18.10.05

Adolescência

Ficava em casa trancada no quarto a ouvir Abba, Aretha Franklin, Barbra Streisand e Tina Turner. Não tinha amigos num raio de 15 km. Pertencia a um grupo desportivo e corria a estafeta como ninguém. Cheguei às distritais e fiquei em 3º. Ou ficámos porque na estafeta havia mais 3. Nenhuma das três considerava amigas. Não sei se tinha dificuldade em fazer amigos se tinha medo de os fazer numa terra que o meu pai condenou como má, prejudicial e sem nível para uma menina como eu. Mas, afinal, porque decidiu ele fazer casa ali tendo todo um Portugal (e mundo) para escolher? Nunca percebi.
Pertencia a um coro. Estudava piano. Estudava inglês num instituto. Nunca estudei ballet porque os meus pais disseram que os meninos só iam para o ballet para apalparem as meninas. Não tinha namorado e tinha medo de vir a ter. Não era uma aluna exemplar e até chumbei um ano (fora os outros todos na faculdade... mas estou a falar da adolescência) porque em alguma coisa tinha de me rebelar, ou porque estava demasiado preocupada com todas as outras coisas que não podia fazer, para concentrar-me nos estudos.
Perdi a virgindade demasiado tarde. Não a queria ter perdido aos 15, mas também não era necessário esperar quase mais 10 anos para o fazer.
Acho que há uma idade para tudo e, quando essa idade passa, é mais doloroso passar por certas coisas depois.
Não tive uma adolescência, pelo menos não a tive na idade em que deveria ter tido. Porque não queria ter de sofrer nas mãos dos meus pais. Porque não os queria desapontar. Porque queria ser a filha perfeita. A filha de quem eles se orgulhavam por não se interessar por rapazes e coisas fúteis. Porque já bem bastava uma tentativa de suicídio que quase pareceu minha mesmo sem o ser.
Aos 13, 14, 15, ouvia Abba, Aretha Franklin, Nana Mouskouri, Barbra Streisand. Hoje ouço U2, Daniel Powter, Chevelle, Incubus, Matchbox twenty, Pearl Jam...
Hoje lamento não ter visto "morangos com açúcar", não ter ouvido outras coisas, não ter exigido roupa de marca (mesmo que não ma dessem), não ter namorado, não ter sido melhor aluna, não me ter fascinado com futilidades, não ter faltado às aulas e sido uma aluna mais rebelde. Não ter concorrido à associação de estudantes, não me ter preocupado com a popularidade, não ter exigido ir a dermatologistas e fingir que as borbulhas não me incomodavam só porque os adultos também já tinham passado por isso, não me ter amado mais, não me ter cuidado mais, não ter sido mais vaidosa, não ter sido mais "igual", não ter sido mais rebelde... Porque ser rebelde na adolescência não tem de significar ter menos sucesso na "adultez". Antes pelo contrário... afinal, a adolescência existe por alguma razão.

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