o que, considerando que é morte, apenas morte, não me parece mais indigna que a do matadouro industrial, onde nem se olha à nobreza do animal, e se ri, igualmente sem dó, do fracasso da besta perante as mãos humanas indiferentes - e conta-se uma anedota grossa ali mesmo ao lado!

O problema dos touros de morte está nesse pormenor de o circo ser espectáculo cuja tradição já deu o que tinha a dar - porque nem todas as tradições valem em energia humana e cósmica o que custa a sua manutenção, e as mentes mudam.

O problema dos touros de morte é que nenhuma tradição justifica o gaúdio do sangue. Nem a da religião. Ao Islão, criticamo-lo muito pelo derramamento de sangue. Curioso!

Para sobreviver, no que respeita ao substituível bife, ainda me calo. Mas de resto, quem aprecia os animais, a sua nobreza, o porte, movimentos, deveria observá-los no local próprio, ou seja, no pasto, na natureza. Mortos não têm grande porte, grande nobreza, etc.
Portanto, tourada, com ou sem morte, não!

16.9.06

Fazer-se notar

A única coisa que retive das muitas que a minha mãezinha me disse ao longo de toda a sua felizmente curta vida, e não estou a ser mazinha é mesmo porque a mulher levou uma vida desgraçada e cheia de sofrimento, pois a única coisa que me ficou dela foi esta clara indicação de que se a gente não se fizesse notar estávamos lixados. Claro que ela acrescentava sempre que havíamos de nos fazer notar no bom sentido e não creio que as posições por vezes horizontais que assumimos no triste espectáculo que é a vida coubessem estritamente nesse acrescento. Cada um faz-se notar com o que pode, acho que é mais isso. Há que fazer um grande chinfrim. Disso não tenho dúvidas nenhumas! Se a gente não gritar mais alto do que o resto do maralhal é difícil chegar a algum lado quando há por aí tanta boquinha para alimentar. E neste mundo cão cheio de gente por todos os lados, sermos passivos, diria mesmo bem comportadinhos, não serve. Ninguém repara em nós se não formos muito chatinhos!

Claro que há maneiras e maneiras de chatear meio mundo e o outro. Podemos ser agressivos q.b. e despertar uma enorme e gigantesca onda de ódio e repulsa em quem nos atura, mas aí é bom termos muito poder ou muito dinheiro para que não nos interesse minimamente se o pessoal está ou não bem ao pé da gente. Desde que nos obedeçam claro! E já agora que sejam subservientes também!

Depois há os que não tem dinheiro nem poder e nem sequer gostam de ser sádicos, que isto de pisar os calos tem que se lhe diga e nem todos o fazem conscientemente, e que querem ser notados pela sua arte. Arte essa que pode incluir qualquer coisa desde saber pintar, escrever, cantar ou até vestir! Qualquer coisa que cause um impacto em quem nos vê, ou nos lê, e que fique interessado ou pelo menos curioso em saber quem está por trás dessa imagem que lhes é apelativa. E agora é aqui que a porca torce o rabo porque isto do apelativo tem muito que se lhe diga. Jogar com a imagem é do mais fácil que há, embora seja do mais injusto também pois nem toda a gente nasce igual à Brigitte Bardot nem ao Brad Pitt. Mas quem tem dois palminhos de cara já é meio caminho andado para se fazer notar. Pura sorte para eles e pura injustiça para o resto de nós que temos que recorrer a outras formas de nos fazermos notar!

Não tendo dois palminhos de cara e nenhum jeito óbvio para pintar, dançar, esculpir ou cantar porque por aí também serviria, temos que nos agarrar a esta arte ingrata e inglória que é a escrita. Há mil maneiras de se dizer qualquer coisa. Há milhões de palavras e uma multiplicidade de línguas tal que acho mesmo que ninguém sabe quantas serão de facto! E nós brutos que somos pegamos numas quantas e tentamos juntá-las de forma a causar um impacto em quem está do outro lado. Não é fácil. A maior parte dos textos, livros, artigos, etc aborrecem-nos até à morte! Ou porque não percebemos do que raio está o autor a falar. Ou porque estamos totalmente fora do contexto e tudo aquilo nos passa completamente ao lado. Ou porque o texto em si presta-se a várias interpretações e nenhuma delas nos interessa minimamente. Na realidade qualquer coisa que se escreva sobre política, história, religião, valores e costumes, futebol e carros e por aí fora é tremendamente chato para quem não se interessa por nenhum desses temas! E nem me a atrevo a acrescentar mais alguns com medo de levar mais umas quantas pedradas que eu escrevo porque sou masoquista mas nem por isso gosto de me fazer notar no mau sentido!

Eu sei que há formas e maneiras e nem toda a gente tem sequer capacidade para despejar o que lhe vai na alma para o papel, ainda que virtual. Isto claro para quem traz algo em si que necessita partilhar o que nem sempre é o caso! Se retirarmos temas óbvios que são de interesse generalizado como o tempo que irá fazer amanhã porque se chover é sempre mau excepto para quem anda na agricultura mas nesse caso não terão tempo nem paciência para pensar em temas para encher posts num blog; as quecas que deram os vizinhos da frente preferencialmente se os dois andam desencontrados e andam a esconder amantes e namorados um do outro que aquilo é uma escandaleira que só visto; o dinheiro que ganhámos no euromilhões e o que faríamos com o resto que ficou para um cabrão dum gajo qualquer que nos dava muito mais jeito a nós; os filhos dos outros que são muito mais engraçados, espertos e atinados que os nossos que estes se fossem abandonados não haveria família ou lar que lhes pegasse de tão diabólicos que são; sexo muito sexo que faz sempre falta mas ninguém se acusa para não dar mau aspecto excepto os homens que dizem sempre que fazem muito e se as mulheres se põem com ar de santas a dizer que não é nada com elas ou os gajos andam a mentir ou vão todos às putas ou andam mas é a brincar uns com os outros; o amor às vezes também serve mas já ninguém tem muita pachorra para as lamechices que já passaram de moda até porque é a tal história das promessas de vidro e a gente já está um bocado decepcionada com a facilidade com que elas se partem; e a bem dizer encontrar-se qualquer baboseira para se escrever encontra-se sempre.

Mas fazê-lo com gosto, empenho, inspiração e arte… de modo a fazer-se notar por aquilo que aqui se consegue ou não transmitir, isso é que já é uma outra história completamente diferente. Hoje em dia ninguém se pode queixar de falta de tempo de antena! Portanto isto é como o tiro aos pardais. A gente manda muitos tiros mas nem sempre acerta. E estes posts acabam por ser como tiros desperdiçados e de destino incerto. Mas eu como sou casmurra e masoquista e ando há procura dum objectivo claro e definido para esta porra de vida, objectivo esse que tarda em chegar mas também estou em crer que nem me aperceberia dele se me caísse em cima dos cornos envolto numa chuva de pedregulhos… pois como ia dizendo, à falta de um objectivo claro e definido tento ávida e desesperadamente fazer-me notar! Mas é mesmo só para agradar à minha querida mãezinha que já foi desta para pior claro pois que eu cá sei muito bem qual é o meu lugar, apesar de não gostar muito nem do sítio, nem das vistas, nem da inclinação, nem da renda que pago, a bem dizer de nada de nada do que me calhou na rifa, mas que hei-de eu fazer senão continuar a escrever boçalidades e trivialidades que parece ser a única coisa que tenho gosto e prazer em fazer!

Clonagem de seres humanos



Os chineses (e o mundo inteiro!) já andam na clonagem há muitos anos, só que fazem tudo muito em segredo, em caves, e depois quando apresentam os resultados , népias!, já não há remédio.
Estas jogadoras de vólei de praia, como se vê, foram todas clonadas ao mesmo tempo, há 16 anos atrás, com o objectivo de formarem equipas imbatíveis nuns jogos olímpicos quaisquer.
As ovelhas Dolly conseguiam distinguir-se melhor. Portanto, este caso pode dizer-se que foi um sucesso!

em casa

Consola-me ir à janela e saber que os grilos do campo me seguiram até aqui. Dedicam-se todas as noites a prolongar o meu Verão, não obstante o casaco que visto e o brilho que se espalha pelo chão. Os grilos por vezes reúnem as vozes em uníssono. Falam alto.

15.9.06

coelho à caçadora com parvoíces salteadas para alimentar o bicho

Retirei os pedaços de coelho da embalagem e passei-os por água. Chegada ao último, que já vinha olhando de soslaio com ansiedade e repulsa, ponderei na melhor forma de lhe pegar. Comer bichos mortos comporta estes momentos de agonia. Olhar para uma cabeça esfolada, com olhos gelatinosos, faz-nos sentir o animal como mais próximo de ser nosso semelhante. Se deixasse de comer cadáveres, deixaria de comer qualquer cadáver: de vaca, frango, peixe. Compreendo a posição do vegetariano que age em conformidade com o que julga melhor para a sua saúde. Mas só simbolicamente faz sentido, para mim, que alguém defenda que não se coma coelho e, todavia, se for galinha ou peixe, já seja diferente. É elitista. Como se um animal, por ser mamífero (ou seja, da nossa classe) tivesse uma aura de superioridade. Afinal, afirmá-lo deste modo é apenas reforçar a nossa superioridade, por analogia. Seja como for, hoje não consegui comê-lo. Constatar que não teria vocação alguma para a caça faz-me descer de predadora para necrófaga.

Questões intelectuais

Eu acho uma graça aos intelectuais...
Vão ter comigo à linha de montagem, e patati, e patata, e "o Roland Barthes lá dizia, não era Santinha?"

Eu sei lá o que é que o Roland Barthes dizia! E mesmo que soubesse... O que eu quero é descobrir como é que hei-de passar o dia de amanhã só com 1200 calorias!

Mais uma versão genial do genial poema de Florbela Espanca

Comer!

Oh, deixem-me ser gorda, ser gorda largamente
Debicar aqui, provar além...
um folhado de salsicha, uma sandes diferente
Comer, oh, sim, comer, e não chatear ninguém!


(...)

Etc., etc., depois continuo.

14.9.06

Alto! Pára tudo!

Nem leiam o resto do post! Cliquem já aqui onde diz pinguim!

"Clicar para o pinguim cair, de imediato clicar para arremessar o pinguim.
A moral é arremessar o pinguim o mais longe possível.
O recorde aqui é 321,1 metros."

(Jimmy, pt.conversa), a quem agradeço imenso!

O meu recorde: 316 319,8. Vou atirar mais uns, té logo!

13.9.06

mas então pergunta-se já aos outros leitores!

está ali um leitor nos comentários uns posts abaixo, a mandar-me sair da SOCA. O que é que acham, obedeço?

Brigitte, je t'aime!


Adoro a Brigitte exactamente como ela é, com as rugas, e tudo, tudo o que a idade lhe trouxe, e declaro-me activista anti-plástica, e activista tudo, como ela.
Tudo o que ela diz e faz está certo. E afirmo, neste momento da minha vida, se ela me dissesse, "Santinha, vem daí, que pago-te 1300 mocas francesas para vires ser minha partenaire", não hesitava. Saltava desta cadeira e amanhã estava em Saint Tropez.

A deusa Brigitte dos anos 60, 70 é hoje melhor deusa. Adoro-a. É linda. É linda.
Prometo que tirando a depilação e a drenagem linfática e a manicure e o cabeleireiro e os cremes hidratantes e exfoliantes, não hei-de colocar mais nada neste santo corpo que Deus trouxe ao mundo num momento de barroco delírio criativo.
E prometido, é de vidro!

O prometido é de vidro

Isto, como todas as outras coisas nesta vida miserável que é a nossa, funciona sempre mais ou menos da mesma forma. No início é sempre tudo fantástico e ai que nós somos todos tão amigos e o que é bom é para durar e de preferível para sempre. Mas depois a vida atravessa-se-nos no caminho e lá se vão os planos todos por água abaixo. Há uns quantos, poucos, que ainda se agarram desesperadamente às bordas da caixa do esgoto mas nem esses desgraçados aguentam muito tempo a levar com a trampa toda que se lhes vai despejando em cima na ordem dos dois litros por minuto de água repleta de variadíssimos objectos cujo nome me escuso de apontar até porque ainda agora mesmo acabei de jantar!

E por isso e por muita vontade que a gente tenha, porque há quem tenha ainda vontade, de escrever num blog, isto é como as promessas que se fazem num casamento ou num baptizado ou até mesmo… enfim, agora ia aqui toda lançada dizer que até mesmo num funeral mas tirando o morto que já está prometido aos vermes e insectos que o hão-de carcomer todinho até dele não sobrar rasto, é que realmente um funeral não é propriamente uma coisa para ser agora aqui discutida quando estamos aqui a debater as promessas que se fazem e depois não se cumprem. Aliás a parte boa das promessas, e acreditem que sublinho a palavra boa, é mesmo o facto delas não serem para cumprir! Se uma promessa tivesse que ser cumprida sob pena da pessoa morrer ou passar o resto da vida enfiada numa solitária a escrever cinco mil vezes por dia a frase "as promessas são para se cumprir" haveríamos de ir muito longe!

Assim para mim as promessas são como delicados e finos copos de cristal. Enfim, de cristal não serão que a minha mãezinha que os insectos que a comeram têm no seu delicado e fino estômago, não tinha dinheiro para esses devaneios e portanto os copos são mesmo de vidro e dos mais baratos que se vendiam lá na feira da Baixa. E como de trinta e cinco já só me restam três na cristaleira, porque os outros com o tempo foram estalando e quebrando, assim as promessas inevitavelmente estalam e quebram à medida que o cabrão do tempo lhes vai dando marteladas. A culpa não é de ninguém, que nós até temos vontade e da boa. È mesmo o gajo que não gosta de nós e vai estilhaçando as nossas promessas feitas copos de vidro ao mesmo tempo que esfrangalha todos os nossos sonhos e nos carrega o corpo de mazelas e maleitas que no fim já nem nos deixam andar direitas.

Portanto a culpa nem é nossa, nem é da vontade ou da falta dela, e nem sequer é das promessas de vidro que fazemos. É mesmo do cabrão do tempo que não pára de voar cheio de pressa para chegar sabe-se lá aonde. É que ao menos se nessa corrida desenfreada não passasse por cima de nós… mas não! Enfim, mais por cima de uns que de outros que eu por dentro ainda estou tal qual o dia em que nasci em que a minha mãezinha me olhou e declarou que eu iria ser igualzinha à Brigitte Bardot e toda a gente na maternidade concordou. É pena é que apesar de por dentro eu me sentir assim tal qual ela na altura em que deus criou a mulher, pois por fora estou mais parecida com ela como ela é agora.

Não é justo! E é isso que me traz aqui angustiada e desmotivada! Porque eu queria ser como a Brigitte Bardot foi e sempre e não percebo porque é que não sou! Nem percebo sequer porque é que ela já não é como foi! Se bem que isso já é problema dela e não meu que isto cada um sabe de si. E hoje à conta desta irritação momentânea contra o cabrão do tempo lá consegui agarrar um dos míseros três copos que ainda me restam antes que se estatelasse no chão. E para acabar agora em beleza aqui levanto o copo a mim e ao resto da cambada que por aqui vai dando um ar da sua graça. Enquanto houver posts há vida! E enquanto houver vida que haja quem saiba fazer dela uma festa! E que se lixem as promessas de vidro com prazo de validade! Os copos parto-os eu todos quando me apetecer! E depois compro outros e começa tudo outra vez!

12.9.06

Obrigada, f.!

O que custa ser bela

Há duas coisas que me chateiam bestialmente quando vou ao cabeleireiro, manicure, depilação, drenagem linfática, etc., que é tudo no mesmo sítio:

1. Que, nas revistas del corazon, José Castelo Branco apareça com o mesmo tom de verniz para unhas que eu uso, mas que as tenha mais bonitas, bem como às mãos, mais elegantes, mais bailarinas; e que as sobrancelhas e buço estejam melhor depilados; e que o baton seja mais brilhante, e o creme de rosto mais hidratante, e ele, no seu todo, brilhe mais. E possa usar decotes até ao umbigo sem soutiã.

2. Que quatro mulheres consigam fazer o barulho de quarenta, e falar duas horas seguidas sobre um vestido "muito levezinho" para se levar a um casamento, porque "este inverno o preto vai estar muito na moda". É mais insuportável que ouvi-los a eles falar o mesmo período de tempo sobre os problemas da liga e da federação. É igual, mas pior. É de arrancar cabelos à dentada!

Soca bamba

Lá vai andando esta porra, estrebuchando. Aguentem-se, miúdas, que a gente estoira isto no dia que fizer um ano e prontos! Boa ideia ou quê? :D

11.9.06

Não me parece que queira deixar em branco este dia


Pela memória do dia em que o mundo deixou de ser assim. Ou, pelo menos, assim o julgava(mos).

O milagre


O meu maior sonho era ser uma santa importante, toda coberta de tules e brilhos, sorrindo beatificamente com as mãosinhas postas junto aos peitos, e que depois viesse um senhor consagrado à Obra do Sagrado Coração, e me descobrisse toda, para que o povo pudesse adorar-me e louvar-me, e depois tocar-me e beijar-me, até mesmo roçar-se, a disfarçar, para que o milagre das carnes condoídas se desse outra vez et per saecula saeculorum, se o latim me não atraiçoa.

9.9.06

Purpurina

Enchi a minha barriguinha de brilhos de purpurina só para ti.
Que pena tu não veres, porque tu não gostas da minha barriguinha.

8.9.06

All hands, stand by!

A Mariana Martins saiu da Soca. Um grande obrigada pelos textos que nos ofereceu. Muitos beijinhos!

Do fraquinho ao ridiculozinho

Prontos desta vez é que não me aguento mesmo e apetece-me disparar numa qualquer direcção virtual porque ele também há dias assim e o caro comentador que a isto me leva que me desculpe mas olhe, hoje estou com vontade de atirar. É que se tivesse assinado como "n.s." ou "nuno santos" ou qualquer outra coisa inócua eu podia ficar incomodada mas deixava passar, agora "naked sniper"!

Bem mas vamos lá por partes. Eu assumo que o meu post anterior possa ser mesmo fraquinho, não digo que não o seja. A inspiração tem destas coisas e apenas me apetecia aqui partilhar o desejo que sinto de ser seduzida, o que a meu ver é um desejo legítimo e até natural e será mais saudável do que desejar ser espancada, digo eu. Tenho pena que os homens hoje em dia (e as mulheres também) não valorizem mais as suas companheiras (ou companheiros) e era apenas disso que tratava o fraquinho post que publiquei. Podia ter falado sobre algo mais nobre e caro como a problemática do aumento súbito do preço do barril de petróleo mas lá está, a sedução é um tema que me interessa mais por muito fútil que isso lhe possa parecer.

Mas depois vai daí e o caro "naked sniper" atirou à queima-roupa e eu acusei o toque. Não o conheço de lado nenhum e isto que se segue não é nenhum ataque pessoal até porque poderá o caro comentador ser o homem mais fantástico do universo, mas ter escolhido esse nick é que sinceramente!!

Não sei se domina ou não a língua inglesa, quero acreditar que sim senão não tinha escolhido um nick desses. É que ainda se fosse "naked gun" que é uma expressão mais corriqueira se bem que penso que o significado não é bem o mesmo uma vez que aqui o nu se refere mesmo à arma embora uma arma nua já tenha o seu quê de ridículo porque o contrário de uma arma nua será uma arma vestida e eu já estou aqui a visualizar uma caçadeira de vestido cor-de-rosa às florzinhas amarelas e com um chapelito de palha no fim do cano a sofrer horrores por ter um dono que não a despe assim como todas as outras caçadeiras que se querem sempre nuas e prontas a disparar.

"Naked sniper" para mim traduz-se como "atirador furtivo nu". Ora isso para já é um contra-senso porque um atirador furtivo normalmente tenta passar despercebido e andará vestido de preto ou cinzento ou uma qualquer outra cor que não chame a atenção e seguramente não andará por aí nu de arma na mão! Ainda que se apelidasse de "proud sniper" ou de "lonely sniper" ou ainda de "wealthy sniper" ou qualquer outro adjectivo que realmente se casasse bem com a palavra "sniper" (palavra de que logo à partida confesso que não gosto porque me faz lembrar pessoas anónimas e cruéis que se movem e matam sem sentimento ou emoção de espécie alguma, mesmo que estejam só a atirar a pardais, que eu tenho pena dos pequenos pardais inocentes coitadinhos que não tem culpa de estar na mira dum atirador raivoso que sobre eles descarrega a sua arma).

Mas ó caro comentador, por acaso já pensou no que aconteceria se aparecesse por aí um dia um atirador furtivo nu? Como saberá seguramente os homens já não andam nus por aí há uma catrefada de milhões de anos e por alguma razão um deles um dia discorreu que para ser levado a sério tinha que esconder a sua nudez e desde aí nunca mais voltámos atrás. Não digo que não há ocasiões para se desnudar, mas no geral passamos mais tempo vestidos do que nus e eu diria que isso é uma das características que mais nos distingue dos animais, tá a ver? E eu por acaso até tenho pena dos homens que não podem andar nus por aí devido ao facto de serem possuidores dum apêndice que tem vida própria. E que podia causar-lhes muita situação embaraçosa por exemplo caso tivessem precisamente a perorar sobre a problemática do aumento súbito do preço do barril de petróleo e de repente o apêndice se lhes começasse a enrijecer, como é que ia ser? Em toda e qualquer situação ninguém gosta de se expor ao ridículo e tendo algo que não se controla em si eu percebo lindamente esse primeiro homem que ordenou que se tape e restrinja o que não se sabe comportar! Imagine-se lá nu no metro, no escritório, ou até numa igreja e imagine que no meio dum discurso mais inflamado do padre, o caro está precisamente a pensar em ir para casa brincar com a sua arma e o seu dito cujo vai disto e espeta-se-lhe ali todo. Já viu o ridículo a que se expunha? Já viu até o perigo que corria de vir a ser excomungado e nunca mais entrar naquela igreja nem em nenhuma outra por não ter conseguido respeitar a seriedade e santidade daquele local de culto?

Pronto olhe, desculpe lá qualquer coisinha mas foi a sua falta de jeito na escolha dum adjectivo que me levou a debitar aqui tanta palavrinha. Claro que me sujeito agora a ser apanhada numa rondada de disparos virtuais, mas lá está, a vida é mesmo assim. Se está no seu direito dizer que o que escrevo é fraquinho, também está no meu dizer que esse adjectivo que escolheu é ridículozinho!

Do sadismo

"Vou castigá-la. Aprenderá pela força, como um cavalo que se quer domesticar. Vou deixá-la passar fome, e quando lhe puser na malga 3 grãos de ração...
É a minha melhor aquisição, a que mais estimo, por isso vai sofrer. Vou domesticá-la. Oh, como é impaciente! Como é selvagem! Que exemplar! Que vitória tão grande sobre a natureza, fazê-la esperar, domesticá-la, tê-la na mão. Imperar sobre.
Vai sofrer. Não me custa que sofra. Tem de sofrer para quebrar, como um combatente. Ela tem de sofrer. Castigo-a. Ela sofre. Que importância tem que ela sofra? É para o melhor! Far-lhe-á bem. Sairá enobrecida, lavada da dor.
Ela não conhece a dor. Ela não conhece a dor. Por isso, sofrerá.
E a mim, o que pode custar-me encerrá-la na minha ausência, no meu silêncio? É a dor dela, não a minha!
Contemplo-a de fora, inquieta, confusa, pedindo.
Oh, não faz mal. Ela tem que aprender! E agradecer-me-á depois. Serei seu mestre, seu guia. Não lhe darei...
A dor dos outros não vale nada. A dor não vale nada. Ela tem de perceber."

7.9.06

Da sedução

Hoje perguntaram-me o que era isso da sedução e como era que se fazia e não querendo fazer disto um sermão, nem sendo eu uma especialista na matéria embora me desenrasque bem quando é preciso, cá vai uma dica importante e atentem bem ao que aqui se escreve que eu não duro sempre e gosto tanto de um bom romance como qualquer outra pessoa, mulheres mas também homens pois que os há que gostam de bons romances e aqui para nós ainda bem!

A mais importante arma na arte de bem seduzir é pois e mesmo o dom da palavra. Pois que eu saiba o ser humano é o único ser que comunica os seus desejos e não chega e pega e monta ou se deixa montar como o resto da animalada toda que por aí habita. Deve ser estranho, por não ser inato, um macho ter que pedir, senão mesmo suplicar, a uma fêmea que lhe deixe penetrá-la assim como uma fêmea ter que decidir se valerá a pena o desalinho em que ficará caso consinta em sê-lo!

Essa sim meus senhores (e senhoras pois que também as há que seduzem e bem) é a vossa verdadeira arma e não a outra que também sendo importante não é verdadeiramente primordial a não ser que o vosso objectivo seja mesmo a reprodução mas nesse caso esqueçam a sedução que se uma gaja se põe a jeito porque está com vontade de ser inseminada não necessita de sedução de espécie alguma pois que lhe basta ter as hormonas aos saltos e a pedi-la (à outra arma entenda-se).

Comecem então pela parte que normalmente lhes é mais cara: os olhos. Os olhos são um atributo neutro, de cariz não sexual, e sobre os quais cai sempre bem qualquer tipo de elogio. Há quem comece por outros lados como as mãos (que já estão no limite da neutralidade) ou mesmo as mamas mas aí sim corre-se seriamente o risco de se ficar encalhado ou mesmo empalado conforme a agressividade da fêmea que se está a tentar seduzir.

O elogio mais básico que aos olhos se pode oferecer é mesmo o simples: “tens uns olhos bonitos” que já todas teremos ouvido na nossa vida a não ser aquelas pobres coitadas que tem que andar de burkas ou lá o que é que esses gajos que lhes tapam os olhos não são homens nem são nada! São piores que animais!

Aberto o caminho para a via da sedução uma vez que mulher alguma resiste a ver os seus olhos elogiados pode-se continuar então de várias maneiras. Elogiando a cor: “os teus olhos são tão azuis como o mar mais profundo e tão brilhantes que neles vejo reflectida a luz do luar e de todas as estrelas do universo”… enfim aqui talvez seja melhor moderar porque o exagero às vezes é contra producente e a mulher pode começar a desconfiar que o gajo anda a ler demasiada literatura light o que nunca abona muito a seu favor. Poderá também elogiar a forma: “os teus olhos parecem duas lágrimas de cristal que eu queria recolher e guardar junto aos meus”. Como se vê não há nada como olhar e partir à caça da metáfora mais adequada à cor e à forma dos olhos da pessoa amada. Comentar sobre o brilho também serve: “sinto-me ofuscado pela luz dos teus olhos” mas convém aqui também moderar não vá a coisa descambar e apetecer dizer que até se sente a cegar o que é uma parvoíce de todo o tamanho a resvalar para o romantismo piegas de que nem todas somos adeptas. Como seja eu própria que para mim o romantismo piegas é mais risível do que credível e nada como uma boa gargalhada para desanimar a mais dedicada das alminhas desesperadas (ou inspiradas consoante a finalidade do jogo).

No fundo palavras há muitas e é preciso escolher as certas com cuidado para não exagerar. Enaltecer sem enriquecer demasiado que tudo o que é demais depois chateia. Não é fácil e a bem dizer há quem domine e há quem se esforce e helás também há quem nem sequer tente nem tenha que o fazer o que a meu ver é uma grandessíssima injustiça porque não há coisa que dê tanto prazer como um bom jogo de sedução do qual minhas amigas nenhuma de nós havia de abrir mão! Pois que o homem até há-de vir a ter o seu rebuçado mas que faça por o merecer, pois então!

6.9.06

O outro na vida deles

(ou... mandaram-me vir, agora, aturem-me)


A vivência do espécime masculino típico* no interior do lar conjugal (tirando a parte boa, que é o aprimorar-se em brincadeiras várias nas quais dá vazão ao complexo de Peter Pan) é deixar peúgas e cuecas penduradas no varão dos cortinados, o suplemento de domingo no bidé, o prato com os restos de comida na mesa e o tampo da sanita levantado, mal reparando no pó acumulado no topo dos armários, no lixo à cabeceira da cama, nas manchas de pasta de dentes no espelho da casa-de-banho, nos cinzeiros por despejar e na sujidade acumulada nas lâminas de estore. Esta criatura autóctone não se preocupa igualmente por aí além com o calcário na máquina de lavar, com os quadros tortos na parede nem, muito menos, com a desconformidade entre o padrão das cadeiras e o dos cortinados. Quando chega a casa (para além da brincadeira que ressalvei supra, notem!) quer a comida na mesa, o colarinho da camisa engomado e o comando da televisão na mão: o resto pode ser-lhe mais ou menos agradável, mas é-lhe acessório.

Por isso, companheiras, amigas, palhaças, não se deixem enganar: um homem, quando debruça a sua máscula atenção sobre as amostras de tecido que vos trazem, a vós, no limbo da indecisão e diz, convicto, preferir as flores roxas aos quadrados azuis, está a mentir. Bom, não será bem mentir: o que se passa é que, confrontado com uma opção estética que nada lhe diz nem lhe acrescenta, ele faz mentalmente um undolitá e seja o que deus quiser, meia bola e força e lá vai alho.

E isto porque, na verdade, a maior parte dos gajos não querem saber para nada da cor do sofá nem da largura do friso do azulejo da cozinha. Consoante o estado de necessidade em que se encontram, fingem-se interessados e participativos nas escolhas domésticas porque: a) gostam genuinamente de nós e não nos querem magoar com o seu desinteresse; b) não querem que fiquemos aborrecidas porque pretendem qualquer coisa de nós (hipótese não necessariamente cumulativa com a anterior), c) quanto mais depressa fizerem uma escolha, mais cedo deixamos de os chatear para que eles se possam debruçar na manutenção e melhoramento daquilo que, de facto, lhes interessa: o carro. Esta relação inversamente proporcional entre o desvalor da casa e o valor do carro é transversal à sociedade e aplica-se a todos os felizes possuidores de uma pilinha, de uma casa e de um carro, independentemente do seu lugar na cadeia alimentar.

O carro é o castelo de um gajo. Os putos, que em casa bem que podem andar a limpar as mãos lambuzadas de bolycaos à parede da sala, não têm ordem de tocar com um dedo que seja no painel de instrumentos do carro. A dedada na pintura, o roçar de coisas nas portas, o comando que não abre à primeira, os buracos nas estradas... são verdadeiras facadas. Comer dentro do carro é proibido e, quando não o é por motivos de força maior (como uma longa viagem), lá vão eles espreitando pelo retrovisor a cada dez segundos, temendo pelas migalhas e pelos restos de sumo nos interstícios dos seus bem amados estofos.

Se, quando saem de casa, fecham a porta com estrondo, quando entram no carro, fazem-no com delicadeza para não o ofenderem com brutalidades desnecessárias. Aliás, remoem rancorosamente e em surdina contra quem nele entre e deixe cair a porta com demasiados decibéis e displiscência e sem o necessário temor reverencial. Se, no supermercado, não sabem distinguir um sonasol para a loiça da cera para o chão, já na secção automóvel conhecem todos os detergentes para estofos (em pele e tecido), os polidores para o capô, os abrilhantadores (para cromados e vinil) e as tintas reparadoras em spray e nada de falsas camurças, que para puxar o brilho como deve ser, só das caras e verdadeiras.

Capazes de ressonar a noite inteira enquanto o filho recém-nascido se esgoela ao colo da gaja-mãe, saltam esbaforidos da cama a meio da noite só para se certificarem de que o carro está trancado ou de que não foi assaltado. Podem esquecer-se de pagar o condomínio e a autárquica, mas têm sempre o selo e a inspecção periódica em dia e os níveis dos pneus e da água nas medidas exactas (se não têm, stressam e infernizam-nos o juízo, culpando-nos do facto).

Embora concordem geralmente com as nossas opções estéticas (ver supra), dentro do carro são uns ditadorzinhos e não permitem, sequer, que escolhamos um desodorizante-penduricalho em forma de pinheiro, tem que ser o do volante da Ferrari. Não sabem em que gaveta do seu próprio quarto se guardam os toalhões de banho mas, no porta malas do carro, têm sempre um stock considerável de toalhinhas e toalhetes para o caso de serem precisos, que isto nunca se sabe, pode acontecer um acidente, uma criança a bolsar, umas gotas de suor ou um convidado inesperado.

Hesitam seriamente em deixar que o conduzamos, ao seu castelo, mesmo que tenhamos de os levar de urgência ao hospital pois estão a sufocar com um pedaço de bife atravessado na garganta, e choca-os profundamente o estado de abandalho em que nós, gajas, geralmente temos os nossos; aliás, encaram cada pacote de bolachas entornado, chupeta caída, biberão virado, marca de baton no tablier ou monte de roupa amontoada no banco, como uma ofensa pessoal, uma espécie de afronta à ordem natural do universo. No fundo acham-nos umas porcas desmazeladas a quem deram pérolas e que melhor estaríamos se fossemos de autocarro.

E nós, parvas, desconfiadas porque o gajo chegou atrasado e, na maior parte das vezes, ele ficou mas foi a polir a consola, a sintonizar o rádio, a endireitar a antena e a catar noddys dos intervalos dos bancos, enquanto resfolega de indignação. Assim é, companheiras: muitas vezes, a outra na vida dos nossos homens não é um avião nem tem necessariamente uma boa rodagem, embora também tenha um motor.




* Atenção! Este texto retrata o homem comum, o bonus pater família, ou seja, o homus namoradus ou casadus há anus - o que exclui, automaticamente, o homus casadinhus de frescus, o homus demasiadus sensibilis e os psicóticos anti-germes que limpam as dedadas dos copos saídos da máquina e que adormecem a murmurar rosebud.

5.9.06

A Bela é o Monstro

Entreguei-me a todas as mulheres, porque as mulheres não me recusaram, trataram-me com beijos e lavaram-me as feridas com água e voz tépida.
Entrego-me, agora, ao primeiro homem que olhar de frente, sem nojo, sem horror, os rasgos das minhas cicatrizes pelo rosto, peito, barriga, as que redesenham toda a minha pele como se fosse uma colcha de trapos, e que amo já como se nunca tivesse tido corpo de bebé. Só este.
Entrego-me ao primeiro homem que lavar, com água e voz tépida, os rasgos sarados das minhas cicatrizes, e que me beijar, dizendo, tu és a mais bonita.
Porque as minhas cicatrizes me fizeram mais bonita.

Que gente mais pessimista!

Fecham centenas de escolas? Isto a uma semana do início do ano lectivo? Os pais não sabem o que vai acontecer aos filhos? Ora, que é que isso interessa, num país onde toda a gente sabe ler, escrever e fazer contas, em que o aproveitamento escolar é dos mais elevados da Europa e, quiçá, do mundo, onde não há praticamente abandono escolar, onde em exames nacionais é vê-los a arrancar positivas altas a torto e a direito, enquanto esperam pelos brilhantes futuros em letras e ciências, um país que produz adultos letrados, educados, civilizados, excelentes profissionais e cidadãos de uma cultura e civismo extraordinários? Num país onde tudo o que está relacionado com a educação corre bem, digam-me, neste fechar de escolas à beira do princípio dessa esmerada educação para todas as crianças, muitas delas ainda em tenra idade a começar a vida escolar, pode alguma coisa correr mal?
Claro que não!

The (non) making of Soca

- Iadaiadaiadaiadaiada tazaber…
- Iadaiadaiadaiadaiada e não se aguenta!
- Iadaiadaiadaiadaiada e ainda não te contei…
- Iadaiadaiadaiadaiada ai que pena isso não podemos escrever!
- Iadaiadaiadaiadaiada é verdade e sabias que?
- Iadaiadaiadaiadaiada dava um belo post também!
- Ahahahahahahahah! Gostava de ver a cara…
- Ahahahahahahahah! Não dá, não dá!
- Iadaiadaiadaiadaiada olha e mais uma coisa
- Iadaiadaiadaiadaiada é inacreditável!
- Iadaiadaiadaiadaiada
- Iadaiadaiadaiadaiada

(duas horas e duas baterias de telemóvel em baixo depois:)

- Olha temos é que ir almoçar já esta semana para meter a conversa em dia!
- Sim, sim, vamos, tenho imensa coisa para te contar!

4.9.06

Quando denunciamos enfado, frustração, intolerância, irritação ou pura e simples falta de paciência, apelidam-nos prontamente de mal-comidas. Esta visão redutora, de que basta uma mulher estar satisfeita na cama para ser uma querida boazinha, toda contentinha com o caleidoscópio de estupidez que gire eventualmente à sua volta é, essencialmente, masculina. E porquê? Óbvio: porque os homens gostam de fazer centrar o torvelinho da humanidade em geral (e o bem-estar feminino, em particular), na sua competência viril - a qual, aliás, não se cansam de presumir. Pode, no entanto, ser também o ponto de vista de algumas fêmeas, as verdadeiramente mal-comidas, aquelas para quem "a quimera do orgasmo" ou "os salteadores do orgasmo perdido", se tornou no filme das suas vidas. No fundo, são as que colocam o que não têm no centro da sua existência (e no da existência das outras). Ora, ninguém duvida que orgasmos vários e bons são meio caminho andado para não andarmos por aí armadas em mães de Bragança a expulsar as boazonas do nordeste, em feministas anti-pilinha, daquelas ressequidas que tapam os olhos e o nariz à passagem de um bicho-homem como se este fosse um texugo, ou, então, a esquecermo-nos da abstinência forçada em manifestações pró-vida (onde se concentra tanta raiva por metro quadrado que aquilo mais parecem festas de espuma). Mas não, não basta. Fiquem sabendo que sexo decente, e mesmo sexo acima da média, não chega, para que derramemos boa-vontade e compreensão à nossa volta vinte e quatro horas por dia e para que encolhamos os ombros se o gajo nos disser que tem um jantar de negócios com a Eva Longoria. Nada disso - nós, mulheres, somos um bando de sensíveis e precisamos de mais do que meia dúzia de quecas celestiais para sermos felizes (e para o mostrarmos repetidamente). Precisamos, por exemplo, de muitos pares de sapatos.

All rise!

(deixem-me só parar de rir, que acabei de inventar o título)

Bolas. Vinha só aqui anunciar que i'm back e isso tudo, sob a forma minimalista

ODEIO CIDADES

mas depois desatei a rir e continuo a odiar, mas agora não me parece coerente acrescentar um ponto de exclamação.

3.9.06

Os homens baixinhos

Senti-me agora comovida, o que, no meu caso, é difícil!
Acabei de vir do site meter onde dei com uma entrada, através do Google, cujo tema de busca se intitulava "baixinhos rejeitados".
Esta mensagem é, pois, para os baixinhos, só para os baixinhos: o mote «homem baixo ou é ruim ou "bailarino"» está completamente out; os baixinhos também são lindinhos, maneirinhos, e nós também gostamos. Não nos interessa o tamanho em altura, e agora estou só a falar desse - não se dá por nada, e eu adoro pegar-vos ao colo, às cavalitas, e fazer-vos mimos: portanto, atirem-se sem receios, sem hesitações.
Gostamos de todos os homens, só não gostamos de porcos machistas, fascistas e quejandos! Este último parágrafo também podem fazer circular pelos vossos amigos de estatura alta e média!

2.9.06

kames!

Nas férias, costumamos ir ao engano de nós mesmos, como se o empanturrarmo-nos de prazeres vários nos reduzisse a uma escala infantil e nos convencêssemos de que poderíamos viver sempre assim, a fugir ao capitão gancho e aos crocodilos. Demasiados risottos, vinhos brancos e tintos, imperiais, ceias e conversas a meio da noite, lanches e mergulhos a meio da tarde, e sexo a meio de tudo (daquele escorregadio, em que os corpos derrapam gentilmente um no outro, de tão molhados que estão do efeito de estufa). Trazem, ainda, a ilusão de que a vida é um carrocel de feira, de tanto e de tudo o que nos permitimos: brincadeiras indecentes, algodão doce, gelados olá, pipocas, bicicletas sem capacete, joelhos esfolados, bebedeiras disfarçadas, vozes desafinadas, revistas foleiras e música pimba. Nas férias, o anacronismo da felicidade absurda que nos deixamos sentir é tal, que nos permite alcançar estádios de suprema beatude, como aquela noite em que os miúdos me relembraram do kames. O kames, estão a ver?! Não, a sério: do king, sei que se lembram, mas do kames, o dos sinais combinados, o ícone dos serões sem MTV dos anos oitenta?! Ah... Sensação engraçada, esta, quando o passado nos aterra no presente pelas mãos do nosso futuro.

1.9.06

O Egipto encosta em Israel, que encosta no Líbano, mas não exageremos

Isto da blogosfera tem os seus quês de ódio e amor e correcto e incorrecto.
A malta é na blogosfera como ao volante, é na blogosfera como no café com os amigos, ou no emprego com os inimigos, e raramente é, na blogosfera, como quando está deitado em casa, no sofá, sem testemunhas.
Morreu o escritor Naguib Mahfouz, morreu o escritor Naguib Mahfouz, pois morreu, mas quem é que leu um só livro do homem? Um só? O que é que ele escrevia, afinal? E se era tão conhecido e tão importante na blogosfera, por que raio informam que era "o escritor" antes do nome: Naguib Mahfouz?
Eu cá só li um, que foi aquele do ladrão e dos cães, porque fui ao Egipto há uns anos, na altura em que ainda podia sair daqui por mais que uma semana, e a Ibéria me podia perder as malas à vontade, e não achei mal. Mas também não me lembro de ter tido nenhum orgasmo clitoriano! Para dizer a verdade, só me lembro de umas ruas muito sujas nuns bairros muito sujos. Tenho na cabeça a ideia de uma porta qualquer que devia ser importante. Mais nada. Ah, e a capa do livro, azulinha, com uma ilustração ao meio, disso também me lembro - tenho sempre boa memória visual, a outra é que já se queimou com os Lexotans, benditos sejam!
E interrogo-me, mas quantos bloggers e leitores de blogs leram o dito prémio Nobel?


Esposa de Naguib Mahfouz quando era mais nova



(Naguib, espero que tenhas tido bom passamento - não tenho nada contra ti, homem, a blogosfera é que às vezes me dá náuseas, e tenho de cascar. A gente depois encontra-se e fala disto melhor!)


La musique

Não me parece nada mal que uma antiga banda de rock ande por aí a rolar com músicos de mais de 60 anos. Pelo contrário. Eu também espero rolar bastante aos 60, se Deus quiser!
O que me parece estranho é os elementos da dita banda não se cruzarem, não se encontrarem, a não ser no momento do espectáculo, exibindo-se aí a título individual - e isso não é uma banda, são 4 gajos, cada um a fazer o seu espectáculo.

É como naqueles trabalhos escolares de grupo em que a professora nos atribui um tema, tipo "raças de gatos", e em que cada um só copia a sua parte na net, imprimindo-a sem sequer a ler, não fazendo a menor ideia sobre o que fizeram os outros, embora no final assinem todos e todos tenham a mesma nota. Ou seja, se o grupo tiver 4 elementos, cada um realizou apenas 1/4 do trabalho, esforçou-se muscularmente apenas 1/4, por causa da teclagem no Google, e da impressão, porque os membros superiores têm músculos.
Isto da comercialização da arte tira-lhe glamour.

Um pedra rolante português, fotografado por António Severino


Mesmo sem palavras

Quando te peço tudo não te peço muito. Sinto que pedir menos, pedir pouco é tão ofensivo!

referer referrer referers referrers http_referer Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com