30.11.05

De dentro para fora

Ao contrário do que se possa pensar
Amar não é aprisionar
Amar é ensinar a voar!

olha boa, consultório médico nos comentários

As manchas de água nas janelas são fantasmas, se o frigorifico faz um barulho diferente são monstros. Às vezes começo a pensar que pode estar algum gajo que foi morto há milhares de anos atrás de mim a tentar esgadunhar-me as artérias por raiva, e que só não o consegue porque as unhas em forma de garra que eu sei que ele tem não são fisicas, só etéreas. Se ouço um gotejar na casa de banho olho para o tecto com cuidado e a segurar-me à retrete, não vá dar-se o caso de haver um corpo mutilado a pingar sangue do tecto e eu ter de gritar histericamente. Quando travo a fundo vejo o acidente que se vai seguir em que o volante me arranca a cabeça e o motor se me enfia no estomago.
Eu sempre achei que tinha uma imaginação fértil e andava a ver muitos filmes, mas vai daí tambem sou obsessiva compulsiva.
De qualquer maneira não interessa porque convenhamos, eu tenho a mania que sou boa e não é por achar que as minhas idiossincrasias são doença que vou deixar de me orgulhar delas

como quem lê primeiro o fim do livro

ele insiste discretamente através das formulas de que dispõe. mail, recados, telefone em sms.
ela fica indefinida entre o ganhar um amigo e o ganhar um namorado - prevendo neste a precaridade a que se habituou. a sensação de déjà vu conhece-a de ginjeira, os leves arrepios causados por uma corte insistentemente discreta que qualquer mulher capta - vem como q nos genes, esta leitura. e os processos, todos parecidos e desiguais dos métodos de acedimento.
várias (talvez sempre excessivas) relações fracassadas, algumas mais definitivas do que outras, reuniram-se no rol de um histórico que muitas vezes revê no preenchimento das colunas das coisas boas e das coisas más com que às vezes realiza os balanços do afecto. sabe que qualquer abordagem é sempre diferente, que a paixão dissolve idiossincrasias que depois são reveladas e saltam cá para fora com toda a flexibilidade do tempo em que estiveram guardadas. estranhamente sente um cansaço, dói-lhe o flirt como uma ferida na pele.
com o tempo foi descobrindo que as suas paixões foram sempre construções, construções buriladas com uma tremenda boa vontade, boa vontade que descobria ludibriada sempre depois.foi entendendo a boa vontade como um defeito, disposta a disfarçar o aleijão por sobrevivência. entre o ficar cinicamente ceptica e a tardo-inocencia de acreditar há uma distancia abismal de movimento mínimo. a do resguardo. como um penso de queimado.

Perspectivas

- Estou aqui a pensar no que é que vou levar para vestir...
- E eu estou aqui a pensar no que é que vais levar para te despir.

Com a cabeça enfiada num alguidar

Parece que alguém rogou uma praga… ou então são estas viroses do século XXI que para além dos achaques e tosses adicionam mal estares digestivos a torto e a direito. Primeiro uma depois a outra. Que agora me adormeceu com a cabeça enfiada num alguidar já exausta de tanto vomitar. E não quer largar o alguidar porque há bocado descuidou-se e foi tudo parar ao sofá e ela viu que eu fiquei triste e enervada. E nem sequer é por causa da porcaria do sofá. Não gosto de a ver assim encolhida agarrada à barriga e com a cabeça enfiada num alguidar. Quero dar-lhe colinho mas já nem sei por onde lhe pegar. Foram extraterrestres que vieram cá levar-me a minha bebé e deixaram-me aqui esta rapariga já tão crescida? Tão crescida e mesmo assim tão pouco resistente a estes cabrões destes vírus. Só comigo é que não querem nada! Antes me viessem atacar a mim do que a elas seus micróbios de meia tigela!

29.11.05

pão queijo, queijo pão

As cebolas partidas caíram na água com um ruído abafado, chof. O descascador rapava a casca das cenouras em línguas compridas enquanto ela pensava no que lhe tinham contado. Imaginava o homem, tão apreciado, inteligente e divertido, cheio de qualidades. Uma qualquer conspiração das circunstâncias tinha-o conduzido ao alcoolismo. Lembrou-se de juntar os tomates que tinham sobrado da salada da véspera. Uma batata grande, dois dentes de alho, o resto dos coentros (já tinham as pontas amarelas), um pouco de sal. O reflexo frio e deformado do seu rosto, na tampa de aço da panela que tinha ao lume, desconcertou-a.
O tipo falhava constantemente, provocava o desgosto à sua volta. De cada vez que a situação se degradava era-lhe dada nova oportunidade. O feijão verde era carnudo. Com uma incisão precisa, retirou-lhe o fio e partiu as vagens em tirinhas oblíquas. Era verdade que, a cada oportunidade, entre o esforço inicial e a reincidência, os intervalos eram maiores e os estragos menores. Mas ele voltava sempre a beber.
Mexeu os legumes e voltou a tapar a panela, irritada. Curiosa, esta cegueira de quem concede prolongamentos sucessivos, pensou. Como se do outro lado houvesse também a vontade de se atribuir a si mesmo mais uma chance: de provar que não se enganou na admiração, no respeito, na afeição que se sente por quem se escolhe. E claro, o investimento acumulava-se, era cada vez mais difícil declará-lo a fundo perdido. Sorriu.
O arroz de frango da véspera era pouco, ainda por cima o filho tinha trazido um convidado. Não se importava, porque lá em casa havia sempre lugar para mais um. Mas aquilo não ia chegar.
Despejou a caneca de arroz sobre a pequena poça de azeite a fervilhar. Os grãos giravam à volta da colher de pau, mais escuros, brilhantes e aparentemente translúcidos. Chegara um dia em que a paciência se tinha esgotado. Interrogava-se se seria o fim dele. Agora é que ele se ia afogar numa garrafa de gin. Encolheu os ombros, acrescentou a água a ferver, o sal e cobriu o tacho.
E daí, talvez não. Podia ser que agora ele, finalmente, mudasse. Há pessoas que só acordam no fim, quando o jogo acaba. Só assim percebem que ele pode acabar. Triturou os legumes, juntou o feijão verde e tirou um frasco do frigorífico.
Salsichas às rodelas no fundo teflon da frigideira: bolinhas côr de rosa num tecido escuro. Pensou num vestido dos anos cinquenta. Tinha reparado à tarde que se surpreendia com a sua imagem, avistada acidentalmente num espelho. Não que estivesse diferente, mas constatava que pouco se olhava no espelho para além do aspecto funcional. Aproveitou a gordura para fazer uns ovos mexidos. Tinha sobrado um pouco do líquido em que cozera o frango. Ainda bem, podia usá-lo para o acrescento.
Porque seria? Na outra altura em que isso lhe acontecera, era a pressa, o desinteresse por si mesma, a certeza de que se acharia feia e triste que, suspeitava, a tinham afastado dos espelhos. E agora? Misturava com delicadeza o arroz da véspera com os ingredientes remediados do dia. Troçou de si mesma, da pretensão de ter permanecido especial para quem considerava dessa forma. I know I’m a little shallow – repetiu as palavras da música que ouvia. O assobiu da panela de pressão arrancou-a ao incómodo desta hipótese: a sua vaidade poderia depender do apreço dos outros? Sacudiu a cabeça: não, não era assim. Não. Talvez fosse de tanto olhar só para dentro.
Baixou o lume, foi ao quarto de banho e penteou-se, sem tirar os olhos do espelho. Examinou uma borbulha mínima no queixo. Estou mais magra, constatou.
Regressada à cozinha, desligou o fogão e tirou o avental. Chamou os miúdos em voz alta e pôs a sopa na mesa.

Derrame

Um dia vou inventar risos que sobejem pelo chão, que cresçam nas paredes, que fujam livres caminhando por cima das águas, que se oiçam tão longe quanto a outra ponta do mundo.
Um dia vou deixar sair tudo o que tenho para que nunca o possa agarrar.

Rants

Há algumas coisas que me aborrecem. Uma delas é que as pessoas paguem por mim. Se vou ao café ou ao restaurante ou ao bordel ou ao caralho que os foda, consumo o que me apetece tendo em conta os euros que tenho na carteira. Não gosto de ter de me preocupar se a pessoa com quem fui se vai oferecer para pagar, caso em que será melhor não pedir um gelado de 10 bolas, ou se essa pessoa já pagou da ultima vez e se calhar tenho que retribuir, e nesse caso é melhor não pedir o gelado de 10 bolas, porque não sei se a pessoa tambêm vai pedir um gelado de 10 bolas e depois já não tenho dinheiro que chegue para pagar os dois. Aborrece-me, e acho mais justo e menos problemático que cada um pague o seu. E se por acaso for preciso pedir 50 cêntimos para fazer troco, ou 10 euros porque afinal não havia multibanco, agradeço que mo emprestem e agradeço que o aceitem de volta quando for altura disso e que não me venham com merdas de "ah, deixa lá isso, isso não é nada, fica prá proxima, pagas-me um copo qualquer dia." Irrita-me.
E lá em casa é a mesma merda: eu arrumo as coisas que desarrumo, lavo a roupa que sujo, e faço as tarefas que me competem. E irrita-me quando os outros não arrumam as coisas que desarrumam e me vêem fazer beicinho a dizer que se esqueceram mas que por outro lado até lavaram a minha roupa e não percebem porque estou tão chateada...

Viver de improviso

"Tu não sabes o que andas a fazer" E muitas vezes sinto que é verdade, I don’t know what the fuck I’m doing. Mas sempre foi assim, desde criança. Nunca tive grandes guidelines, regras do como, do quando e do que deve ser ou não ser. Vivi sempre um bocado ao calhas. Ia vendo os outros fazerem e ia experimentando. By trial and error… se fizesse alguma asneirada levava nas orelhas e não voltava a fazer (a não ser que me apetecesse pisar o risco mesmo sabendo que poderia levar nas orelhas e às vezes apetecia-me!)

Muita gente deve pensar que o conceito do que está certo ou errado nasce connosco. Eu sempre soube que não era assim. O que está certo ou errado depende do que nos ensinam e de quem nos ensina. Eventualmente e passados alguns anos podemos nós próprios discorrer certas coisas, mas as crianças não tem essa capacidade. Imitam os exemplos que observam. E eu não tive grandes exemplos… não que as pessoas que me rodeassem não fossem grandes pessoas, porque até considero que são. Só que da sua grandeza esqueceram-se muitas vezes de olhar para baixo e de pensar que alguém os procurava lá bem rente ao chão.

Não sei que género de exemplo serei para as minhas filhas, muitas vezes penso que não sou lá grande coisa. Sei que as amo muito e que tudo farei enquanto elas forem pequeninas para tentar manter a minha sanidade e um laivo de organização na vida delas (apesar da minha estar um verdadeiro caos). Todos os dias acordo e forço-me a acreditar que elas são a minha prioridade. É que não é uma coisa natural, no meu caso não é. Não sinto que tenha nascido para ser mãe e nem sequer tenho muito jeito. Falta-me o instinto e se calhar a educação para tal. Vou tentando por elas, mas é fodido viver assim… de improviso. E o meu velho método de trial and error… é claramente e totalmente descabido em tudo o que se relaciona com as minhas filhas.

28.11.05

Ser gaja é uma ganda seca!

- Cabelo para pintar com raízes até meio da cabeça, pontas espigadas e sem corte e ódio mortal a cabeleireiros;
- Pernas com pêlos de ursa em hibernação já em Maio, depilação feita em Agosto;
- Virilhas e axilas a pedirem tranças com missangas;
- Buço de bigodes retorcidos para cima e barba a crescer às mãcheias de cabelos pretos;
- Testa brilhante com borbulhas a crescer, adubadas com a franjola que não foi cortada;
- Unhas dos pés a romperem meias e a agarrarem-se aos tapetes quando descalça;
- A sobrancelha unida acima do nariz;
- Pêlos à beira das narinas perfilados de guarda-macacos.

Que inferno, tudo isto!

asfalto violeta e vapor amarelo

Sair de casa com o calor de uma tenra bochecha adormecida ainda preso aos lábios. Sentir o frio a furar-me as narinas e fugir da boca transformado em fumo. Os olhos a picar, mágoa da luz vertida devagar pelos limites esbatidos das nuvens deslaçadas. Mesmo de casaco quase até aos pés e barrete às riscas, pareço-me uma ave desconcertada. Apreensiva e confortada em medidas aproximadas, sou uma gaivota em terra num dia de tempestade.

As costas contra a parede

Farta de esperar por ele, ela fez-lhe um ultimato: "Se não casares comigo, caso eu contigo".

26.11.05

Projecto de vida que não foi

Buraco negro de dentro para fora
Este que me engole aqui e agora
Escondem-se a luz e o calor
Saudade fria que insinua a dor
Com o corpo ardente numa só chama
Passo noites a fio às voltas na cama
À procura do que não está
Do que não foi nem nunca será

Hoje de manhã acordei a sangrar como nessa outra manhã há uns anos atrás. Hoje não era a altura para isso assim como não o era nessa outra manhã fria e chuvosa de Novembro em que se desfez o projecto de vida que em mim tinha começado. Não sou crente, não acredito em sinais, no destino, na sorte e noutras tretas que tais. Mas porque é que ainda trago em mim a certeza de que aquele projecto de vida que nesse dia tão abruptamente terminou era o menino que o pai dele tanto queria? E que ter perdido esse projecto de príncipe anjo condicionou tudo o que se passou depois?...

Quando eu ainda acreditava no amor...

Era uma vez uma princesa muito bela mas muito solitária que vivia num reino muito distante num castelo no cimo da montanha mais alta e isolada de todas. A princesa tinha tudo o que desejaria… possuía os mais belos vestidos, comia das mais deliciosas iguarias, lia os livros mais fantásticos que existiam… e no entanto sentia-se muito triste e muito vazia por dentro. Um dia uma velha apareceu ao seu lado e perguntou-lhe porque estava tão triste… a princesa não sabia bem explicar porquê mas sentia que faltava qualquer coisa na sua vida. Olhava à sua volta e não via ninguém, nem sequer sabia o que era ter um amigo porque nunca tinha tido. A velha deu-lhe então uma semente, muito redonda e brilhante, uma esfera tão lisinha e suave, quase como uma pérola. “Esta é a semente do amor incondicional minha querida. Trata bem dela e verás como ela se transformará na maior dádiva que pode um dia acontecer na vida de qualquer ser humano.”

A princesa agradeceu mas não ficou convencida. Como era possível que aquela pequena semente fosse um dia transformar-se no que quer que fosse! A velha estaria seguramente senil… Mas decidiu guardar a semente num dos seus infinitos bolsos perdidos entre os infinitos folhos das suas saias coloridas. E a semente andou sempre por ali jogada, entre um bolso e outro ia sendo perdida e depois achada. A princesa por vezes punha-se a olhá-la, tocava-lhe, tentava até mordê-la! Mas a semente permanecia sempre igual, redonda e brilhante, como uma pérola.

Um dia a princesa estava sentada numa pedra com a semente entre os dedos e apareceu um plebeu. Um rapaz vindo do nada, nem feio nem bonito, aproximou-se da princesa espantada e olhando para a semente disse-lhe: “Minha senhora, tens aí uma semente do amor incondicional… também já tive uma mas perdi-a… não soube estar à sua altura…” A princesa intrigada quis saber mais da história do rapaz e ele lá lhe contou que um dia uma velha lhe tinha dado uma semente e que ele tinha encontrado uma rapariga que o tinha ajudado a fazer crescer aquela semente. Mas ela fartou-se do trabalho que aquilo dava e foi-se embora para nunca mais voltar. E a semente que já era quase árvore morreu…

Mais animada a princesa pediu-lhe ajuda para fazer germinar a sua semente. O rapaz hesitou mas ao vê-la tão ansiosa decidiu experimentar de novo… “Precisamos de encontrar um sítio calmo e sossegado, nem demasiado frio, nem demasiado quente.” A princesa tinha um canto secreto onde se refugiava muitas vezes perdida nos seus pensamentos e foi para lá que levaram a semente. O rapaz achou o sítio ideal e cavou um pequeno buraco na terra para onde deitou a semente. E dos seus bolsos saíram pequenos sacos coloridos com pós finos e aromáticos. “A semente alimenta-se de carinho, de ternura, um pouco de altruísmo, uma pitada de sacrifício, e muita, muita atenção e disponibilidade…” A princesa olhava espantada para todos aqueles pós misturados que soltavam pequenas faíscas à medida que iam envolvendo a pequena semente em forma de pérola.

“E agora?” perguntava ela. “Não sinto nada diferente!” E o rapaz lá lhe explicou “A maior dose de todas é a paciência minha querida princesa… se fores paciente verás como o amor incondicional que agora plantamos irá crescer forte e lustroso!”

E esperaram juntos, com muita paciência e sem grandes expectativas. Um dia a princesa viu um pequeno caule a espreitar por entre os bocados de terra onde tinham plantado a semente. “Vês minha querida… começa já a crescer este nosso amor incondicional! Precisamos de lhe dar tempo e atenção!” E todos os dias o regavam, lhe falavam e cantavam. A princesa brincava com as pequenas folhas que se desenvolviam cada vez mais bonitas e viçosas. Com o passar do tempo o pequeno caule transformou-se numa árvore enorme e forte como a princesa nunca tinha visto. Dos seus ramos pendiam agora os frutos mais deliciosos e aromáticos que ela algum dia tinha provado. E de cada vez que comia um desses frutos, de cada vez que o partilhava com o rapaz transformado em príncipe encantado, ela sentia uma paz interior muito grande e uma felicidade sem limites. “Como vês minha querida… não é difícil fazer crescer o amor incondicional… basta apenas saber o que é preciso para que isso aconteça. E estes ingredientes que usámos estão todos dentro de ti, dentro de mim, dentro de todos nós…”

Viveram felizes para sempre os nossos príncipes de sonho… e juntos morreram um dia, à sombra da maior árvore que algum dia existiu naquele reino distante…

25.11.05

Ser gaja é muito bonito, mas haja pachorra...

Não é a parte de ter mais cremes que partes do corpo, nem a parte de ter que conjugar as cores de tudo o que sai de casa comigo. Nem sequer me aborrece por aí alêm ter que arrancar pêlos e cortar bocados de pele, ou ter que usar materiais absorventes uma vez por mês para poupar ao mundo a visão de um bocado de sangue. O que me fode mesmo, o que me tira do sério, é que me digam que as violações são culpa de gajas que bebem e usam decotes.

My left foot #1

Tendo que começar por algum lado, ocorre-me:
Quando acordei da anestesia pensei que estava na praia. Parece que o meu marido estava ao meu lado e que passou por mim um enfermeiro. Eu, na minha débil loucura (quem sabe se num momento de grande verdade) levantei a cabeça, segui o gajo com os olhos e disse:
- Foda-se! Este enfermeiro marchava.
Mesmo assim, algumas horas depois, o meu marido amparava-me os vómitos.

Resolução de fim de ano (antecipada)

Pensar mais em mim e menos nos outros! Quero aprender a ser uma cabrona! Sempre achei que o mundo não era dos fracos nem dos totós (apesar de eu ter sido sempre uma e durante muitos anos). A partir de agora quem não está comigo está contra mim. E é assim que eu me defendo da sacanice e filha-da-mãe-putice de certas coisas que tem acontecido comigo e vindas de pessoas de quem eu não estava de todo à espera. Detesto mandar recados através dos blogs, acho que isso não se faz e sempre achei que o melhor era chegar à beira das pessoas e olhar-lhes nos olhos enquanto lhes dissesse tudo o que pensava delas e dos seu mundinhos e vidinhas de merda. Mas estou a aprender! E estou a mudar… e estou a tornar-me cada vez mais egoísta. Não quer dizer que por dentro não seja tudo igual, mas por fora hei-de ser considerada uma sacana e filha da puta! E no dia em que isso acontecer hei-de sentir-me recompensada por ter finalmente aprendido a lição que demorei tantos anos a aprender!

Malgré moi,

e a pesar de tudo, já tive saudades do teu corpo. Continuo sem as sentir da tua boca.

24.11.05

Contra a parede

Laivos de cusquice, indagos subtis, como quem não quer a coisa, as mãos, como são as tuas mãos? e os olhos? o que é que tens vestido hoje? que perfume tens posto?, pontos de interrogação, reticências, espaços, de silêncio e de espera; respostas, prontas, tardias, hesitadas, por fim, despejadas de rompante e, vai-se a ver, os dois a cagar na sintaxe e nos erros ortográficos, sem darem conta, eu fazia-te e acontecia-te, rasgava-te a combinação de seda, arrancava-te as botas pelos tornozelos, enfiava-te os dedos por entre as cuecas, dava-te uma trancada aqui e agora que até perdias o fôlego, acredita!, e eu fazia-te um broche mas apertava-to de tal maneira que nem te conseguirias vir e cavalgava-te a noite toda, cala-te que não me aguento, temos de nos encontrar, tás doido?, não fodemos bem assim?, melhor que muita gente no aconchego da caminha...espera, falemos de outra coisa, das presidenciais, do soares e do cavaco, sim?,olha... o que é que fizeste hoje? pensei em ti e nas mil e uma maneiras de te foder, no chão, contra a parede..., se é contra a parede é só uma maneira!, não é nada! podes estar de costas e eu ir-te tipo à canzana, ou então de frente, espalmada contra o reboco, vês? vejo, mas nesse caso terias de entrar por baixo e fazer uma espécie de slide até encaixares em mim, percebes? cala-te, foda-se!, que não consigo escrever, fico sem mãos..., se estivesses aqui, vinha-me na tua cara e obrigava-te a engolir e depois a ladrar, se ladrasse e engolisse, engasgava-me de certeza e depois vomitava-te em cima, és uma porca, olha, filho, desliga, desliga, podes sempre desligar, sign out, sign out, liga mas é a cam... tás doido, conheço-te de algum lado?, isso é só para amigos..., e as tuas mamas? são grandes, copa C, tás a gozar, não tás?, não, não estou... eu gosto de maminhas pequeninas, das que cabem nas mãos, azar, as minhas são grandes, é pegar ou largar, tá bem, eu pego, não hão de ser assim tão grandes, o suficiente para sufocares nelas, a não teres cuidado..., e como seria isso?, então: mergulhavas-me no colo, amarfanhavas-te no rego que fazem quando me debruço e depois eu apertava-te o aparelho nasal enquanto me lambesses..., pois, ok, podia ser que assim não me viesse logo, lá está, é um problema, esse..., és mesmo doida, pá, e tu és um ganda tarado...

(entremeios de loladas e smileys).

Acabavam sempre da mesma maneira: uma das mãos de cada um, espalmada no teclado em frente, enquanto a outra mão de cada outro, seguia dentro e fora, pelos arredores encharcados do corpo e, nos ecrãs de ambos, apareciam coisas estranhas como

hlkahfdelwçr4ypr1weihjçqwiefudlkclskdçqwrsjarywjfsdkjtlwuqyfldksjkjadefwet4rtyerfdkjfids!!.

Um dia, no cumprimento de promessa impensada, saída de um orgasmo sincrónico, encontraram-se por fim para um café. Como velhos conhecidos, dissertaram sobre o traseiro sobredimensionado da brasileira que os servia, a solidão do velhote que, sentado no sopé da estátua, dava milho aos pombos, problemas de software, e o facto de o patrão dela se negar a descontar para a segurança social. Ele pagou-lhe o café e a água mineral e, à saída, pegou-lhe na porta para que passasse primeiro. Despediram-se com dois beijinhos na cara e passaram a trocar emails sobre meninos doentes e a fome no mundo (daqueles em corrente), fotos em alta resolução do Kilimanjaro e demais natureza (apresentadas em power point) e piadas sobre o Bush, louras burras e portugal no seu melhor.

Mas sou tudo eu...

Depois de anos e anos a fio a tentar agradar a todos (e parecia que quanto mais tentava pior era!) houve uma altura por aí algures no tempo em que deixei de me preocupar tanto com o que vinha de fora para dentro e mais com o que ia de dentro para fora. Sendo eu a gaja básica e linear que sou (com a devida imaginação fértil já mencionada que piora consoante as luas, e a falta de sono e de outras coisas mais), parece-me normal que este meu tipo de postura transpareça nas coisas que escrevo. Claro que sei que nem tudo o que digo é do agrado de todos. Aliás há certas coisas que tenho a certeza que desagradam a alguns. Mas neste momento não me evito de escrever o que acho que preciso de escrever. São coisas que me estão atravessadas, algumas já há tantos anos que quase lhes perdi a conta, e preciso de deitá-las cá para fora.

Em tudo o que escrevo, como em tudo o que digo e em tudo o que sinto… está a minha marca pessoal. Esta que aqui está como em todos os posts neste e noutros blogs com a minha assinatura, sou eu com todos os meus receios, dúvidas, devaneios, alucinações, qualidades e defeitos. Não sou perfeita e aliás sempre achei que a perfeição era algo indefinível porque sendo eu liberal como sou acho que temos todos o direito à diferença e a perfeição a meu ver está precisamente na busca interior do que nos diferencia dos outros muito mais do que naquilo que nos aproxima deles. Mas aceito e compreendo que haja pessoas que não gostem do que eu escrevo. Que não se identifiquem sequer de todo. Isso é normal e a meu ver é mesmo saudável! Serei um bocado anárquica nesse aspecto talvez…

Mas em jeito de conclusão o que queria dizer (desabafar) é que o que aqui está escrito é de mim assim como tudo o resto que escrevi desde sempre. Quem não gosta não tem que ler. Quem lê e não gosta pode decidir que afinal não gosta de mim. É normal e natural! Não me vou sujeitar nem tentar escrever doutra forma que não a minha porque isso é algo que me transcende e nem sinto que tenha capacidade para o fazer. Aceitei o convite para aqui escrever precisamente porque achei que aqui o podia fazer da única forma que consigo. Quem não gosta do que lê (e mesmo que isso implique que deixem de gostar de quem eu sou)… paciência! Não vou mudar. Estou demasiado velha para isso e além disso estou a gostar demasiado das liberdades literárias (e não só) que adquiri através da minha escrita nos blogs.

meu amor

Meu amor, como te desejei!
Tentei não te amar, magoada pelos fracassos anteriores. Por isso, enquanto não te tinha mesmo meu, não te chamava por nomes ternos, deliberadamente. Arranjava umas designações frias, secas, mas tudo era inútil: acabavam por ser diminutivos.
Lembro-me de tudo. Como te angustiavas, no princípio, se eu não te sorria; como me acordavas aos beijinhos a dizer que eu era a mais linda do mundo; como corrias para mim e me abraçavas de um modo quase doloroso e eu ficava quieta, a cheirar o teu pescoço quente e a sentir a batida acelerada do teu coração a furar-me o peito.
Sempre me disseste frases curtas de um enorme tamanho. O modo como descreves o mundo faz com que tudo pareça mais bonito e puro, mesmo que já contenhas em ti a noção da precaridade das coisas, que vem com a perda de alguma inocência.
Vejo-te, faz hoje anos, dependurado dos braços de um enfermeiro, todo verde, em sofrimento, a voar pela primeira vez para longe de mim. Voltaste passadas umas horas e eu já tinha tantas saudades tuas.
Nessa altura ficavas encostado a mim, serenado com o leite que sorvias do meu seio, embalado na minha voz, apaziguado pelo calor da minha pele. Agora, passas um braço enorme por cima dos meus ombros, enquanto me explicas qualquer coisa que eu não perceba; foges de mim a querer que eu te persiga para mais um (como lhes chamas) round de carinho. Mas do que tu gostas mesmo, mesmo, é de me mostrar como já consegues, perfeitamente, transportar a tua mãe às cavalitas.
Adoro-te, meu amor. Muitos parabéns.

23.11.05

De Amor e de Dúvidas

Eu sinceramente não sei que será isso do amor. Os livros e os filmes dizem-me que é assim uma coisa de fazer voar e ver passarinhos e estrelinhas e fogo de artificio, que só acontece uma vez em cada vida e que quando acontece é para sempre. A pessoa a quem o declaro leva-me a crer que é assim uma coisa que faz sorrir e sabe bem no estomago, uma espécie de sentir um abraço permanente. Não acho que seja coisa pra ser eterna e única, acho até que amor e hábito se confundem e entrelaçam: Será que digo amo-te todos os dias à mesma pessoa porque faço uma análise interior e vejo que sim, que amo esta pessoa, ou será que digo amo-te todos os dias à mesma pessoa porque é a minha rotina e sabe bem e gosto de a repetir? Se um dia a meio da noite me trocassem a pessoa que amo e pusessem lá outra, e eu de manhã lhe desse um abraço e lhe dissesse amo-te e me soubesse bem, se calhar isso era amor.
Acho que o amor acaba quando as pessoas se convencem que acaba: um dia decidem que ouvir bater com o talher no prato é uma coisa irritante e começam a pensar que a banha é feia, os pelos do nariz nojentos e a conversa chata e dizer amo-te deixa de saber bem. É por isso que me custa ver relações acabar "só" porque as pessoas de repente têm dúvidas sobre se amam ou não (sem haver um problema inultrapassável ou um "upgrade", digamos assim): essa merda é psicológica!!!!!

22.11.05

Snif Snif.....

Deixem-me vir carpir para aqui, please!!! Escreve-vos uma Krassimira desfigurada, transtornada e desalentada!
Neste momento só me ocorre uma pergunta: posso processar o meu cabeleireiro por danos morais à minha pessoa? Estou um farrapo! Sinto-me esfrangalhada com franja e tudo! O espelho manda-me dar uma volta e até a gata fugiu para longe, certamente horrorizada. A família finge-se solidária e compreensiva mas anda a gozar com o meu cabelo atrás das portas da casa de banho e da cozinha. Pensam que eu não ouço, mas até daqui estou a escutar os risinhos abafados sobre a "pobrezinha, que figura aquela! ih ih ih" . A senhora da tabacaria teve que pôr os óculos para me reconhecer e garanto-vos que o esgar dela não foi nada discreto.
Como apareço amanhã no escritório? Digam-me! As gajinhas/colegas giras de boa pernas hão-de enviar mails umas às outras com descrições inomináveis do meu cabelo novo e depois deitam-me olhares de zombaria nas minhas costas. Sim, porque na minha frente são umas dissimuladas: "Está diferente! Às vezes é preciso mudar de visual". As parvas! Não dizem mais nada e eu sei bem porquê.
Sei que vocês me vão aconselhar a lavar de novo o cabelo em casa. O que pensam que fiz logo que cheguei a casa? Ficou melhorzinho depois de três ganchos e creme, lá isso ficou. Mas e aquela espécie de franja que está em cima da minha testa tipo farripas?
É o horror! Amanhã vou tentar remediar esta coisa. E a culpa foi minha e só minha. Com esta idade e a pôr-me com modernices! Logo eu, uma sujeita que usa o mesmo tipo de gabardine há séculos!
E agora vou enfrentar o jantar, com a cabeça enfiada no prato, na esperança de que os ganchos não caiam e que se esqueçam que eu existo.
Obrigada querido blog por este desabafo. Pelo menos tu estás caladinho que nem um rato.

carinho...

Quando estiver contigo vou-te dar abraços e apertar-te até te saltar um olho fora. Depois dou-te beijos até te romper a pele. Depois faço-te festinhas na crosta.

21.11.05

E porque quem quer demais tem que acabar mal (Marvela parte II)

(Marvela vampiresca supersónica do sangue negro dos homens que sugaste e finaste, hoje a tua história vai acabar mal…)

Ele era um ser mágico, desconhecido e temido por todos os que dele ouviam falar. Zoficristo era da raça dos homens o mais carismático e tenebroso. Os sábios da espécie resolveram convoca-lo para que pudesse ajudá-los a resolver o problema da quantidade cada vez maior de homens que sucumbindo ao poder de Marvela engrossavam a legião de mortos vivos. Alguém teria que enfrentá-la e esse alguém só poderia ser ele. Zoficristo era a última esperança da raça dos homens acobardados pelo poder inultrapassável da melhor das amazonas lunares. Estaria ele à altura de tão maquiavélica criatura? Seria ele capaz de conter o sangue que fervia num crescendo borbulhar assim despertado por um só olhar? Estavam nele depositadas todas as esperanças dos homens.

Zoficristo preparou-se para a batalha final. Ele sabia bem o que ela fazia aos seus adversários, e a marca que lhes deixava e que os tornava definitivamente impotentes e secos por dentro. Fosse o que fosse que ele usasse contra ela tinha que vir de dentro e tinha que ser inesperado. Além de se precaver contra o olhar fatal teria ainda que saber em que momento desferir nela o golpe letal.

Numa noite escura, em que as próprias estrelas se tinham escondido e apagado para não se envolverem em tão sórdida disputa, Marvela e Zoficristo encontraram-se frente a frente. Dois dos mais belos espécimes que alguma vez tinham sido engendrados. Despojados de todos os apetrechos a ela só lhe podiam valer os olhos, a boca e os dentes… e a ele o seu pau espetado. E que membro era aquele que ali se agigantava. Até Marvela que de tudo já tinha provado se espantou levemente com o tamanho da coisa que ali se impunha à sua frente. Qualquer coisa estava errada ali… e ela pressentia uma sensação interior nunca antes vivida. Mas de gulosa que estava por chupar o pénis gigante do homem escolhido, Marvela caiu na armadilha e agarrando-o quis introduzi-lo na boca para o sugar. Zoficristo soube esperar e assim que a sentiu ferrar o dente, um finíssimo fio de arame invisível soltou-se-lhe de dentro do prepúcio do pénis imponente. O fio de arame percorreu as entranhas de Marvela de uma ponta a outra e de tal forma a encheu de finíssimos cortes interiores que Marvela se defez numa enorme poça de sangue negro e espumoso. Não sem antes olhar para os olhos de Zoficristo e reconhecer neles uma sombra de um conhecimento passado…

Pois sim… o pénis de Zoficristo não era real. E Zoficristo era afinal Zoficrista, eterna rival de Marvela na comunidade de amazonas lunares. Zoficrista despiu o seu fato de silicone moldável e ali apareceu o mais belo exemplar de sempre da raça das amazonas lunares. Agora sim, a justiça estava feita e Marvela que tudo queria não era mais! Zoficrista abeirou-se da poça de sangue e com ele se pintou. Sentiu-se finalmente dona, senhora e rainha da raça das mulheres, livre que estava da ameaça marvélica que ali aos seus pés jazia.

Com um riso forte e estridente, Zoficrista respirou o ar da noite e ali começou o início duma nova era por ela dominada. E internamente se riu também por ter enganado os sábios da raça dos homens. Eles como ela deviam bem saber que nenhum dos da sua raça poderia algum dia sequer ambicionar destruir uma amazona lunar!

cabelo pintado e outros adereços

um amigo meu diz que o grito do ipiranga das mulheres é pintarem o cabelo de vermelho. por mim, berro em silêncio e uso outros suportes cromáticos para os vermelhos, mas tenho uma boina bordeaux. que uso raramente, escorrega e em portugal não é comum usar chapéu. também tenho uma peruca preta asa de corvo que ás vezes ponho, berrando muda um grito qualquer de alteridade. mas não é o do ipiranga.

Eu conto, tu contas, elas contam...

Tenho estado atenta aos vossos contos - da passada semana mais especificamente - os quais, devo dizer, gostei imeeeeeenso queridas! Houve apenas um pequeno pormenor, que por ser comum a quase todos, me deixou a pensar...será que, quando for altura de ficar à cabeceira dos meus meninos a contar histórias de dormir, os finais já mudaram para tiveram muitos orgasmos e viveram felizes para sempre...?

Marvela vampiresca supersónica (parte I)

Era uma vez num espaço sideral longínquo uma mulher como nunca houvera existido igual. Marvela tinha um corpo que qualquer mulher e até alguns homens matariam para ter. Parecia esculpido a silicone, cheio onde deveria ser cheio e lisinho e firme nos outros lados. Assemelhava-se aqueles hologramas que milhares de programadores demoravam horas a programar. As maçãs do rosto bem salientes e rosadas q.b. Olhos de cor indefinida que assumiam tons de verde ou amarelo consoante a intensidade da luz. Um nariz absolutamente fino e perfeito. E um queixo tão redondo e simétrico que quase parecia uma aberração da natureza. Os cabelos castanhos claros caiam em cascata sobre umas costas em triângulo brutalmente apetecíveis. É difícil descrever o corpo de Marvela em palavras mundanas e banais. Tivesse ela sido esculpida pelo melhor escultor do século XXV e mesmo assim não seria tão resplandecente como era. Claro que Marvela cuidava bem do seu corpo. Fazia aero-ginástica duas vezes por dia e ginástica micro-localizada várias vezes por semana. Com o dinheiro que ganhava a posar para capas de jogos da PS2475 podia-se dar ao luxo de pagar esses tratamentos de micro-fotões que disparados sobre o seu corpo produziam o efeito desejado… e que efeito!

(Pequena pausa para que a autora possa pré-visionar estas capas de jogos feitas de hologramas sobrepostos… cada capa contendo milhares de fotogramas sobrepostos pela mais avançada tecnologia 3D, e com códigos para crackar e visualizar os fotogramas secretos… só os mais persistentes conseguiam visualizar o melhor de cada capa…)

Marvela era assim uma maravilha supra humana resultante de uma mistura genética e tecnológica perfeita. E ela sabia que assim era. Sentia os olhares dos homens da era pós-moderna permanentemente postos em si. Sabia que esses homens sonhavam dias a fio com ela e com o seu corpo maravilhoso. Sentia-lhes o fogo interior que emanava dos seus sexos que se avolumavam só com o seu olhar. Dava-lhe um prazer imenso ter este poder sobre os homens. De todos os poderes que os homens tinham conquistado na nova era, o poder sexual ainda não lhes pertencia. Caíam a seus pés como objectos despojados de razão e identidade. Suplicavam-lhe que os deixasse tocá-la, cheirá-la, sentir nas mãos o toque único daquela pele esculpida por centenas de milhares de raios nano-electrizantes.

Sendo órfã de pai e mãe como quase todos os seres do século XXV, Marvela tinha sido educada numa comunidade exclusivamente feminina. Não porque assim tivesse que ser mas porque tinha calhado. As máquinas que distribuíam as crianças faziam-no de modo semi-aleatório mas tendo sempre o cuidado de não sobrepopular nenhuma das comunidades existentes. A escolha não teria sido assim tão casual porque Marvela já possuía a marca genética das amazonas lunares. Já possuía em si a marca dos corpos estratosfericamente perfeitos. Na comunidade onde tinha sido educada tinham falado da raça dos homens, estruturalmente semelhantes mas marcadamente distintos da raça das mulheres. As amazonas lunares não eram anti-homens, apenas achavam que a raça era inferior porque lhe faltavam certas riquezas interiores que só as mulheres possuíam. Por mais avançada que fosse a tecnologia os homens do século XXV ainda não conseguiam fazer crescer no seu corpo um feto concebido artificialmente e as tentativas de o fazerem externamente até agora tinham todas falhado. Nenhuma maravilha da tecnologia substituía ainda o útero de uma mulher. Mas Marvela não pertencia às portadoras de novos seres. O seu destino era despertar paixões nos homens e não carregar os filhos deles. Às amazonas lunares faltava-lhes o instinto maternal. E sobejava-lhes o instinto sexual. Marvela aprendeu tudo o que as suas companheiras lunares lhe ensinaram sobre os jogos de sedução que tinham demorado séculos a aperfeiçoar. Marvela sentia-se a melhor e a mais poderosa da sua espécie.

E era à noite que Marvela se sentia melhor preparada para caçar. Tinha como objectivo seduzir e conquistar todos os seres pertencentes à raça dos homens. E todas as noites partia em busca de sangue novo. Parece mesmo que a estou a ver daqui… farejando o ar à procura do calor próprio específico dos homens carentes e talvez até desesperados. Aproximava-se dos pobres coitados e fossem para algum lado ou mesmo ali nalgum beco mais escuro da cidade das horas mortas ela apoderava-se deles. Enlouquecia-os, desfazia-os interiormente, sentia-lhes o sangue a fugir para o pénis dolorosamente espetado de encontro à sua pele resplandecente. Roubava-lhe o calor interior, chupava-os de uma forma que os deixava sem pio nem tino. Sugava-lhes a vida e a energia através do sexo. Saciava-se e renovava-se em cada encontro. E no fim… marcava-os. Só os possuía uma vez e depois disso com os dentes desenhava-lhes um “M” na ponta do pénis. Era a sua marca, a marca de Marvela.

O seu apetite era insaciável. Fosse por ter nascido assim ou por educação Marvela adorava os sucos espermicos assim obtidos e sabia que um encontro por ela proporcionado não era facilmente esquecido e nem sequer era pela marca que lhes deixava. Tinha o poder de os fazer produzir esperma em quantidades nunca antes experimentadas e ao sugá-los dava-lhes um prazer certamente temporário mas absurdamente longo. E eles sentiam o esperma a fluir deles para a boca dela, enorme e quente, e era um rio que não tinha fim… e era um prazer inesgotável para eles, mesmo que no fim o sangue já se misturasse com o esperma à medida que Marvela os mordia e marcava aproveitando os momentos orgásmicos que os deixavam de resistências diminuídas.

Marvela era um sonho e um pesadelo. O sonho de qualquer homem que ainda não tinha sido por ela possuído e um pesadelo para os que por ela tinham sido marcados. A partir do orgasmo marvélico que ela lhes proporcionava, os homens deixavam de ter interesse fosse no que fosse. Perdiam o fogo interior que muitas vezes os animava e quem os visse assim sem brilho nos olhos percebia que faziam já parte dos mortos vivos. Eram depois recolhidos pela Sociedade Anónima de Cuidados Paliativos aos Mortos Vivos que os levavam para uma comunidade estrelar distante onde acabavam por se finar sem remédio algum que os pudesse curar.

(Pausa para a autora pensar como é que a gula desmedida de Marvela a irá atormentar no final… é que neste momento a coisa está-lhe a correr tão bem que eu desejaria uma longa e eterna vida a Marvela! :-P)

20.11.05

Something must be wrong with the gods of little people

A gente acha sempre que eles são pequenos anjos, que deus poderá não existir mas que uma estrelinha algures vela por eles porque são tão pequeninos e qualquer entidade para além de nós deveria velar por estas miniaturas de gente. Mas não há lá nada fora e o sofrimento quando atinge não escolhe idade nem tamanho. E nem sequer me posso queixar eu sei. Há crianças que morrem todos os dias, à fome, vítimas de maus tratos, vítimas de doenças incuráveis algumas com nomes demasiado complicados para que até os adultos entendam.

Esta noite foi uma noite de agonia e só sabe quem por elas passa. De quarto em quarto de hora via um corpinho (tão pequenino e fraquinho ainda) ser assolado por espasmos, barulhos nojentos que vinham de dentro para fora. Vomitou tudo o que lá tinha e continuou na mesma… vomitando em seco toda a noite até de manhã. E dizia-me que não queria, que não queria mais vomitar… como se eu pudesse de alguma maneira parar aqueles espasmos que a acometiam e não a deixavam descansar.

Retiro o que escrevi no outro dia… o pior de tudo em relação aos filhos é mesmo quando eles estão assim doentes e nós nos sentimos impotentes para os ajudar. Eu sei que tenho sorte porque há crianças que estão sempre doentes e as minhas tem sido saudáveis. Não sei se aguentava ser mãe de crianças doentes, fico bloqueada perante o sofrimento das minhas filhas. Enervo-me e angustio-me de tal forma que mais nada me interessa. De aqui lanço uma respeitosa homenagem a todos os pais de filhos doentes. Que a vossa força vos acompanhe sempre já que os deuses dos pequenos seres os abandonaram…

(E já agora se alguma alma caridosa me puder dizer o que posso fazer para parar os vómitos a uma criança pequena, fico muito agradecida…) - já sei... primperan!

19.11.05

(Re)começos

Ama-me esta noite.
Quente, amargo e doce.
Dobra-me, marca no meu
Corpo o teu caminho.
Rasga-me, abre-me
Arranca-me de mim
Em pedaços sangrentos.
Enche-me, faz-me gritar,
marca-me com um ferro em brasa.
Amarra-me,
Não me deixes fugir.
Reescreve-me.
Recomeça-me esta noite.

O fantástico mundo novo

Na Fortune de Outubro vem um artigo do visionário Stanley Bing sobre a evolução tecnológica deste nosso mundo novo. Diz ele que quando começou a trabalhar há umas décadas atrás nem sabia o que era um modem… e hoje nem precisa sequer de um para se ligar ao fantástico mundo novo que é a Internet. Não podemos deixar de pensar que um dia (que se calhar até já chegou) a evolução tecnológica será mais rápida do que qualquer um de nós possa pensar ou sequer acompanhar. Um dia as máquinas evoluirão por si próprias… eu tenho a certeza disso.

E como diz o Bing, já não posso passar sem o meu portátil (ligado 24h por dia e de preferência wireless), o meu telemóvel 3G com todas as funcionalidades e mais algumas que até eu desconheço, o meu iPod Nano que um dia destes consegue armazenar todos os meus álbuns num chip quase invisível a olho nu (e já agora todos os meus filmes também!)

"See it! Want it! Get it! And so the world improves. For a little while. And then? On to the next! Because you gotta." Mudar de portátil de ano a ano já não é suficiente. E mudo o telemóvel de 6 em 6 meses com tendência a reduzir. Porque as novas tecnologias demoram cada vez menos tempo a produzir. No limite o que compramos amanhã já estará desactualizado no dia seguinte. Pode ser um pouco assustador, mas a mim não me incomoda minimamente. É apenas uma nova forma de ser e de estar (e de trabalhar). É apenas um fantástico mundo novo para descobrir e conquistar.

(O artigo termina duma forma hilariante… o autor está ligado e escreve dentro do comboio e de repente tem que sair e está a chover lá fora… comentário final: "Weather. It’s so analog. We’re really going to have to do something about it, you know?")

Noites atribuladas

E as 5 da manhã ela toma o Actifed porque eu preciso de dormir...

18.11.05

um dia diferente

O meu carro, não só é de gaja, como é porco. Com tanto prurido em deitar lixo pela janela por causa da merda do ambiente, do reciclável e o camandro, os restos da minha vidinha vão-se acumulando, em contornos everésticos, por cima e por baixo dos bancos, na bagageira, no porta-luvas e restantes compartimentos. Ali, nada se abre sem que de lá caia o conteúdo em catadupa, e nada se fecha sem ser de empurrão.
Sim, sim, toda a gente já sabe que, em carro de gaja, ele é chupetas, ipods, preservativos, bolachas, cêdes sem caixa, toalhas, holas de há meses, iada iada iada. Mas a incontinência material, no seu extremo (é o caso), pode deixar-nos a pensar seriamente no sentido da vida e nas vantagens duvidosas de se ter tido uma educação superior. Se não, vejamos.
Outro dia, o meu carrinho avariou em plena Alameda da Universidade de Lisboa, cá em baixo junto aos semáforos, impedindo qualquer automobilista de a contornar, o que foi simpático. Fez-se uma bicha jeitosa, veio o reboque (espantosamente célere) e vai de trasladar a lixeira acumulada para o carro de quem, generosamente, se prestou então a resgatar-me. Na pressa, está bem de ver, houve coisas que ficaram para trás.
Hoje, impingida que me foi, pela oficina da marca (a puta), uma nova bomba de gasolina, lá fui, fodida mas pimpona, buscar o meu lindo carrinho que me esperava lavadinho e reluzente. Quando cheguei, dois mecânicos-técnicos-de-limpeza, ainda se afadigavam nos finalmentes: notei, não obstante, que me olhavam com acutilância mal-disfarçada.
Blá blá blá práqui, blé blé blé pracolá, aqui está o seu carrinho, impecável, obrigada, tomem lá catrabiliões de oiros do meu subsídio, seus cabrões, aposto que essa merda só precisava de um o-ring novo (vêem como percebo destas coisas?), um muito bom dia e um queijo pelo cu acima, tá?
Sento-me no lugar do condutor, olho para o lado e vejo, devidamente acondicionados em cima do banco, os despojos que haviam ficado esquecidos na pressa da fuga (que estes senhores, quando roubam, fazem-no em grande e poupam-nos as ninharias).
Lá estava um Público de há quinze dias, uma garrafa de água a cheirar a rãs mortas, um CD pirata sem caixa (claro) e.... umas cuecas. Sim, exacto, leram bem: umas cuecas.
No meio daquilo jaziam, dobradinhas em dois que até pareciam passadinhas a ferro, umas cuequinhas às florinhas da Zara. Basicamente, azulei.
Enquanto acelerava dali para fora e desrespeitava um vermelho, lembrei-me daqueles fins de tarde de Setembro, quando guardava no carro um saco de praia com toalha, bikini e bronzeador, e bazava para um mergulho clandestino na Costa. Chegada ao parque de estacionamento, trocava-me dentro do carro, sendo que tenho a certeza absoluta de que, na ânsia de provar o mar salgado, nunca me terei dado ao trabalho de dobrar amorosamente as cuequinhas mas, antes, tê-las-ei amarfanhado e atirado para um canto qualquer.
Portanto, resumindo: um par de cuequinhas às flores, usadas, terá andado (na melhor das hipóteses) de mão em mão num grupo de mecânicos; um deles, o mais organizado, ter-se-á dado ao trabalho de as dobrar (tê-las-á lavado antes? tê-las-á usado?...) em dois.

Passada a vergonha e o sinal vermelho, senti-me afinal satisfeita, por saber que lhes terei distraído a atenção dos pistons, e o olfacto, do aroma lavanda do limpa-estofos, e que lhes terei proporcionado um dia diferente. É que ele há males que vêm por bem, sei lá.

iada iada iada iada iada iada iada

Fui almoçar com uma amiga.
Só voltei agora. :)

adivinha

Qual é coisa, ai, quem é ela, ora
que ou se torce toda :-S, ou deita a língua de fora :-P?

As voltas que a vida dá

- Vou-te amar para sempre.
- Para sempre é muito tempo.

a velhice no meu corpo

Já me doía ontem, quando acordei.
À hora do almoço fui nadar. Fiz as mesmas cinquenta piscinas, em mais cinco minutos que os habituais vinte. Costumo nadar a um ritmo certo e faço este programa com uma perna às costas, mas ontem parei no fim, ofegante, em vez de me içar logo para fora da piscina.
No jacuzzi, muito tia, tive durante dez minutos o corpo massajado por bolhas quentes, enquanto observava os movimentos do professor de hidroginástica e respectivos alunos. Pareceu-me um prazer demasiado manso, serôdio, mas um estado intermédio de prazer, ainda assim, apreciável.
Bem dizia eu que ela andava a rondar. O frio que tomou de assalto a minha excessiva magreza tranformou-me de rapariga irrequieta em velhota entrevadinha. Hoje acordei com as costas bloqueadas: eis-me aqui, condenada à quase inacção.
Malvada degradação. É como ter que gritar num sussurro.

Ao ponto que isto chegou!

Comentavam os meus colegas sobre uma gaja boa que acabava de passar e eu a dizer-lhes que aquilo parecia mal porque eles eram todos homens comprometidos e vai um deles e diz: “Um gajo pode estar de dieta mas isso não implica que não possa olhar pró menu!”
Ao que eu respondi… “Ahhh… olha que pena… pois eu queria era mesmo alguém que chegasse e trincasse o dente, estivesse ou não de dieta!!” :-P

(Escusado será dizer que agora todos os meus colegas sabem do que eu sinto falta!)

Manias

Colecção Outono-Inverno

Aquecer o quarto muito, muito, para ficar muito quentinho.
Deixar uma luz acesa.

Mentir.

Só pedia licença a primeira vez. "Mãe, gostava de ir à discoteca". A resposta era um não sem apelo, daqueles que não vão lá com chantagens, choros e menções de passagem às boas notas escolares. À segunda já não ia à discoteca, ia fazer trabalhos de grupo para casa da S. (que morava a uma distância conveniente e cujo pai era a favor de discotecas). Não mentia sempre, apologista de o que não sabes não te magoa, optava o mais das vezes por não mencionar nada que me parecesse que me poderia meter em problemas: escondi namorados, bebedeiras, tabaco e sexo. Era organizada e mantinha uma lista de "trabalhos de grupo" que já tinha feito, das casas onde já tinha "ficado", e de um ou outro amigo fictício que de vez em quando inventava, uma base de dados que consultava ocasionalmente para não ser apanhada em falta. Era boa, mas já tinha um largo treino: desde pequena a esconder legumes semi-mastigados pelos cantos da casa e a gamar a moeda ocasional para comprar rebuçados.
Tinha amigos que faziam o mesmo que eu, amigos que simplesmente ignoravam ordens, amigos que faziam birra e amigos que vomitavam até os deixarem ir. A maioria de nós sabia exactamente o que tinha de fazer para conseguir o que verdadeiramente queriam (claro que tambem tinha amigos que preferiam não se chatear e obedeciam, mas como em tudo na vida era uma questão de tomar opções: havia coisas que valiam a pena e outras que não)
Agora vejo os mesmos amigos com filhos e irmãos mais novos a acreditar em tudo o que eles dizem e a achar que não fazem nada para alêm do que dizem e dá-me vontade de rir. Não sei se, se tivesse filhos, ficaria também assim (talvez o amor seja cego e o meu filhinho é muito boa pessoa e nao seria capaz de mentir à mãe), ou se pelo contrário seriam vitimas de uma mãe tirana que questionaria a veracidade de tudo Vais fazer um trabalho de grupo à casa da joana? ah, deixa-me rir, vais o caraças, é que vais!

O triunfo do amor

(E bom fim de semana para todos e todas!)

Era uma vez um velho muito rico e muito sábio chamado Troquenada. Vivia num país no interior do mundo, naquelas terras perdidas entre as neblinas que desciam das montanhas e colinas que as rodeavam. Era muito difícil encontrá-lo e todos os viajantes se perdiam naquelas paragens, todos os caminhos pareciam igualmente tenebrosos e obscuros. Troquenada tinha muitas visitas por ser tão sábio e profundamente conhecedor da natureza humana em toda a sua complexidade e variedade. Males do corpo e do espírito… de todos Troquenada entendia e tratava. Por isso tanta gente o procurava. E não desistiam mesmo sabendo que a viagem era muito difícil e ousada e que muitos se perdiam sem conseguir chegar até onde vivia Troquenada.

Apesar de ser muito rico e possuir tudo o quanto poderia querer ou desejar, o velho Troquenada queria sempre ter mais e sentia que tudo faria para obter o que em determinado momento pretendia ou desejava. Exigia portanto preços exorbitantes a quem o procurava e além disso se sentia que possuíam alguma coisa que o interessava era capaz de os enfeitiçar para que lha entregassem a ele. No seu castelo isolado e muito bem guardado entre pântanos e florestas de neblinas possuía umas catacumbas que ia construindo nas entranhas do subsolo há medida que ia coleccionando riquezas e posses. Tudo o que obtinha lhe dava um prazer e satisfação invulgares. Perdia-se na observação constante dos seus troféus… e ria-se muito por todos conseguir enganar e no fundo roubar!

Um dia apareceu um velho triste e cansado que lhe vinha pedir algum elixir ou fórmula que lhe devolvessem a forma e a alegria. A mulher tinha-lhe morrido há uns anos largos e ele tinha ficado sozinho com uma filha para criar. Ao falar casualmente dela, mencionou um tesouro escondido. Qualquer coisa ficou no ar o tempo suficiente para despertar a atenção de Troquenada. Se realmente de um tesouro se tratava, ele queria saber onde se encontrava! Enfeitiçou o velho e obrigou-o a contar a sua triste história. Um amor sem limites entre dois belos jovens… um casamento de sonho… a vinda de uma criança para abençoar uma família recém criada… o terrível sofrimento da mulher após parir… a maneira como nunca se recompôs totalmente desses momentos atrozes… como deixou de gerir o lar… negligenciando marido e filha… e como após uns anos se tentou matar… e repetidamente o fez até que finalmente foi bem sucedida. Viver assim uma vida… com uma mulher presente mas de espírito ausente e suicida… não tinha sido vida!

E a sua filha Mraia tinha sido um bálsamo toda a vida e se não fosse por ela seguramente já não existiria. Incansável, alegre e forte, Mraia tinha-lhe facilitado sempre tudo, mesmo em relação às crises de loucura furiosa da mãe. É que havia mesmo alturas em que tinham que a fechar num quarto escuro e apertado para que se acalmasse após passar ali um bocado. Mraia nunca se tinha queixado. Nem da mãe que nunca tinha conhecido, nem do pai quase sempre ausente em trabalho. Educava-se e cultivava-se pela leitura dos livros de aventuras e fantasias que o pai lhe ia trazendo das suas viagens por terras distantes. E ia construindo um tesouro interior que só mostraria a quem fosse merecedor… que tesouro seria… ninguém o sabia a não ser Mraia que interiormente ia enriquecendo com a experiência que adquiria…

Troquenada já estava com água na boca só de pensar no que seria… que tesouro possuiria aquela jovem aparentemente desprovida de qualquer interesse? Apenas a palavra tesouro o perseguia e incomodava o suficiente para ter curiosidade em saber mais. Já agora queria ver a jovem e queria descobrir o que ela escondia! Enfeitiçado o pai, e facilmente, Troquenada obteve a informação necessária para chegar à jovem Mraia e sem hesitar mandou os seus guardas pessoais irem buscá-la.

Mraia chegou ao castelo atemorizada e sem perceber o que se passara. Entendia que o pai estava ali prisioneiro dum velho que talvez fosse feiticeiro. Queria muito ver o pai e saber se estava bem de saúde porque o velho já tinha pouca resistência e muito menos sendo assim maltratado. Levaram-na para junto do pai que lhe explicou o que se tinha passado. Troquenada estava disposto a ajudá-lo se Mraia lhe desvendasse o seu segredo, o seu tesouro no seu mais profundo e íntimo guardado!

Ela nem sabia o que pensar ou dizer… era uma coisa tão íntima e sua! Como mostrar o seu tesouro a um velho louco que nem conhecia? Ainda se fosse um jovem bem parecido… Enfim, qualquer coisa haveria de lhe surgir! Tinha que pensar numa maneira de obter a sua liberdade e a do seu pai. Armou-se de coragem e foi ter com Troquenada que já a esperava. Acercou-se dela e perscrutou-a com o olhar para ver se conseguia na sua mente penetrar. Já andava na caça ao tal tesouro que o pai dizia que ela possuía… mas onde estaria tal coisa guardada?

Mraia contou-lhe que possuía um tesouro sim, mas que não era para qualquer um. Era preciso muito para lá chegar! A mãe tinha-lhe entregue uma jóia invulgar… não para usar no exterior mas para guardar bem no interior… era um anel vaginal! Encrostado das mais belas pedras preciosas que algum dia mão humana trabalhara… e ela Mraia o guardava tal como tinha prometido à mãe antes dela para sempre enlouquecer.

E agora que fazer? Pensava o velho Troquenada para com os seus botões. Não podia forçar a rapariga até porque ela lhe tinha dito que só com um orgasmo brutal libertaria o dito anel… Raios! Que volta haveria ele de dar para libertar a jóia de tão inusitado cofre que escondia esse tal tesouro que agora pretendia acima de todas os outros que já possuía?! A solução claro está passava por Mraia. Tinha que a conquistar de alguma maneira, e depois logo se via!

A rapariga era bonita, não demasiado, mas tinha a juventude do seu lado enquanto que ele já tinha perdido a conta à idade. Sabia que ao apresentar-se tal como era seria muito difícil que ela o aceitasse como amante extremoso… Portanto fechou-se no seu laboratório e passou dias e noites a aperfeiçoar um elixir de tal forma possante que transformasse o seu corpo num portento! Experimentou e variou e ao fim de algum tempo deu-se por satisfeito. Estava exteriormente renovado… parecia um príncipe encantado! E de tal forma que Mraia quase desmaiou de comoção quando o viu aparecer assim transformado!

O feiticeiro dedicou-se então à conquista da mulher que tinha em si o tesouro maior por ele cobiçado. Durante meses e meses passeou com ela todos os dias, conversaram muitíssimo e ela habituou-se de tal forma àquela companhia inteligente que passado um tempo começou a relaxar na sua presença. Deixava-se ficar sempre um bocadinho mais próximo dele. Deixava os seus dedos roçar na sua pele suave e macia… brincava com os seus cabelos dourados e encaracolados. E ao rir-se deixava a sua cabeça inclinar-se ligeiramente até tocar no seu ombro… para que ele a pudesse cheirar! Troquenada era um homem, jovem ou velho, toda a sua maquinaria interior começara a funcionar com a proximidade física de Mraia. Ele bem sabia o que ela lhe estava a fazer e inacreditavelmente ele já sentia uma vontade enorme de a foder! Era verdadeiramente estranho porque Troquenada julgava-se superior e desprovido de todo e qualquer sentimento sexual. Nunca em toda a sua vida lhe tinha acontecido o que lhe acontecia naqueles momentos partilhados com ela. Sentia um fogo interior… um ardor permanente nas suas partes íntimas!

Um dia tinha que acontecer. Já estava mais que escrito e pensado que estes dois se iriam amar. Troquenada já andava tão desaustinado que já nem pensava na jóia que pretendia… apenas se concentrava no fogo que nele ardia e que o compelia a querer possuir Mraia. Nesse dia ela estava mais bonita do que nos outros dias, e os seus olhos enormes pareciam querer engolir os seus… sentia um fogo enorme a arder dentro dela também. Que fosse equivalente ao seu e já não iria ser um encontro lá muito casual! Pegou nela e finalmente beijou-a, na boca e sofregamente… a provou… a deixou prová-lo… que sensação de perdição que o invadia! Lentamente a despiu, se despiu e deitaram-se juntos. Que fascínio, que corpo de mulher mais belo o de Mraia! Um banquete para uns olhos cansados e até aí assexuados… Qual intelecto, qual colecção de velharias… o que ele mais queria estava no interior dela sim… e não era nenhum objecto! O que ele queria era possui-la, penetrá-la e senti-la à medida que a encheria e abriria com a sua espada de fogo…

E assim fez… e assim a penetrou… e sentiu… e abriu… e à medida que percorria os seus caminhos interiores… húmidos e quentes… para trás e para a frente… olhava para os seus olhos e sabia que ela também o queria… também o sentia… também lhe pedia… suplicava que não parasse… mas sem palavras… só com o olhar e com os caminhos que se apertavam e lubrificavam cada vez mais… sem puder conter… um espasmo de dor… um sentimento de amor… ali nasceu… saiu… entrou… abriu… percorreu… dele para ela e depois de volta a ele… um orgasmo maior… uma morte súbita e um renascer dum transe temporário! Ao olhá-la no final viu que ela lhe estendia qualquer coisa que luzia e faiscava. Entregava-lhe o anel vaginal acabado de soltar do lugar onde tinha estado preso durante tantos anos. Estranhamente Troquenada já não o queria! No caminho percorrido para o obter tinha encontrado um tesouro bem maior e muitíssimo mais raro! Tinha encontrado o amor… tinha-se perdido em Mraia e sentia que ela se perdera nele e a partir desse instante toda a sua vida tinha mudado!

Desfez-se de todos os seus bens e tesouros, pegou em Mraia e no seu velho pai e mudaram-se para uma praia tropical onde foram felizes para sempre e onde se amaram até à exaustão. E guardaram o anel vaginal apenas como recordação do que um dia os tinha unido.

17.11.05

Eu escolhia a Gula

Ou, o que mais move uma miuda que chupa a pila do gajo às 7 da manhã, quase a chegar a casa, e com um autocarro parado no transito mesmo ao lado?

FALTAM CINCO DIAS

Nos hospitais públicos há umas salinhas com pc´s ligados à net, não há?

Não vá o diabo tecê-las...

Se já é uma chatice com coisas pequenas:
Mas porque é que eu lavei aquela camisola na maquina? Já devia saber que ia encolher, porque é que eu não a lavei à mão???
e com coisas não tão pequenas:
Mas porque é que eu escolhi esta vida? Já devia saber que não ia ter emprego, porque é que não fui estudar enfermagem ou construção civil??
Imagino como não seria na eternidade:
Mas porque é que eu tinha que foder e mentir? Já devia saber que existe um inferno onde vou passar uma infinidade de dores e aborrecimentos, porque é que não me confessei antes de morrer?

A inveja

(Esta é para ti Cecília!)

Era uma vez dois gémeos Caimino e Abelardo, tão parecidos que pareciam imagens reflectidas num espelho interposto entre os dois. Eram iguais no falar, no andar, até no gesticular! Se um se levantava, logo o outro também o fazia. Se um avançava, logo o outro o seguia. Nem sequer havia líder nem liderado nesta parelha indivisível. Nem a mãe deles se lembrava qual tinha nascido primeiro e depois, para ela tinha-os parido aos dois ao mesmo tempo! E até ela se confundia quando precisava de os distinguir… Qual era Caimino? Quem era Abelardo? Eram indivisíveis e indistinguíveis estes dois gémeos maravilha!

Um dia em que passeavam, um dum lado, outro do outro mas sempre em sincronia, encontraram uma bela menina que chorava num jardim. Maira não sabia bem o que tinha, apenas que lhe doía tudo e que estava muito sozinha. Não conhecera mãe nem pai nem família. Era órfã desde que se lembrava e tinha morado sempre num orfanato enorme cheio de crianças assim como ela. Eram todos filhos de ninguém, e tudo o que mais queriam era apenas e só pertencer a alguém, que os amasse e os cuidasse e os protegesse e alimentasse.

Os gémeos tiveram pena de Maira e resolveram levá-la para sua casa. O pai já tinha morrido e a mãe estava tão velha e cansada que de certeza não se importaria de ter mais alguém a ajudá-la. Os dois passaram então a três e tão bem se entenderam e se integraram que ninguém diria que não eram todos irmãos! Até a velha mãe se esquecia que Maira não era sua filha, de tanto que já se habituara à sua presença constante. A menina era muito querida e tornara-se sua confidente. Foi ela a fiel depositária da história da concepção dos gémeos. Talvez por demência, quem sabe… mas a velha tinha metido na cabeça que aqueles dois eram seres especiais. Que o pai era mera figura de cena, que nunca tinha sido protagonista no que aqueles dois tocava! Achava ela que um dia uma divindade de si se acercara e sem lhe conseguir resistir a possuíra! Maira achava aquilo tudo descabido, mas quem era ela para lhe tentar incutir algum juízo. No fundo até tinha uma certa piada, achar que Caimino e Abelardo eram filhos do além! Eles que tanto a adoravam, que a seguiam para todo o lado e se dispunham a ficarem para sempre juntos em trio!

Claro que este tipo de partilha fraterna tinha os seus dias contados. Um dia os irmãos acordaram e olharam-se ao espelho e em vez de se sentirem iguais… sentiram-se rivais! O que tinha acontecido entretanto? As hormonazinhas do crescimento tinham-se instalado e cá com uma força! De repente Caimino e Abelardo deram por eles a disputar o tempo passado com Maira. Também ela se tinha transformado numa bela e apetecível moçoila. Não eram só os gémeos que andavam atarantados com as transformações corporais de Maira! É que do nada tinham-lhe aparecido uns seios majestosos e esculturais. As ancas alargaram-se em semi-círculos que os deixavam de uma forma nunca dantes experimentada! Os nossos rapazes entretanto começavam a dar sinais da sua masculinidade. As vozes que se engrossavam e perdiam a suavidade da criancice, os pelos que lhes apareciam pelo corpo todo com incidência particular na zona do sexo… e aí sim, que transformação súbita e brutal! Não queriam acreditar os nossos jovens que o crescimento hormonal aparentemente se focasse maioritariamente naquele ponto! Obviamente que não era assim, mas de repente e sem aviso prévio… ele eram sonhos, pensamentos, vontades e desejos… brutais, infernais, carnais! E então com Maira por perto, era um descontrolo que só visto!

Aconteceu numa dessas noites brutais de verão, em que o calor apertava e a lua cheia desatinava a maior parte dos seres vivos (ou pelo menos todos os sexualmente activos que aproveitavam o maravilhoso luar para se amar até fartar!) Os gémeos decididos que estavam a ter a sua primeira experiência sexual com Maira resolveram fazer uma aposta. No calor do momento e no meio de uma discussão nunca antes vista entre dois seres que tão bem se davam… apostaram que o primeiro que conseguisse conquistar Maira e tirar-lhe a virgindade daria para sempre lugar e protagonismo ao outro. Era uma aposta arriscada… até porque implicaria uma separação dos dois irmãos e o fim do trio que lhes tinha sido tanto do agrado na infância.

Mas a juventude é arisca e gosta destes jogos de sorte e azar. Os dois irmãos estavam convencidos que iriam ganhar. Qualquer um dos dois não tinha sequer pensado na consequência de perder uma aposta tão descabida. Até porque eles eram iguais! Como iria Maira ser capaz de diferenciá-los, compará-los, julgá-los e escolher um dos dois?! Mas nisso não pensaram Caimino e Abelardo, que se sentiam fortes e confiantes!

Na noite seguinte pegaram em Maira e levaram-na a passear à beira mar. No meio de conversas inconsequentes, em que cada um se tentava sobrepor ao outro sempre na ânsia de obter mais atenções, lá lhe explicaram que o tempo das brincadeiras a três tinha terminado! Ela tinha que escolher um deles! Para amar e se casar! O trio iria ter que terminar! Maira ficou para morrer! Não é que não tivesse já pensado no que seria estar apaixonada, e a verdade é que os gémeos não lhe eram totalmente indiferentes. O problema é que ela não se sentia minimamente capacitada para escolher um dos dois! Especialmente sabendo o mal que isso faria ao que fosse preterido. Ai linda Maira do coração de ouro… era bom que pudesses ficar com os dois não era?! Pois, mas não pode ser, vais ter mesmo que escolher um e apenas um deles!

Andava já Maira angustiada porque nem sabia por onde começar… eles eram tão iguais! Sonhadores, destemidos, divertidos, amigos, extrovertidos… comunicadores natos… sabiam sempre o que dizer e quando dizer! Protectores também… e carinhosos os dois… muito! Raio de ideia que se lhes tinha metido agora na cabeça! Ela podendo escolher preferia mesmo… ficar com os dois!

Todos os dias se reuniam ao cair da noite. E todos os dias Maira abanava a cabeça desesperada! Não conseguia decidir nem por nada! Qualquer um dos dois era um sonho de homem! E ela tinha-os aos dois na mão! Por enquanto… uma vez que o tempo passava e a pressão aumentava. Ela bem via a excitação que se apoderava dos dois de cada vez que ao seu lado passava. Maira podia ser virgem mas de parva não tinha nada! Ela bem sabia o que se escondia e se avolumava por baixo dos calções de Caimino e de Abelardo! Tinham tomado banho os três juntos tantas vezes que ela lhes adivinhava a anatomia de cor e salteado. Agora que pensava nisso… realmente um deles era mais bem dotado que o outro! Caimino tinha o dito cujo diferente do irmão! O dele era maior e mais largo! Sem querer Maira tinha descoberto uma diferença casual mas bem marcante entre os dois irmãos! Nunca lhe tinha passado pela cabeça que naquele preciso momento iria estar a recordar (e a comparar!) o formato dos pénis dos dois irmãos! Que insanidade! Escolher um homem pelo tamanho e largura do seu apêndice sexual!

A verdade é que Maira não sabia o que melhor lhe saberia… se o mais largo e comprido… se o mais estreito e curto! Como saber se o maior caberia sem o experimentar? Como saber se o mais estreito lhe serviria sem o provar? Se assim tinha que ser, pois assim seria! Ela não escolheria nenhum dos dois sem experimentar primeiro! Queria saber a sensação, sentir a diferença se é que isso alguma diferença faria! Falou com os gémeos o mais calmamente que pode e expôs-lhes a sua proposta. Tinha que fazer amor com os dois. Tinha que saber qual dos dois lhe daria maior prazer! E nem queria saber de mais nada! Ou concordavam ou então ela não escolheria nenhum dos dois!

Ai mas o que tinha Maira despoletado… Os irmãos que tão amigos tinham sido até então… começaram a olhar um para o outro com uma raiva atroz! Abelardo que se sentia inferiorizado andava desesperado com a proposta de Maira. Sentia que sendo o irmão mais bem dotado não haveria hipótese nenhuma de lhe ganhar a aposta! Ganhou um ódio tal ao irmão que já só sonhava em o matar! Que ele desaparecesse para sempre para que ele com Maira pudesse casar! Estava já convencido que perderia a mulher, o amor e a vida tudo num só dia!

Caimino pelo contrário tinha-se convencido que a aposta estava ganha. Ele bem se ria das ridículas partes íntimas do seu irmão. Seguramente alguma coisa tinha falhado quando o tinham engendrado! A sua masculinidade estava à flor da pele e mais forte e pujante do que nunca. Mantinha uma postura de ganhador que ele sabia que enervava profundamente Abelardo. Mas o que iria ele fazer se já sabia que o irmão iria perder? É que não tinha hipótese nenhuma sequer!

O que estes nossos irmãos não sabiam era como é feita a anatomia da mulher. Achavam eles que era apenas e só uma questão de tamanho e formato! Como se o prazer sexual se baseasse apenas e só nisso! Abelardo que já se considerava vencido resolveu investigar. Já que dava tudo por perdido, ao menos ia estudar para ver se de alguma (outra) forma poderia agradar a Maira. Procurou, encontrou, investigou e estudou muito bem o assunto. E ficou a saber que a anatomia feminina é muito mais complexa do que qualquer homem sequer imagina! Que muitas e muitas mulheres não tinham prazer com os seus homens e que o tamanho dos pénis deles nada tinha a ver. Nem sempre no acto a junção dos dois sexos funcionava da melhor maneira… sendo que se o homem se excitava e se vinha mais facilmente, o mesmo não se aplicava à sua parceira.

Mais do que tudo Abelardo queria agradar a Maira. E já não pensava no seu prazer mas apenas e só no dela. Ela até podia não o escolher mas pelo menos ele saberia dar-lhe prazer. Haveria de saber reconhecer… os sítios, os toques, a magia desprendida pelo despertar do prazer sexual pela primeira vez. Tanto pensava nisso, tanto sonhava e tanto estudava que andava num estado de excitação permanente o que era uma grande chatice porque se notava! Maira até gostava que assim fosse… porque sabia que ele andava a pensar nela… a todos os dias, a todas as horas e sobretudo todas as noites! Como lhe custava sonhar com ela, imaginá-la nua… quase sentir a sua pele suave e tão macia. Sonhava em agarrá-la e beijá-la e dar-lhe o primeiro e maior orgasmo de toda a sua vida!

Chegou finalmente o dia em que Caimino e Abelardo concordaram com a proposta de Maira. Caimino porque estava convencido que ganhava e Abelardo porque de tão excitado que andava quase que rebentava! Caimino resolveu ir primeiro. Não tinha nada a esconder, tudo o que tinha estava ali bem à vista… ó se estava! Agarrou em Maira e levou-a para o seu quarto. Sem pudor e sem magia, penetrou-a com o seu pau bem espetado… comprido e largo. Maira que a tal não estava habituada encolheu-se com dor e espantou-se ao ver que sangrava! Que besta quadrada, pensou ela de Caimino! O homem aliviou-se e pôs-se a andar, que típica postura de macho insensível e execrável! É que nem lhe perguntou absolutamente nada… se tinha sentido, se tinha gostado… nada de nada! Venha o seguinte!

Com Abelardo a história foi completamente diferente. Sensível e carinhoso e com medo de a magoar, ele acariciava-a mas tão suavemente que ela nem percebia onde ele a tocava. Sabiamente mas cuidadosamente ele explorava, e quase despercebidamente a soltava. Nada preocupado com o seu próprio prazer, Abelardo concentrava-se apenas e só no que lhe ia fazendo. Com os dedos e com a língua ia massajando e acariciando o seu sexo maravilhosamente molhado e perfumado. Que loucura a dele e que perdição a dela! Sentia um calor que subia do sexo até às pontas do cabelo… o desejo em crescendo que lentamente a afogava num mar de prazer e descontracção. Nem dor sentia nem nada! Apenas um pulsar cada vez maior e mais forte. Até que explodiu em ondas de uma sensação incrível de bem-estar e puro deleite! Abelardo sorria feliz por a ver assim, tão relaxada e tão mulher. Quase que a medo pediu-lhe que o deixasse penetrá-la porque precisava de a sentir por dentro, estava duma maneira que se não a possuísse seguramente morria! Ela riu-se mas também depois de tudo o que ele lhe tinha feito e dado… não se sentia à vontade para lhe recusar nada!

E assim Abelardo a penetrou e a amou… e o acto foi tantas vezes repetido e desejado pelos dois que passaram horas e horas a amarem-se e a darem-se prazer, em simultâneo e à vez. Findos os trabalhos, e exaustos que estavam de tanto se foderem, lembraram-se que Caimino haveria de querer saber o que se passava e porque nunca mais apareciam! Com um sorriso nos lábios e uma certeza no coração procuraram-no e comunicaram-lhe que se tinham entendido tão bem (mas é que tinha sido mesmo espectacularmente bem!) que Maira nem hesitara e era com Abelardo que queria ficar. Caimino teve uma fúria tão grande que se atirou a Abelardo com intuito de o matar! Lutaram os dois e durante muito tempo uma vez que se equivaliam nesses talentos. Afinal o que um fazia o outro imitava. Lutaram até caírem os dois no chão de cansaço. Assim estendidos e esgotados fizeram as pazes e concordaram que a proposta de Maira tinha sido justa e que a aposta deles tinha sido muito estúpida, desconhecedores que eram dos prazeres íntimos das mulheres! Abelardo tinha levado a melhor e nada restava a Caimino senão aceitar que o irmão casasse com Maira. Consumir-se-ia de saudades dos dois, mas percebia que a sua vida já não combinava com a deles.

16.11.05

não é um conto de Natal

Aos vinte e três anos, quando ficou grávida, foi a confirmação de um destino.
Lembrava-se da primeira ida à ginecologista, na companhia da mãe. Ainda na sala de espera, aproveitando estar a mãe a fazer crochet, lá tentou A mãe, se quiser, fique aqui. Está a fazer isso... Não me importo de ir sózinha. Mas a mãe respondeu, sorridente Não, queridinha, claro que te faço companhia.
Lá dentro, depois do exame, a mãe inquiriu discretamente acerca de uma provável infecção, que traria a filha sempre molhada. A médica respondeu Não tem nada. Há mulheres com mais sorte do que outras, piscou o olho, já vêm preparadas!
Quando saíram, perguntou à mãe o que quereria ela dizer, preparadas para quê. Já não se lembra das palavras exactas da mãe, mas na altura explicou-lhe que estava mais preparada do que as outras para ser mãe. Como conhecia bem o que se passava dentro de si, imaginou que assim os bebés escorregariam melhor cá para fora e não pensou muito no assunto.
Anos depois percebeu o que aquilo afinal significava mas, entretanto, já se tinha persuadido que a sua aptidão para a maternidade era tão elevada quanto o seu desejo de ter filhos.
Dois meses depois de planos mil em torno do bebé que haveria de nascer, num dia 24 de Dezembro, o seu corpo, depois de o matar, expulsou o embrião, directamente em cima da sua mão. Era pequeno. Igual às imagens reproduzindo visões intra-uterinas, mas mais real: mesmo morto, era reconhecível como um ser de carne. Era o seu filho.
Há muito que já sabia que as coisas más não acontecem só aos outros e, mesmo assim, ficou devastada. Depois prostrada.
A seguir tentou outra vez. Ficava grávida assim que largava a contracepção, aí não tinha dificuldades. Ficar grávida era fácil. Difícil era manter-se grávida. Desta vez ficou mais tempo.
Um dia sentiu que alguma coisa não estava bem. Era uma intuição, ou um sinal do corpo que a ciência ainda não explica. No hospital ficou a saber que o bebé já estava morto, mas a gravidez continuava activa. Aconselharam-na a aguardar a expulsão natural, para não danificar o útero, vigiando o impasse. Durante aquele mês sentia-se uma campa viva. Desforrava-se no humor negro. Quando lhe pediam segredo, dizia Já sabes, eu sou um túmulo e quando lhe perguntavam É mesmo verdade, respondia Juro, pela saúde do meu filho, criando algum embaraço.
Quando chegou o dia, foi uma cena apocalíptica. Todo o corpo em convulsões. Nua, sentada na retrete onde despejava metade das suas entranhas e do seu sangue, com uma bacia no colo, para recolher o resto. Com o pé, empurrava a porta da casa de banho, impedindo a avó paterna do bebé perdido, deixada pelo progenitor em sua substituição, pois fugira, aturdido pelo sofrimento. Pedia-lhe gritando, entre golfadas de vómito, que, por favor, não entrasse, mas ela conseguiu forçar a porta. Além da culpa absurda que sentia, por saber o seu corpo capaz de tamanha atrocidade, percebia que precisava de estar só naquela morte e nem isso conseguiu. Estava ali, nua, no meio de um cheiro nauseabundo, os seus sonhos no fundo da pia, a alma num alguidar.

Acabou por ter filhos. Consolou-se dizendo a si mesma que se tivesse tido os outros, nunca teria tido aqueles. E eram aqueles os seus filhos. Que a fizeram voltar a gostar do Natal.

Dos 7 pecados capitais a combater... escolho a preguiça!

Era uma vez um rapaz que vivia num país muito distante numa terra permanentemente coberta pelo calor e pelas cinzas dum vulcão enorme ao qual estava encostada. Nelegrume era o seu nome, e era escuro de aparência, assim como todos os rapazes e raparigas oriundos daquela terra vulcânica onde vivia. Desde cedo Nelegrume habituou-se a conviver com o calor e com o fogo que o vulcão por vezes expelia. A qualquer hora do dia ou da noite e sem aviso prévio, o vulcão acordava e reclamava, e dele brotava a lava em chama que queimava a terra e lhe dava aquele aspecto árido e negro. Os habitantes daquela região já se tinham habituado à actividade constante do vulcão e já sabiam que aquelas explosões ocorriam de tempos a tempos mas nunca eram devastadoras nem aterradoras.

Nelegrume gostava daquela entidade que se sobrepunha às outras todas e em fantasias sonhava com um dragão preguiçoso que segundo ele vivia nas mais profundas entranhas daquele vulcão amistoso. Por uma ou duas vezes tinha tentado descer para dentro da cratera infernal mas desistira sempre a meio por não suportar a temperatura brutal. Haveria de existir uma maneira de conseguir saber o que se encontrava e resguardava por debaixo de tanto fogo, calor e chamas, pensava o nosso amigo enquanto coçava as crostas de cinza na sua pele acumuladas…

Do outro lado do mundo e sem relação aparente vivia uma princesa tão branca como a neve que cobria o reino onde vivia. Chamava-se Brancalba esta nossa princesa de sonho, e parecia uma boneca de porcelana por ser tão perfeita, delicada e fina. Era linda a princesa e por momentos petrificava todos os que pela primeira vez a olhavam apenas e só pela força da sua beleza. Linda, inteligente e curiosa… queria muito viajar e sair daquele reino de frio e gelo onde não encontrava quem lhe aquecesse a alma e o corpo. Em sonhos visualizava terras distantes, onde o gelo se derretia dando lugar a prados verdejantes e riachos plenos de vida, cor e fantasia.

Um dia uma estrela que passava no firmamento distante reparou num olhar que nela se fixava. Eram os olhos da princesa Brancalba que suplicantes lhe pediam que parasse para com ela falar. Queria Brancalba viajar, queria muito e para muito longe. Não suportava mais ali ficar, morria ela própria petrificada no meio de tanto frio. O gelo entranhava-se-lhe nos membros que se transformavam em garras geladas e sem vida. Cada dia que passava o azulado da pele indicava uma morte praticamente certa à medida que a sua temperatura corporal descia.

A estrela teve pena de Brancalba e resolveu conceder-lhe um desejo. A princesa desejou então ser transportada para onde o gelo nunca chegasse… para o coração de um vulcão! Sem saber do que falava, mas porque assim o desejava, a estrela pegou nela e levou-a até ao outro lado do mundo. Chegaram a um vulcão impressionante e Brancalba assustou-se porque nem em sonhos tinha pensado que seria assim tão escaldante! No entanto o calor derreteu-lhe as extremidades geladas e ela sentiu-se subitamente renovada. A estrela bateu a uma porta entretanto materializada na encosta do enorme vulcão e de dentro saiu um personagem como Brancalba nunca tinha visto! Um enorme dragão que se arrastava penosamente por entre os labirintos internos daquela montanha infernal! A estrela confiou-lhe a princesa e pediu-lhe que a guardasse por uns tempos porque tinha um plano em mente e queria ainda ver se conseguia ou não executá-lo. Nem Brancalba nem o dragão entenderam os seus propósitos, mas quem consegue entender os propósitos duma estrela?!

É que esta estrela distante já se tinha tornado confidente do nosso amigo Nelegrume. E achava ela que a junção de Brancalba com tão nobre embora enfarruscado coração seria porventura uma arriscada missão, mas a consegui-lo talvez se gerasse ali uma eterna paixão! Claro que as estrelas não percebem nada de assuntos do coração, mas esta achava que sim, que era mais que as outras!

Nessa noite iluminada pela luz sempre constante do vulcão, a estrela apareceu a Nelegrume que mais uma vez se sentava à boca da cratera. Falou-lhe na princesa de porcelana, vinda directamente do outro lado do mundo, da terra da neve e do gelo. Nelegrume ficou confuso! Que coisas seriam essas tão estranhas e distantes? Ele que se habituara a viver sempre em solo ardente, agora a estrela falava-lhe do frio que fazia bater o dente! Espicaçou-o e aguçou-lhe de tal forma a curiosidade que Nelegrume já se sentia com coragem para se atirar ao vulcão! Mas era preciso ser paciente e saber por onde entrar para dentro da montanha incandescente.

Andou a vaguear e a rodear o monstro flamejante este nosso herói de negro sarapintado. Buscou e buscou e um dia encontrou o que lhe pareceu ser uma pequena saliência em forma de coração trespassado por uma pequena seta pontiaguda. Virou e revirou e finalmente conseguiu abrir a passagem e dar início à sua viagem pelos interiores tenebrosos daquele vulcão infernal. Andou e andou e quanto mais andava mais parecia que se afastava do centro de actividade, do cérebro daquela entidade que de tão bem conhecida já não era por ele temida.

Ao fim de uma imensidão de tempo e exausto de tanto andar e correr, Nelegrume revoltado começou a gritar impropérios contra a estrela que o tinha enganado! Onde estaria a tal princesa do gelo? De repente ouviu um rugido e um dragão dengoso apareceu à sua frente. Lentamente o dragão falou-lhe da princesa que mantinha cativa. Já Nelegrume se impacientava para chegar ao pé da princesa prometida. Onde estaria ela? Onde estaria a tal beleza porque tanto procurara? O dragão pediu-lhe para o seguir e lá se foi ele arrastando, mais morto que vivo e Nelegrume muito irritado por lhe ter calhado um monstrengo tão molengão!

Chegaram finalmente ao coração do vulcão e eis senão quando o que Nelegrume encontrou quase serviu para lhe cortar a respiração! Era linda e maravilhosa a princesa sim, mas estava adormecida… seria preguiçosa? De tanto conviver com aquele dragão molengão, a princesa tinha-se tornado assim também! Sabia-lhe bem aquele lugarejo interdito, tão quente como nunca tinha visto nem sentido! Abriu os olhos devagarinho e sorriu para Nelegrume. Ai senhores que comoção! O rapaz estava em pulgas para levar dali a bela princesa e mostrá-la a todos os enfarruscados da sua aldeia! Mas quem a demovia da sua ideia de ali ficar? Ela sentia-se tão bem, é que não lhe apetecia nada, mesmo nada, agora ter que se levantar e andar!

Nelegrume já desesperava… Como iria ele convencer Brancalba a sair daquele buraco onde se enfiara? Não podia ir-se agora embora. Como iria ele convencer o resto dos enfarruscados que dentro da montanha vivia a princesa mais linda de todo o mundo e arredores? Nelegrume tinha que pensar num esquema que fizesse a princesa despertar do torpor em que se encontrava. Parecia que já nada a motivava… queria apenas que a deixassem ali ficar, a gozar o fogo exterior que tão bem lhe sabia depois de tantos anos à procura dum calorzinho que lhe desentorpecesse os membros e o resto do corpo todo!

Nelegrume sentou-se e pensou como poderia provar à princesa que não era só o calor exterior que a aqueceria! É que a preguiçosa da mulher já nem andar queria! Resolveu então dormir um pouco para ver se em sonhos alguma solução lhe surgiria… E não é que sonhou mesmo com um caminho certo e seguro para que ela sentisse que outro tipo de calor existia e não era só ali! Acordou com um tesão que só visto! Aproximou-se da princesa e sem lhe pedir permissão penetrou-a num só movimento! Ela nem se apercebeu de tão inusitado gesto, mas soube-lhe bem a sensação! Olhando-a nos olhos, Nelegrume inspirado pelo fogo do desejo e da paixão disse-lhe… “Levanta-te e vem comigo e juro-te que todos os dias acenderei um fogo tão grande no teu interior que nunca mais irás sentir frio em parte alguma desse teu corpinho jeitoso!” “Ena!” pensou a princesa Brancalba para com os seus botões! É verdade que nunca tinha sentido o prazer carnal, e que aquilo que ele lhe fizera não tinha igual! Se a promessa dele era verídica, então ela queria mais sim! De repente e sem se aperceber, já se estava a levantar e a chegar-se mais ao rapaz enfarruscado e de pau espetado!

E com a promessa que todos os dias a foderia, o nosso rapaz conseguiu levá-la dali para fora. Não foi fácil arrancá-la das garras da preguiça, mas com esta história se prova que para grandes males, grandes remédios! Sorridente ficou a estrelinha da sorte que apesar de nunca ter fodido sabia que desse tipo de junção entre humanos se desprende um calor tal que até ela bem lá no alto o sentia!

o gajo que inventou a roda fê-lo para a oferecer à mulher

Eu tenho cá p'ra mim que os homens deviam ter como objectivo na vida idolatrar uma mulher. Enfase no "idolatrar" e no "uma". Por exemplo, quando vejo no rotulo de um vinho que "tem um aroma floral, a violetas e rosas" penso que o énologo que o fez tinha uma mulher a quem adorava, e que em vez de lhe oferecer o tão batido ramo, fez um vinho com as próprias mãos para lhe oferecer numa noite qualquer. Da mesma maneira tenho na ideia que um pintor ou pinta a mulher que venera ou temas que lhe sejam dedicados e um cientista dedica as suas investigações a melhorar a vida da idolatrada (descobrir a cura para pequenas mazelas de que sofra, ou desenvolvimento de equipamentos que lhe melhorem a qualidade de vida). Por outro lado, não desconsidero os que não têem profissoes criativas, e que, em não podendo fazer umas instalações eléctricas em forma de coração, ou afinar um motor ao tom de voz amado, podem idolatrar as suas mulheres de outras maneiras: pensando nelas a cada folego, imaginando-as em cada esquina, e resistindo ao sofrimento que é o trabalho (já que os afasta delas) apenas com a lembrança de que o fruto deste pode ser usado em prendas que a façam feliz.

Boa noite

O céu quase nunca quer a luz da cidade. Por isso ela é devolvida. Entre nós e noite paira, então, uma luz alaranjada, dissimuladora.
Hoje não. Na minha janela, só o distinto e raro piar (como estalidos) de aves nocturnas e uma noite lisa, azul indigo. A projecção dos candeeiros da rua circunscreve-se ao seu território. Do lado direito uma nuvem em franja, pequena. No fundo da cúpula, uma dádiva: estrelas honestas e brilhantes. Sete, para ser precisa.

15.11.05

Adultez

Quando era pequena achava que um gajo era adulto quando tinha 18 anos e passava a poder conduzir e votar e beber. Aí é que ia ser, pensava eu, um sem fim de noites de bebedeira a saltar de discoteca em discoteca por esse mundo fora, responsabilizada pelos meus actos e sem ter de dar satisfações a ninguem. Quando lá cheguei já estava farta de discotecas, a falta de jeito não me permitiu ter carta, responsabilizada pelas coisas do costume e a ter de dar as mesmas satisfações às mesmas pessoas a quem tinha de dar nos longíquos 16 anos. Aí começei a a achar que adultos eram as pessoas de 25, livres e independentes, com casa própria e emprego estável. Quando lá cheguei, vi-me com as responsabilidades do costume acrescidas das responsabilidades de patrões e empregadores, sem casa que os euros afinal não vinham em catadupa e o nobel tarda em chegar, já com carta que quem tenta cinco vezes sempre alcança, mas ainda com a sensação de ser a mais nova da família, a miúda, a rapariga. Aí comecei a pensar que havia de ser aos 35, que por essa altura já havia de ser casada e as pessoas iam-me tratar por senhora, quem sabe se dona Isabel, havia de haver um filhito que me tirasse o fardo de mais nova e que fizesse as pessoas ver que já tinha idade para os ter, e aí sim, iria ser adulta e respeitada.
Agora a idade começa a pesar, os bons velhos tempos já se contam às decadas, e entre dores nas articulações e adormecer antes das festas chegarem ao fim, começo a ter as minhas dúvidas e a achar que nem aos 80 vou deixar de ser a menina.

crescimento não clínico

desde pequena que para mim era um mistério entender o que faz uma pessoa crescida. inúmeras versões eram para mim pseudo-aceites com um tremendo cepticismo disfarçado. sim, é-se crescido quando se tem a chave de casa; sim, é-se crescido quando se come a sopa sem levantar ondas; quando se passa a usar soutien; quando se tem o período, quando se deixa de acreditar que os pais sabem tudo; quando se veste a camisola da mãe e não fica grande; quando se faz dezoito anos; ou antes, quando se tem o primeiro bilhete de identidade; quando caem os dentes de leite e nascem os outros; quando no médico deixámos de ir às consultas de pediatria e somos empurrados para os mesmos médicos a que vai a terceira idade;quando deixamos de fazer uma série de asneiras e passamos a fazer outra série de outra espécie de asneiras; quando deixámos de achar piada brincar às casinhas; quando começamos a prestar atenção aos noticiários na televisão; quando a palavra dieta passa a ser pouco indiferente; quando o mundo que criamos com os amigos é uma especie de nacionalidade; quando a família que fizemos é ou foi também uma nacionalidade, quando isto, quando aquilo.. mas é-se crescido mesmo quando? nunca consegui definir. sempre senti que era adulta mesmo em pequena e em paralelo penso sempre que sou afinal descoberta porque sou ainda uma miúda em andanças reversíveis entre mundos que estranhamente se entranham um no outro da forma mais esquisita, contaminando-se e salvando-me de inúmeras interferências onde o delírio de perder o pé dentro de um mundo ou do outro é diariamente real. ainda hoje, cada dia,nas pequenas e nas grandes coisas, sinto-me no fio da navalha: esse lugar subtil, nada simétrico, de onde se vê os dois lados: os dois universos.

O pior de tudo mesmo…

Quando as nossas crianças nascem todos e todas sabemos que as nossas vidas mudam muito. Deixamos de fazer muitas coisas que fazíamos antes e às vezes temos pena mas por outro lado fazemos outras coisas que também podem ser compensadoras. No entanto há um dos privilégios que perdemos que a meu ver é de todos o que de longe afecta mais o nosso quotidiano… e é ele o privilégio de puder dormir!

Antes da minha filha nascer eu era daquelas pessoas que dormiam poucas horas (6 ou 7 por noite chegam-me perfeitamente) mas precisava de dormir aquele sono ininterrupto para me sentir minimamente descansada de manhã. Às vezes fazia directas, na universidade e depois no trabalho (e muito raramente em borgas) que me custavam semanas a recuperar. E depois ela nasceu e se há lá bebés com dificuldades em dormir, ela era um desses! Durante quase três anos e todas as noites havia festa fosse às 2, às 3, às 4, ou às 5 da manhã… ela custava tanto a adormecer e depois acordava 2 ou 3 horas depois com a maior energia do mundo e a gritar “Mamã queo bincai!” Ai… Agora a história repete-se com a irmã mais nova e eu começo a pensar nos truques que fazia quando chegava ao escritório com uma soneira que nem podia (como por exemplo fechar-me na casa de banho e dormir uma meia horita ali mesmo sentada na sanita! :-S)

E serve isto apenas para concluir que o pior de tudo em relação a ter crianças (pelo menos para mim) é a questão do sono! De não conseguir dormir à noite… de assim que deito a cabeça na almofada e fecho os olhos a pensar que agora é que é… (ouço de imediato alguém a chamar)… e penso que afinal agora ainda não é… e quando é que será??

Resta-me a vaga esperança que um dia sejam elas a querer dormir e eu a não as deixar. Embora no caso da mais velha começo seriamente a duvidar… É que por mais tarde que ela se deite acorda sempre antes de mim! :-S

Mil novecentos e noventa e dois

Tenho uma amiga que, quando menstrua e usa tampão, o tira para fazer xixi.
Por mais que lhe explique que não precisa de o fazer, ela não acredita.


(Estive mais de dez anos sem a ver. Quando nos reencontrámos, algures num supermercado, não tive coragem de lhe perguntar se, dois filhos depois, ainda acreditava na teoria do orifício único).

14.11.05

36

É o meu tamanho. Se estiver bem medido (porque ele há trinta e seis que parecem quarentas, talvez para enganar e agradar a clientela) caibo nele como uma luva apertada nos sítios certos e confortável nos outros. Sou uma mulher totalmente trinta e seis e, enfim, orgulho-me disso, num país onde a obesidade é (eu ia a escrever que é uma das doenças que mais mata, mas há sempre outra pior, consoante é dia do cancro do cólon ou da psoriase da unha do dedo grande do pé) uma grande maçada e desgosto para todas as comedoras de pastel de nata a acompanhar a bica. Eu, de ruindade, posso comer todos os pastéis de nata que me apetecer que o trinta e seis se mantém. Paciência, azareco, olhem meninas, acontece, umas nascem para serem mais gordas, outras mais elegantes (mas não magrézimas que os homens, dizem-me eles, gostam de sítios onde se possam agarrar que sejam fôfos e não ossudos).

Mas este texto não é (também é mas não é só) para colocar um tom verde nas cútis das mais redondas e balofas: este texto é para constatar uma alteração recente nos tamanhos trinta e seis das lojas espanholas mais (já foram mais) baratas: isto relativo a calças, portanto rabos 36. Que é o meu caso.

Ora andava eu nas compras de fim de semana a pensar que talvez me caissem bem umas calças daquelas de rapazola de liceu cheias de bolsos e côr de tropa, quiçá atilhos em baixo e porque não? Tendo figura para tal, pareceu-me boa ideia: mas já não me pareceu grande investimento o gastar o rendimento disponível em tal trapinho (quando há tanta tanga para comprar) - sendo isto um trapo literal, quaisquer meia dúzia de euros fariam a festa. E fui passear o meu rabo 36 pelos gabinetes de provas de tais lojas de porta de garagem e música a condizer, com vários trinta e seizes de várias cores para experimentar.

Pois, meninas, de rabo estava tudo maravilha o gancho a assentar como uma hábil mão que passa pelo meio das pernas vinda de tr...enfim, tudo nos conformes, mas a cintura, ah! A cintura era a desgraça! Por mais 36 que fossem as calças, as cinturas eram pelo menos 42. Tudo aquilo sobrava de pano e note-se que eu sou criatura que já conheceu as alegrias da maternidade e confesso que posso eventualmente no passado ter passados por tempos em que abria o botão de cima da calças. Mas neste caso, aberto ou fechado, ia dar ao mesmo: a cintura era igual à largura de ancas, em todos os modelos.

Devolvi-os à simpática menina (tamanho 40 em taco de pia de metro e meio) que me tinha atendido e já ia a sair, ainda intrigada, quando olhei melhor para ela, a amável balconista: mistério resolvido. As calças do mesmo modelo, a camisola fora de bordo, uma risca de cintura à vista como é de uso: as actuais cinturas de calças, meninas, são desenhadas para comportar e confortar um excesso de formosura que as adolescentes carregam ali por aquelas bandas; é o saco do pneu sobresselente. Os fabricantes hoje em dia pensam em tudo...

Sick sense of humor

"I think that God has a sick sense of humor and when I die I expect to find him laughing…" e por aí fora cantavam os meus (de novo!) contemporâneos Depeche Mode que voltaram assim como tantos outros que se recusam a sair e a deixar de ocupar um lugar bem no meio do palco, por mais velhos e caquéticos que estejam (e eu estava obviamente a falar dos Rolling Stones! :-P)

Portanto the way things work according to me é o seguinte. A gente pode sempre desistir e meter a pistola à boca. Mas isso não tem piada! Isso não nos dá espaço de manobra para ficar por aqui e ver o que se passará depois, não é? Se eu fosse crente e achasse que a minha alma iria ficar por aí a vaguear (e porque não a assombrar!) ainda era como o outro. E aí era eu que me iria rir por último (e querem melhor do soltar umas gargalhadas bem sonoras lá do além?!)

Assim como não acredito em nada para além desse momento terminal, desse apagão brutal, ficar por aqui é a minha única opção neste momento. E quando for porque sei que lá terei que ir um dia, não será por minha opção e se puder hei-de ir kicking and screaming to be left behind! E tudo farei para atrasar essa minha hora final… porque gosto de estar viva! Gosto de sentir o ar a bater na minha cara, gosto de olhar para o sol, gosto de ouvir os risos das minhas filhas e de ver os seus olhos a brilhar, gosto de ver as cores do Verão e as cores do Inverno, gosto de cheirar a maresia e as flores a despontar, gosto de ouvir música e gosto de dançar. E gosto de gritar e também gosto de chorar. E gosto de amar e também gosto de sofrer quando tem que ser!

É isso… Eu gosto muito de viver! E não quero morrer! E se há alguém à minha espera do outro lado … well, ele que vá esperando sentado!!

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